Os alemães e o terror da conversa fiada

Uma das formas que mais me deixam desconfortável na Alemanha são aquelas festas silenciosas, onde cada pessoa espera o outro para engatar uma conversa. Numa festa de aniversário de uma amiga alemã, reinava o silêncio desconfortável de quem não sabe nem por onde começar a conversa. Poderia perguntar wie geht’s? (tudo bom?) para o rapaz sentado ao meu lado no sofá, seria a pergunta de praxe para iniciar o tal do small talk (ou conversa fiada).

 

Entretanto, sem conhecer o cidadão minha pergunta seria vista de uma forma superficial e insincera. Afinal, como alguém que não te conhece pergunta tudo bom? .

 

Enquanto isso, o silêncio crescia. A aniversariante estava desconfortável, não sabia como iniciar a conversa (e olha que obviamente ela conhecia todo mundo). As pessoas mal olhavam para o lado, com medo dos sorrisos amarelos do vizinho de sofá. Até que finalmente a aniversariante nos convidou para começarmos o brunch; com um pedacinho de pão as pessoas relaxaram, principalmente porque tinham algo para colocar na boca.

 

Conversa fiada não cai bem nos ouvidos alemães. Mas por quê?

Small talk é considerado insincero

Recentemente estive nos Estados Unidos e como em piloto automático as pessoas te perguntam como vai, se está gostando da cidade, essas coisas. De início, achei interessante que o gelo fosse quebrado, logo você engatava numa conversa qualquer. Mas depois de alguns dias achei esse conversê todo sem sentido; para que conversar com tanta gente que na verdade não se importa se você está bem ou mal? No Brasil também é fácil começar a conversar, numa fila de banco ou de supermercado você conta sua vida toda para quem quiser ouvir. Mas até que ponto gastar tanta lábia vale a pena?

 

É difícil um alemão se aproximar de você e perguntar como está indo o seu dia, como você está, reclamar do tempo ruim. Ora, para o alemão essa conversa fiada é o ápice da insinceridade, da superficialidade. Se ele não te conhece, fato é que não se importará com o seu estado de espírito, se sua vida vai de mau a pior. Se ele não se importa, então para que perguntar? Melhor ficar de boca calada, acha o germânico padrão.

Comunicação para alemães deve ser algo direto, sem rodeios. Essa coisa de inventar conversa para boi dormir é algo praticamente alienígena, mesmo que a pressão da globalização force um pouco os alemães a se acostumarem com o tal de small talk.

 

Livros e cursos estão disponíveis para quem quiser se aperfeiçoar na arte da conversa fiada (ao lado). Afinal, nos negócios nem sempre precisa-se ser sincero.

Small talk é uma tremenda perda de tempo

 Numa cultura de alta eficiência, as pessoas não querem perder tempo com trololó. Isso não é só no ambiente de trabalho, mas na vida em geral. Por exemplo, há algum tempo atrás conheci uma moça simpática que me disse algo que nunca irei esquecer: os alemães que já têm uma rede de amizades não se preocupam em criar novos relacionamentos. Eles são ocupados demais, disse a moça, e preferem focar nas amizades que já têm.

Isso foi um momento que abriu meus olhos. Isso porque eu sempre me perguntava: por que ninguém quer conversar comigo? Numa festa de aniversário de meu marido algumas pessoas me perguntavam (por educação): de onde você é? Quando eu respondia que eu sou do Brasil, elas diziam um geil (legal) ou algo do tipo. E a conversa acabou. Eles se viravam para quem já conheciam e lá ficavam. Eles não perdiam tempo comigo, porque não tinham interesse em me conhecer.

 

Nesse contexto, para que o small talk? Se eles não têm interesse em conversar contigo, eles não fingem que têm interesse. E isso é muitas vezes percebido por nós brasileiros como algo grosseiro (mas a verdade é que você ser estrangeira não tem fascínio todo).

 

O mais interessante é que, na minha experiência, os alemães tendem a discutir certas coisas mais a fundo. Qualquer assunto - de carros até política - acredito que muitos por aqui preferem se aprofundar nos seus temas de interesse. Então essa coisa de perguntar sobre o tempo ou de onde você vem é algo que não é tão interessante assim. Se a pessoa com quem você conversar tiver interesse sobre você e o Brasil, tenha certeza que o tema será muito mais abrangente que os estereótipos (apesar que sim, muitos ainda se surpreendem que sou branca). Já tive conversas sobre colonização Brasil/Portugal versus Alemanha/Namíbia. Daí já viu.

Small talk é para quem realmente importa

Os alemães levam amizade à sério. Com amigos de verdade eles conversarão sobre temas dos mais variados até dizer chega. No trabalho, as relações são diferentes e os alemães prezam a plena separação entre negócios e prazer. Antes de uma reunião é raro que pessoas conversem sobre algo pessoal. A maioria tentará manter as relações profissionais de uma forma cordial mas sem cruzar aquela linha invisível de sua vida além do escritório.

Meio injusto, mas tem um pouco de verdade: ¨fatos divertidos sobre a Alemanha. Não existe diversão na Alemanha. Volte ao trabalho¨.

 

Não é à toa que a palavra alemã Arbeitszeit (horário de trabalho) tem uma conotação bem concreta. Hora de trabalho é hora de trabalho, e não de conversa fiada. Mas acabou o trabalho e começa a Feierabend (traduz-se como término do horário de trabalho, mas literalmente poderia ser traduzido como noite de festa  ou comemoração). É no Feierabend que se conhece os alemães e onde a conversa fiada não tem limites.

 

Na vida pessoal de cada um o small talk floresce que é uma beleza. Com alguns amigos alemães eu consegui cruzar essa barreira entre ser um conhecido e um amigo, que divide coisas mais pessoais (ufa!). Entretanto, confesso que depois de tantos anos de árduas batalhas para ganhar meu primeiro amigo alemão, quando alguém me conta algo mais pessoal quem fica com o pé atrás sou eu. Me acostumei tanto com a distância que é alienígena para mim ter mais intimidade com alguém. Quem tem que se acostumar agora sou eu!

Atenção! Small talk pode abrir a caixa de pandora das reclamações

Se você proceder com a conversa fiada, fique ciente que ao perguntar wie geht’s? as reclamações chegarão aos seus ouvidos em velocidade máxima. Sem entender a conotação metafísica e casual da pergunta, os alemães vão tomar a sua pergunta à sério e de fato irão respondê-la com sinceridade. As lamúrias serão infinitas: do estresse do trabalho até o divórcio, o cachorro que ficou doente, crianças que dão trabalho, o tempo que, é claro, está cinza e horroroso. Agora aguenta!

Tudo tem hora, lugar e situação

Não é que os alemães sejam grosseiros ou sisudos; a questão toda é que a tal da conversa fiada não é algo que simplesmente acontece. Alguns fatores precisando ter uma situação ideal, quase como um posicionamento astronômico preciso. Se você está tentando conversar com alguém do trabalho, o ideal é tirá-lo do Arbeitszeit e fazer a pergunta mágica (wie geht’s?) durante o Feierabend. Se você quer tê-lo como amigo, faça o esforço. Os alemães têm um ritmo diferente para selar amizades do que nós brasileiros.

 

O mais importante que aprendi nos últimos tempos é não ter medo de abrir a caixa de Pandora. É ser autêntico e se jogar de cabeça. Nem todos vão curtir, alguns rolarão os olhos, alguns ignorarão suas perguntas. Aceitar que nem todos querem te conhecer é o começo. E que o fato de você ser brasileira não será nem um pouco fascinante para eles é outra coisa que logo aprendi. Nem todos irão se sentir curiosos com meu país de origem e minha história. Aqui é um pouco de cada um na sua mesmo.

O que podemos aprender com os alemães

O outro lado da moeda é o que podemos aprender com isso. No meu caso, aprendi a dar menos trela a conversas que não me levam a lugar nenhum. Aprendi a focar nas pessoas que realmente importam, ao invés de ter um monte de conhecidos que não se importam comigo. Realcei o foco no trabalho, que procuro otimizar o máximo possível para aproveitar o meu Feierabend, ao invés de trabalhar dez, doze horas por dia. Aprendi a ser mais produtiva em todos os aspectos da vida.

Que eles pensam de um jeito diferente do nosso, isso é fato. Mas isso não quer dizer que o estereótipo de frieza e grosseria seja verdade. Apenas é uma forma distinta de ver a vida, de focar nas coisas que são importantes.

 

E não é que, se vermos por esse lado, faz sentido?

 

Menos conversa fiada, por favor.


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