Au, au: por que ao complexo de vira-lata permanece atual

Numa discussão sobre a utilização de estrangeirismos ou palavras em outros idiomas em livros brasileiros, comentei minha fascinação com línguas estrangeiras e diferentes culturas. Rapidamente me disseram que eu sofria do complexo de vira-lata. Não vou mentir, esse comentário me doeu.

 

Minha reação foi negar que sofria desse mal; não é porque eu goste de viajar e de culturas que isso me garanta o diagnóstico vira-lata. Muita gente de outras nacionalidades que conheço têm a mesma fascinação.

 

Mas o comentário me fez pensar: será que lá no fundo, no fundo, essa fascinação toda tem alguma coisa a ver com o complexo de vira-lata?

 

O complexo de vira-lata é uma expressão criada pelo dramaturgo e escritor brasileiro Nelson Rodrigues. O contexto da expressão vem da derrota desastrosa do Brasil para o Uruguai na Copa do Mundo de 1950, mas é algo que perpassa os limites do esporte nacional. É uma síndrome de inferioridade que nos acomete em ver tudo no Brasil por um ângulo negativo.

 

Babando o ovo da estrangeirada

Quem nunca ficou besta quando se deparou com um estrangeiro na terra brasilis? Quem nunca sentiu aquela vontade de levar o gringo para passear, bater papo e estender o tapete vermelho? Se o estrangeiro fala bem do Brasil, essa terrinha de gente tabaroa, ave Maria! É praticamente elevado a astro de cinema.

 

Em diversos aspectos da vida notamos esse comportamento. Pode ser uma simples visita de um(a) turista, um(a) estudante que venha fazer um intercâmbio, um(a) executivo(a) transferido para trabalhar por um tempo, artistas, músicos, escritores. Na literatura então é um paraíso para quem vem de fora.

 

Se a música brasileira ainda tem um certo espaço assim como as novelas, quando se trata de cinema e literatura estamos cada vez mais estrangulando a identidade nacional. É só ver os livros destaque nas livrarias: só de escritores renomados – e estrangeiros. O orçamento das editoras são alocados para vender o que se vende sem esforço. O escritor brasileiro pena para conseguir espaço. Bastou vir do estrangeiro para ser notícia; é a realidade que nos deparamos todos os dias.

 

Até no turismo, quantos de nós preferem ver o mundo lá fora a conhecerem o nosso próprio Brasil? É claro, turismo no Brasil é caro, mas ainda assim muitos de nós preferimos converter anossa moeda fraquinha e passar uns tempos no exterior. Eu conheço mais a Europa do que o Brasil. E você?

 

A ilusão de que tudo no exterior é melhor não é verdade

Moro há muito tempo fora do Brasil, e é claro que a Internet é a forma de acompanhar as notícias de longe. Nesse contexto, temos acesso a todas às podridões, lambanças e escorregadas que me fazem colocar a mão na cabeça e sussurrar: ainda bem que não estou no Brasil.

 

Não estou sozinha nessa situação. É só dedicar um pouquinho de tempo para ler as impressões dos meus conterrâneos para anular todas as coisas maravilhosas do Brasil em favor das coisas pavorosas. Lemos coisas como É só no Brasil mesmo, Só podia ser brasileiro, enfim, as frases de praxe que nos colocam para baixo, num redemoinho de inferioridade.

 

Mas quando colocamos nosso pensamento crítico para trabalhar, vemos que não é bem assim. É lógico, o Brasil tem problemas terríveis e que agora, mais do que nunca, estão mais presentes. Mas essa dicotomia entre no Brasil tudo é ruim e no estrangeiro (Europa ou Estados Unidos) tudo é melhor é simplesmente absurda.

 

Tem muita gente que pensa assim, desde aqueles que se fascinam com os contos de fadas de férias (ou seja, vêem os castelos, os shoppings, enfim, mas não vêem como a vida funciona no exterior) até que aqueles que nunca saíram do Brasil. As fantasias mais loucas habitam nossas cabeças. Fato é: mesmo lugares ditos de primeiro mundo tem problemas. Na Alemanha, um país super desenvolvido social e economicamente, existe pobreza crescente a problemas de racismo e xenofobia. Nos Estados Unidos, país que muitos brasileiros idolatram, não existe licença maternidade e pessoas vão à falência para pagar uma conta de hospital. Essas referências que nós idealizamos – a Europa e a América do Norte  – não são nenhum mar de rosas.

 

A babação de ovo que fazemos com os estrangeiros não é recíproca: quando você pisa nos países desenvolvidos, você é a escória da humanidade. Você é peão, imigrante, a base da pirâmide. Ninguém vai se fascinar com você ou suas origens.

 

A nossa inferioridade é seletiva

Um ponto importante: o que idealizamos são os norte-americanos e os europeus. Asiáticos, africanos e nossos vizinhos sul americanos não são objeto da nossa fascinação. Nossa inferioridade é  parcialmente seletiva (exceto no futebol, como disse o grande Nelson).

 

A colonização que tivemos no Brasil é uma das origens para o complexo de vira-lata. Éramos inferiores aos portugueses e, como um país construído artificialmente, vimos a nossa cultura ser criada a partir de influências estrangeiras, principalmente portuguesas, francesas e britânicas. Algo unicamente brasileiro, que viesse diretamente do povo, jamais seria aceito pelas elites, que achavam tudo que era europeu melhor, mais bonito. Miscigenação, algo intrinsecamente brasileiro, era visto como algo inferior, a causa de todos os males. A raça branca era superior, diziam os intelectuais, inclusive Monteiro Lobato, cânone da literatura brasileira.

 

Portanto, não é só ser estrangeiro; é ser europeu ou americano, as nossas referências do que é ser desenvolvido, bem-sucedido, belo. Não é à toa que tantos artistas e escritores negros ainda têm tanta dificuldade para entrar no mercado artístico brasileiro. O complexo de vira-lata e o racismo tem relações estreitíssimas.

 

Reverter o complexo de vira-lata não é se tornar nacionalista

Essa síndrome da qual falamos tem a ver com a nossa inferioridade, algo tão intrínseco que nem percebemos. É parte da psiquê tupiniquim. É o que nos faz destilar o veneno sobre o Brasil e os brasileiros, que automaticamente nos faz abaixar a cabeça.  É descartar o que é produzido no Brasil como lixo e automaticamente achar que tudo que vem do estrangeiro é bom. É essa falta de senso crítico que nos condiciona a sofrer desse complexo. Pode parecer que o vira-latismo não tem grandes consequências. Afinal, se você prefere mesmo manifestações de cultura internacionais como sitcoms americanos ou literatura alemã, qual o problema disso? 

 

É claro que você pode apreciar o que vem de fora. O problema vem de quando nós nos deixamos influenciar apenas pelo estrangeiro (colocando bastante ênfase na palavra apenas). Que nosso consumo se limite ao estrangeiro, porque nós nem tentamos conhecer o que é feito no Brasil. Quando um punhado de indivíduos se comporta dessa maneira e isso vai se multiplicando até acumular em milhões de pessoas, é impossível negar o impacto para a identidade nacional, a cultura, até a economia.

Quando achamos que o estrangeiro é melhor, não fazemos esforço para melhorarmos o que é nosso. Com uma atitude assim, como fazemos o Brasil sair desse buraco imenso?

 

Combater o complexo de vira-lata não é ser nacionalista, mas é ter o senso crítico que te faça perguntar por que um estrangeiro é alçado às estrelas só porque ele nasceu em um país melhor. É ver que no Brasil temos muita coisa boa, é perceber as nossas riquezas. É valorizar a nossa identidade, de não anulá-la com uma enxurrada de coisas estrangeiras. É não nos acomodarmos com esse sentimento de inferioridade, como se nós não tivéssemos a capacidade de revertemos a situação atual do Brasil.

 

E daí? Nós temos problemas muito piores que o complexo de vira-lata!

De fato. O Brasil de hoje se encontra numa espiral de decadência, política, econômica e até na sociedade. E isso tem várias explicações que vão além do complexo de vira-lata, mas que têm uma conexão estreita com a maneira tupiniquim de ver o mundo. É a nossa malandragem, o nosso comportamento corrupto que condena os políticos mas que passa aquela graninha por baixo para evitar uma multa, a desigualdade social que passa despercebida, o racismo velado.

 

O complexo de vira-lata é uma parte dessa psiquê que se caracteriza como inferior ao estrangeiro mas malandro com relação ao conterrâneo, porque temos que tirar vantagem de tudo. Uma cultura na qual ser certinho é ser idiota, estudar é só para gente besta e ser radical nas redes sociais é o máximo. Como seguir em frente desse jeito? Acredite, o jeitinho brasileiro não tem nada de charmoso.

 

Educação é uma forma de consertar – ou amenizar – certas causas, mas não tudo. Uma das questões centrais do Brasil é de ordem psicológica, uma consciência nacional que nos puxa para baixo.

 

Amor e ódio, as contradições dos nossos sentimentos

Ainda assim, tem algo que não fecha completamente no complexo de vira-lata. O brasileiro, apesar de olhar para fora do Brasil em busca de algo bom, também ama o país. Bastou algum estrangeiro elogiar o Brasil, nossos corações se enchem de alegria. Nas Olimpíadas muitos vaiaram os estrangeiros, nós choramos quando a Alemanha nos derrotou na última Copa com o terrível 7x1. Muitos dos brasileiros que vivem no exterior vão para o Brasil todos os anos, fazem feijoadas e moquecas, comemoram São João, ensinam português aos seus filhos. E isso não é amor? E isso não é orgulho de ser brasileiro?

 Que contradições imensas que vivem em nossos corações, um amor que está lá, um orgulho que ultrapassa fronteiras, mas que é desafiado por uma realidade de violência, corrupção, caos. É difícil amar o Brasil, vou te dizer. É como aquele filho que você ama de paixão mas que te decepciona sempre. E nosso complexo de vira-lata é fortalecido nesse comportamento bipolar, que não nos deixa amar plenamente o nosso país. Quem hoje diz por aí em alto e bom som que ama o Brasil? Vai falar isso no Facebook que você vai se deparar com duas reações: os poucos que concordam e os muitos que te chamarão de idiota.

 

Mas uma das coisas que me incomodam é justamente uma certa superficialidade desse amor. Amamos o Brasil na época da Copa e nas Olimpíadas? No Carnaval, micaretas, Rock in Rio? Quando estamos longe? Nosso amor precisa ir além dessas manifestações. Quem ama o Brasil precisa olhar além do seu próprio umbigo.

 

A mudança começa com cada um de nós

Eu sei que é clichê, que pode até parecer bobagem. Mas gente, mudar essa cultura do viralatismo e da malandragem começa dentro de casa. Começa conosco e com a educação de nossos filhos. É parar de passar a mão na cabeça das crianças quando elas dão uma de malandro. É fazê-los consciente de que eventualmente essa desigualdade social enorme vai explodir, que ignorar não dá mais.

 

Os problemas do Brasil são complexos, profundos, e é claro que eu, na minha mínima capacidade blogueirística, não tenho respostas concretas. Mas tenho bom senso e procuro evitar os radicalismos que meus conterrâneos parecem tão dispostos a seguir hoje em dia.

 Vejo todos os dias como brasileiros conseguem se destacar em diversos ramos da economia, ciência, literatura, artes e o escambau, como não temos nada de inferior a ninguém. Quem sabe um dia, uma nova geração mostre justamente isso, que ser brasileiro torne-se algo positivo (veja o vídeo ao lado).

 

Assim vou torcendo, com dedos cruzados para um futuro em que orgulho e amor tenham mais lugar que o ódio e a inferioridade que tantos de nós sentem nos dias de hoje.

A nova geração mudando o significado do só podia ser brasileiro.




Artigos relacionados



Gostou do artigo? Siga a Baiana da Baviera