Outono na Alemanha, primavera no Brasil: estações coloridas para se aconchegar em livros maravilhosos

O verão se despediu no velho continente, as férias viraram lindas lembranças, a Oktoberfest se foi. Depois de meses de pura intensidade, damos boas vindas à estação colorida do outono. Os dias ficam mais curtos, o frio vai chegando de mansinho. Enquanto isso, no Brasil é hora de primavera. Nada melhor que se aconchegar no sofá, tomar um cafézinho e abrir um livro.

 

Tenho cinco recomendações  de obras que você não vai conseguir largar. Confira!

A fórmula de sucesso: O Amante Japonês, de Isabel Allende

Como combinar as histórias de uma polonesa fugida da segunda guerra, uma sobrevivente de abuso sexual, um homossexual e um japonês encarcerado num campo de concentração? Isabel Allende consegue aliar uma série de histórias paralelas que inevitavelmente se cruzam.


A obra começa com Irina, uma jovem de Moldova que começa a trabalhar num abrigo de idosos na Califórnia. Lá ela conhece Alma Belasco, uma senhora altiva e misteriosa. A moça e a idosa constroem uma relação de amizade forte, e aos poucos ambas vão tomando conhecimento dos segredos uma da outra. Na tarefa de arrumar os papéis e bens de Alma, Irina encontra cartas de Ishi, um japonês que um dia fora amante de sua empregadora. As cartas revelam um amor que lutou contra o destino. O preconceito de se relacionar com um japonês (no durante e pós guerra considerada uma raça inferior para muitos), assim como o abismo social que tal relacionamento significaria para Alma. Mas o amor entre eles persistiu por décadas, sobrevivente de casamentos e reviravoltas. Ambas as personagens vivem das desistências e limitações do amor, que nem sempre tudo vence, mas que persiste. E isso é mais do que tocante ao final do livro; tudo é possível, diz Isabel Allende, quando se há amor (é clichê, mas não é verdade?). 


A obra de Isabel Allende é ligeira, conta com maestria as vidas intercaladas de seus personagens, e é emoção pura.

    

O satírico: O Livro dos Mandarins, de Ricardo Lísias

Comecei a ler O Livro dos Mandarins em 2013, logo depois de ter meu filho. Não consegui passar da vigésima página; isso porque no começo a obra é um pouco maçante. Para acentuar ainda mais o problema, o autor deu a cada personagem  um nome derivado de Paulo, como Paula, Pauli, Paul, Paulson. Se você está deprivada de sono, esse não é o livro ideal. Até que esse ano resolvi dar ao livro mais uma chance – e adorei!

 

A obra conta a história de Paulo, um executivo com uma dor nas costas crônica, que está para ser transferido para a China. O começo bate um pouco na mesma tecla da dor nas costas e como disse acima, a maioria dos personagens são nomeados com variações de Paulo, o que é um pouco confuso no início. Mas a coisa desencadeia, o texto dá aquela sacaneada no mundo corporativo com destreza, os absurdos, as intrigas. Quando você acha que a história desencadeia para um lado, ele toma um destino diferente (será que Paulo realmente vai para a China?). 

 

Para quem trabalha em escritório como eu, você se identifica com as bobagens e as pequenas traições contadas de uma forma irônica, direta e sem firula. A linguagem não tem beleza, é quase como se saísse de um relatório corporativo. O autor não dá folga para ninguém, é uma sátira do começo ao fim, dos corporativos, da polícia, dos imigrantes, dos... ave Maria, todo mundo!

 

Esse foi o meu primeiro livro de Ricardo Lísias; com certeza vou conferir outras obras do autor.

     

A estreante: Flesh and Bone and Water, de Luiza Sauma

A brasileira radicada em Londres Luiza Sauma estreou no mundo literário com a obra Flesh and Bone and Water (Carne e Osso e Água, em tradução literal), que ainda não tem tradução para o português (que eu saiba). A obra conta a história de André, um carioca que ao perder a mãe fica sem rumo, cai de amores pela filha da empregada, até que uma reviravolta em sua vida o faz arrumar as malas e partir para Londres, onde ele recomeça a sua vida. Até que, depois de vinte anos, ele começa a receber cartas da filha da empregada, Luana. As cartas trazem memórias dolorosas e segredos que André quer deixar mortos e enterrados. Mas Luana persiste no contato, cada carta abre mais a ferida, ela quer que André sofra. Recém separado de uma inglesa e com duas filhas crescidas, ele se deixa levar pelas memórias, até confrontar o passado e o segredo que o fez partir do Brasil para sempre.

    

A obra de Luiza flui rapidamente e toca em certos pontos da sociedade brasileira como o relacionamento patrão/empregada, a vidinha playboy da classe média, as desigualdades que permeiam a sociedade de uma forma que muitos no Brasil não percebem mais. Achei interessante como a autora colocou algumas palavras em português no texto, como mamãe, cara, tudo bom. São detalhes que te transmitem para a realidade do Rio assim como de Belém, onde parte da história se desenrola. O final também é muito bom, a história deu uma boa reviravolta e realmente você vê que existem ainda mais podridões do que se poderia imaginar.

 

Fico na torcida para que Luiza Sauma continue a publicar livros bons como esse e leve um pouco de Brasil para o mundo, com os defeitos e qualidades do nosso país!

     

O controverso: The 40 Rules of Love, de Elif Shafak

Ao começar a obra The 40 Rules of Love (As 40 Leis do Amor), pensei que estava lendo mais um desses livros femininos que você encontra em banca de jornal. Tudo inicia com Ella, uma dona de casa judia de Boston, que após décadas de casamento e filhos crescidos não conhece o poder do amor e tem aqueles problemas típicos de primeiro mundo. O início clichê não dá crédito ao resto da obra.

 

Depois de anos como dona-de-casa, Ella começa a trabalhar para uma editora. Sua primeira tarefa é avaliar o livro de um escritor iniciante, entitulado ¨Doce Blasfêmia¨. A obra traça o caminho do maior poeta do Oriente Médio desde o século XII, Rumi. A autora criou, basicamente, um livro dentro de um livro. Que é criativo, isso é!

 

Em ¨Doce Blasfêmia¨, Rumi encontra no místico Shams de Tabriz sua maior inspiração. Um peregrino que vê Alá na natureza e tem o poder de entender a mensagem subliminar do Alcorão (Shams de Tabriz questiona se a mulher é realmente inferior, por exemplo), Shams é odiado e perseguido pela elite e religiosos da época. Mas ele está determinado a ensinar Rumi que é preciso se apegar às 40 regras do amor para de fato vivenciar o Islã. A cada página da história e cada conversa escondida com o autor, Ella descobre o amor através do sufismo, a linha mística do Islã (que para muitos é considerada herética). 

 

De beleza fenomenal, a obra te faz pensar na teoria e na realidade do Islã, nas mensagens controversas de guerra e paz, e que sim, existe uma linha de pensamento que não leva à Jihad. A parte que achei mais bonita é quando Shams explica à esposa de Rumi, uma cristã de nascimento convertida ao Islã, que adorar a Virgem Maria não é pecado, que o mais importante é a tolerância. Algo menos belo é, entretanto, a romantização do casamento entre Shams e Kimya, uma criança que no romance tem cerca de dezesseis anos. Entretanto, descobri numa pesquisa básica que os teóricos da vida de Rumi colocam a idade da esposa de Shams em doze anos. O final da menina é terrível, e acredito que a autora, em nome da mensagem de paz que queria mostrar, descreveu uma menina apaixonada por um homem muito mais velho (cerca de 60 anos), o que é implausível. Nesse aspecto, a autora poderia ter utilizado esse episódio para mandar uma outra mensagem: seja no século 12, seja no 21, casamento com crianças não é normal e não deve ser tolerado, não importa a religião nem a circunstância.

 

De qualquer forma, no geral a mensagem da renomada autora turca Elif Shafak é que o Islã também pode inspirar a paz. Vale a pena conferir nem que seja para que você construa sua própria opinião.

     

O clássico: Riacho Doce, de José Lins do Rego

Para quem viu a série de TV com o mesmo nome, estrelando Vera Fischer, Carlos Alberto Riccelli e Fernanda Montenegro, Riacho Doce é icônica. Quem não torceu para Eduarda e Nô ficarem juntos, mesmo contra as pragas da minha xará Vó Manuela?

 

O livro é um tanto diferente da série, mas é tão bom quanto. No livro, a vida de Eduarda (apelidada de Edna) é mostrada desde sua infância. Crescendo num lugar conservador na Suécia e vinda de família pobre, Edna busca por um sentido na vida. Desde criança fora diferente. Quando uma nova professora aparece na cidade, Esther, a menina se apega à moça que, solitária, deixa-se levar pelo amor incondicional de Edna. Ao ver que Esther tem um relacionamento amoroso com um rapaz, o ciúme de Edna é tal que ela tenta se matar. Esse é o início para entender uma mulher estranha, depressiva, em eterna busca pelo amor.


Edna se casa com Carlos, um rapaz do mesmo vilarejo que a ama de paixão, mas ela casa-se com ele apenas para sair da vida sofrida. Ela continua à procura de algo, até chegar em Riacho Doce. E é claro que essa mulher, sedenta de sol e luz, de amor e paixão, cai nos braços de Nô, um homem de ¨corpo fechado¨, obra da sua avó Aninha (a vó Manuela original), uma velha que conhece os mistérios divinos. O romance é proibido e escandaloso, ainda mais por ser entre pessoas de cores diferentes, o que naquela época (o livro foi lançado em 1939), deve ter causado um tremendo auê. 


A obra é rica em descrições das paisagens do Riacho Doce, o contraste entre o frio sueco e o calor brasileiro, dos sentimentos contraditórios e intensos que os personagens principais carregam. O autor reflete o peso na consciência de Edna e Nô quanto ao amor que eles não conseguem largar, e da decadência de Carlos ao se ver traído. A obra mostra o romance como algo incontrolável que une Edna e Nô, mulher e homem que desejam se agarrar ao amor mais do que que tudo na vida.

 

A obra é densa, às vezes um pouco repetitiva, mas de uma escrita belíssima, literatura brasileira da melhor qualidade.

       


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