13 peculiaridades cotidianas da Alemanha

Com muitos anos passados em terras germânicas, às vezes é engraçado lembrar que um dia coisas tão inusitadas hoje sejam tão comuns. Nos acostumamos com o comércio fechado aos domingos ou a velocidade sem limites das estradas quase perfeitas. Mas como novata, todo dia se aprende algo novo até as pequenas gafes diminuírem com o tempo.

 

Demora-se um tempo para se acostumar com tanta novidade, mas confesso que até hoje às vezes me surpreendo com certas coisas.

 

Que surpresas do dia-a-dia nós vivemos na Alemanha? Confira algumas que me deixaram chocada, maravilhada... ou ambos!

 

 

 

1. Receber pacotes de vizinhos

Se você está em casa e o correio bate na porta com um pacote que não está endereçado a você, é comum recebê-lo em nome do vizinho. No começo, eu achava isso muito estranho, aquela frase que minha mãe dizia “não aceite nada de estranhos” ficava martelando na minha cabeça. Recusei alguns pacotes, para o descontentamento do entregador. Meu marido dizia que essa coisa de não receber o pacote dos outros era maluquice, mas eu teimava que sabe-se lá o conteúdo do pacote, enfim.

 

Mas a questão toda é que essa relação de confiança existe muito por aqui. No Brasil cresci com a paranoia de que não se deve confiar em ninguém, suspeite de tudo e todos (exagerado, eu sei). Aqui você não fica naquele estado de alerta constante, acredito que existe esse sentimento quase comunitário de ajudar ao receber o pacote do vizinho, pedir para guardar uma chave extra caso se tenha alguma emergência, essas coisas. Hoje recebo ainda muitos pacotes dos vizinhos – e eles os meus!

 

Esse pacote não é meu!
Esse pacote não é meu!

2. Quando o sinal está verde para pedestres, carros também podem passar

O sinal está verde para pedestres, mas é o carro que passa.
O sinal está verde para pedestres, mas é o carro que passa.

Para mim esse sistema de tráfego ainda está entalado na garganta, porque para mim não faz sentido algum. Quando o sinal de trânsito é verde para pedestres, os carros em cruzamentos também podem passar se não houver pedestre nenhum. O problema é que os motoristas mais afoitos (existem muitos) não estão prestando atenção, ou estão com pressa e passam de qualquer jeito, e você... quase atropelada, xingando o motorista um monte.

 

E isso já aconteceu comigo várias vezes. Alguns acidentes noticiados por aqui (ainda são poucos) são casos justamente como esses. Mas eles não mudam essa regra: afinal, num país líder em produzir carros, o que menos se espera é tirar qualquer vantagem do motorista.

 


Mas existem outras regras que para mim fazem absoluto sentido, e portanto foram mais fáceis de me adaptar. Por exemplo, se o sinal de pedestres está vermelho e não tem carros, não se atravessa de jeito nenhum. Pode estar chovendo, nevando, ventando, não interessa, o pedestre só atravessa quando o sinal está verde (aliás, você pode até ser multado se atravessar no vermelho). Isso funciona muito como exemplo para crianças, principalmente.

 

3. Uma forma diferente de consumo

Tenho a impressão que no Brasil ficamos com o pé atrás em comprarmos coisas usadas. Para muitos (aqueles que adoram ostentar), é coisa de pobre. Na Alemanha, essa lógica é um pouco diferente. Logo quando cheguei não tinha dinheiro para comprar um casaco novo; fui logo num brechó e fiz minha compra. Mas não é só estudante pobre que tem esse hábito: o tal “mercado das pulgas” (Flohmarkt) vende de tudo para gente de todas as classes sociais. Aqui se compra muita coisa usada, de livros e roupas até móveis e acessórios para decoração.

 

Outra coisa que logo me adaptei é que na Alemanha não existe essa cultura de pagamento a prestação. Para coisas mais caras como eletrodomésticos, carros e casas, existe. Mas para roupas, supermercado, os itens que precisamos no nosso dia-a-dia, tudo é feito à vista. No começo é um pouco diferente, mas isso te ajuda a não se endividar, a manter um certo controle das suas finanças pessoais. E isso tem muito a ver com o alemão em si: controle, simplicidade, planejamento.

 

Um mercado de coisas usadas para crianças (Babyflohmarkt), muito comum na Alemanha.
Um mercado de coisas usadas para crianças (Babyflohmarkt), muito comum na Alemanha.

4. Levar lanche não é farofada nem coisa de pobre

Da mesma forma que comprar coisas usadas não é malvisto, levar seu lanchinho para uma viagem, trabalho ou qualquer lugar é super comum. Logo quando cheguei achava meio estranho, afinal no Brasil eu não via ninguém carregando sua “lancheira”, uma garrafa térmica ou até sua própria água. Há alguns anos atrás eu viajava muito de trem e via com frequência executivos de terno e gravata com sua lancheirinha com o sanduíche feito em casa, famílias inteiras fazendo praticamente um piquenique no vagão.

 

Aos poucos você se acostuma a ter sempre uma garrafa d´água na bolsa, a levar um lanche para um passeio mais longo. Ninguém vai te olhar feio; eu juro!

 

5. Relação com o corpo e nudez

Freikörperkultur, algo que demora para se acostumar.
Freikörperkultur, algo que demora para se acostumar.

Em terras tupiniquins temos uma relação estranha com nudez. Podemos usar biquínis minúsculos, mulheres de seios de fora podem desfilar no Carnaval, mas muito do que vemos como nudez está associado a sexo. Na Alemanha, a nudez tem um caráter associado à liberdade. Freikörperkultur (FKK), ou cultura do corpo livre, é uma parte importante da identidade alemã.

 

Dessa forma, o primeiro verão em Munique foi uma série de episódios de nudez (dos outros), algo que me surpreendia a cada situação inusitada, como um senhor de idade peladão andando de bicicleta. Foi algo que primeiramente me deixou encabulada, depois passei a considerar como normal. Ainda não tive coragem de fazer o mesmo, mas quem sabe um dia, né?  

 

 


6. Domingo é dia de descanso

Os alemães levam o domingo bem à sério. Não é só a questão do comércio estar fechado, é também o dia em que tudo para, o dia do descanso, o Ruhetag.

 

Isso significa que não só você terá que deixar as compras para a semana seguinte, como quaisquer melhorias que você queira fazer em casa e, dependendo das sensibilidades de seus vizinhos, até usar o aspirador de pó ou a máquina de lavar roupa. Muitos reclamam do barulho de crianças brincando, apesar da lei alemã não considerar os ruídos de criança como um barulho que se pode reclamar.

 

7. Tudo é vírus, dizem os médicos

Robin diz que precisa de antibióticos por causa de uma gripe; Batman rebate com o comentário mais utilizado pelos médicos alemães: é um vírus!
Robin diz que precisa de antibióticos por causa de uma gripe; Batman rebate com o comentário mais utilizado pelos médicos alemães: é um vírus!

Não foram poucas as vezes que fui ao médico, principalmente no inverno. Mas independentemente dos meus sintomas, o diagnóstico parecia ser sempre o mesmo: é vírus. Não se faz exame, às vezes o médico nem se dá ao trabalho de chegar perto (afinal, é vírus, e pode ser contagioso). Pedir um exame mais detalhado dá um trabalho... Enquanto no Brasil os médicos passam exames e mais exames, na Alemanha é só quando se está muito mal que o médico, se tiver boa vontade, vai receitar. Isso com adultos, velhos, crianças. Vejo muitos casos por aqui que pediatras deixam os dias passarem com uma criança com uma febre lá em cima até se darem ao trabalho de passar um exame. Às vezes é até descaso mesmo...

 

Por outro lado, se você está se sentindo doente, pode-se faltar os primeiros três dias de trabalho sem atestado. Daí no terceiro dia você dá uma passadinha no médico, ele diagnostica um vírus e te dá um atestado de uma semana sem maiores perguntas (já aconteceu comigo mais de uma vez). Nunca vi um lugar tão fácil de conseguir atestado, mas por um lado também tem muita gente que abusa. Afinal, malandro existe em qualquer lugar!

 


8. Os homens fazem xixi sentadinhos

Para mim não faz diferença alguma, mas os colegas machões logo estranharam. Alguns estabelecimentos tem mictórios, mas alguns não. Uma casa de um amigo meu tem um adesivo no sanitário pedindo aos rapazes que por favor se sentem na privada.

 

Esse movimento se originou na Alemanha e se espalhou pelos países nórdicos e alguns europeus, principalmente devido à bagunça urinária que muitos homens fazem ao manter-se de pé. Mas essa cultura teve um leve baque quando um juiz alemão determinou que o proprietário de um apartamento teria que devolver a caução mesmo com as manchas de urina no chão deixadas pelo usuário do apartamento. Liberdade é tudo, mas o costume cada vez mais pede para os rapazes manterem o banheiro limpo. Amém!

 

¨Favor urinar sentado¨, numa versão radical
¨Favor urinar sentado¨, numa versão radical

9. Medo de violência é incomum

No Brasil eu fui educada a ter medo. Fechar as janelas do carro, não usar nada de valioso na rua, não deixar a bolsa aberta, não andar sozinha à noite. Na Alemanha, e principalmente em Munique, essa paranoia toda não existe. Logo quando cheguei ainda tinha muito desse estado permanente estado de alerta, sempre olhando para trás (tem alguém me seguindo?), apressando o passo.

 

Hoje em dia a sensação de segurança é tanta que ao viajar para Itália nas últimas férias eu agia como se estivesse na Alemanha (bolsa aberta, máquina fotográfica na mão, enfim...). Essa é uma das “peculiaridades” que, antes vir para cá, não sabia existir. Não sabia que era possível haver um lugar no mundo onde se pode viver com esse nível de segurança. Esse lugar existe!

 

10. Obsessão por cerveja & co

Cerveja de trigo com suco de banana, o ¨Bananenweizen¨
Cerveja de trigo com suco de banana, o ¨Bananenweizen¨

Os alemães tem uma certa obsessão com bebidas. Para começo de conversa, na Baviera os mais tradicionais consomem cerveja logo no café da manhã. Pode-se misturar o que quiser com cerveja: até suco de banana com cerveja existe.

 

Mas não só de cerveja vivem os alemães: aqui se toma bastante o Schorle, a mistura de um suco de frutas qualquer (geralmente da caixinha mesmo) com água gasosa. O Apfelschorle (o Schorle de maçã) é praticamente um caso de amor. Outras variações também são bem vindas: para os que gostam de bebidas quentes no inverno, pode-se experimentar a caipirinha quente num Mercado de Natal (eu prefiro a original).

 

E vale a pena lembrar que brindar é, independentemente da bebida, um must, mas lembre-se que é preciso olhar nos olhos ao falar Prost! (saúde!) para não te dar azar. Pois é, até com bebidas os alemães tem algumas superstições. Quem diria...

 


11. Também dá azar...

... brindar com água. Não, não, não!

 

... desejar Feliz Aniversário antes da hora.

 

... dar adeusinho aos seus companheiros do Stammtisch. O ideal é bater na mesa, pois assusta o demônio.

 

... deixar a boca aberta num bocejo, pois demônios podem penetrar a sua alma.

 

Fiquemos atentos!

 

12. Máquinas pra que te quero

Quantas coisas na Alemanha são resolvidas por máquinas? Um monte! Como novata você fica meio perdida, mas aos poucos você acostuma a comprar o seu tíquete de transporte na máquina (com um zilhão de botões), devolver garrafas plásticas para reciclagem e até fazer check-in num hotel. A vida alemã está cada vez mais automatizada, mais conveniente.

 

No começo pode ser confuso, afinal também estamos muito acostumados com o contato humano, mas a Alemanha é um dos países líderes em automação e engenharia; não poderia ser diferente!

 

Um self-service check-in num hotel em Heidelberg.
Um self-service check-in num hotel em Heidelberg.

13. Faça chuva ou faça sol, sair de casa é preciso

Para mim chuva significava ficar em casa. Ainda em Salvador, as avenidas logo entopem, tráfego multiplica, enfim, uma confusão.

 

Na Alemanha essa relação com o tempo é muito diferente. Lógico, se o tempo está ruim, muitas pessoas deixarão de sair. Mas muitas não. Basta usar roupas apropriadas, dizem os alemães, e eles desbravam qualquer tempo. Não existe a desculpa de “tempo ruim”, até porque quando o tempo não está ruim na Alemanha? Se as pessoas deixarem de sair por causa de qualquer chuvisco, serão raras as vezes em que se coloca a cara para fora da porta.

 

Mas esse é um aprendizado que leva muuuuuito tempo (pelo menos para mim).

 


E aí, que outras peculiaridades você já viu na Alemanha? Divida sua experiência!

 


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