Reencontrando o fascínio com a Oktoberfest

Existem muitas coisas maravilhosas em Munique, mas a capital bávara é famosa no mundo por causa da Oktoberfest. De fato, a festa que atrai cerca de 6 milhões de pessoas anualmente é um estrondo. A primeira vez que fui fiquei de boca aberta: as roupas tradicionais tão bonitas, a alegria dos alemães que aflora, as músicas animadíssimas, as paqueras, enfim, uma sensação.

 

Todos os anos lá ia eu com minha Dirndl (roupa tradicional para as moçoilas) comprada na promoção da C&A  e cair na farra, como toda boa baiana.

Daí, depois de anos morando em Munique, percebi esse ano que a Oktoberfest tinha perdido o brilho aos meus olhos. O que antes me parecia especial, hoje me parece um repertório repetido à exaustão: turistas que não acabam mais, bebedeiras adoidadas, os alemães soltando a franga. Até as mesmas músicas rolam nas tendas, o mesmo protocolo de danças, flertes e cerveja. A única coisa que muda é o preço das canecas de um litro, sempre alguns centavos acima e sempre motivo de manchete de jornal.

 

Sei que é uma tradição forte na Baviera, mas depois de tantas Oktoberfests (ou Wies’n, como se diz por essas bandas), para mim é mais ou menos a mesma coisa, ano vai, ano vem. Até na primavera tem uma mini-versão para os mais entusiasmados. Não que não seja divertido; a Oktoberfest é diversão certa (se beber cerveja; na sobriedade não é lá essas coca-colas todas). Todos os anos fui pelo menos uma vez, aquela passadinha básica, só para não dizer que não aproveitei. Mas esse ano me bateu uma preguiça, uma falta de vontade, aquela coisa de deixar para depois, para o ano que vem... mesmo que a galera já começasse a se organizar, comprar as roupas tradicionais, etc., eu não me animei. Parei para pensar e descobri: virou normal.

 

Diferentes cartazes da Oktoberfest, a mesma festa. 

No Carnaval de Salvador era a mesma coisa: turistas vindos de todos os cantos do Brasil e do mundo vinham pular atrás do trio elétrico. Uma agonia possuía os soterapolitanos, o Carnaval se transformava no tema central de conversas, em que bloco pular, quando você pagou pelo abadá, aquela fixação, enfim. Eu, apesar de ser baiana de nascimento e criação, até que gostava de Carnaval na juventude, nos primeiros anos em que meus pais finalmente me deixaram acompanhar os amigos nos circuitos dos trios elétricos. Êxtase pura, até que alguns anos depois eu preferia gastar meu dinheirinho suado em outras coisas, e não tinha mais saco para pular na pipoca (quando se pula Carnaval fora do bloco). Minha família não tinha nenhuma tradição carnavalesca como muitos que conheço, então aquela febre carnavalesca da juventude passou, porque virou banal. Já tinha visto o que tinha que ver, e quando alguém me apurrinhava eu dava aquela passadinha básica só para não dizer que tinha me transformado numa velha coroca.

 

Mesmo com essa preguiça, não tem quem falte para perguntar onde está o meu sangue brasileiro/baiano, afinal todo brasileiro/baiano gosta de festa, é praticamente lei, sim senhor! Brasileiro tem que gostar de festa, de muvuca, baiano então, ave Maria! Aquela coisa de estereótipos dá a cara, não tem jeito.

 

Fui a Oktoberfest no ano passado e foi uma curtição retada, mas sabe quando você tem aquela sensação de já valeu para os próximos três anos?

 

Não tem porque esconder: a Oktoberfest também tem um lado menos "digno".

Tive que deixar a preguiça para 2018, entretanto. Com meus pais na cidade, é lógico que preciso levá-los para uma das maiores festas populares do mundo (se é que não é a maior mesmo). Então fomos dar aquele rolé, entramos na  festa tradicional da Oide Wies’n, andamos de trenzinho, tomamos uma cerveja, fingimos que cantamos as músicas de praxe com nosso alemão macarrônico, fizemos parte do cosmos Oktoberfest por algumas horas. E não é que nessa Oktoberfest, repetição de todos os outros anos como um disco arranhado,  a preguiça deu lugar a um sentimento diferente, mais leve e divertido?

 

Esse ano vi a Oktoberfest através dos olhos de meus pais, que foram pela primeiríssima vez, e reencontrei o encanto. Isso porque a Oktoberfest é tão mais que festa nas tendas, cerveja na caneca de um litro, Dirndls e Lederhosen, salsichas e joelho de porco, parque de diversões, paqueras e amassos. Num mundo globalizado que atrai milhões de turistas para a festa, a Oktoberfest é uma forma de dizer ao mundo que tradição é importante, o legado familiar passado de geração a geração, orgulho de raízes, família.


Mesmo sendo uma ímã para turistas, a Wies’n permanece autêntica como um evento familiar, onde gente de todas as idades são bem-vindas. A volta da Oide Wies’n, a festa tradicional que traz um pouco de nostalgia para o evento, é evidência disso.

 

A próxima geração sendo preparada para assumir as tradições.

Mesmo com a Oktoberfest acontecendo sempre, mesmo que às vezes você diga que se pode deixar para depois, para quem vive aqui é uma forma de ver o orgulho que os bávaros têm de suas tradições. E isso é especial, algo que vale a pena deixar a preguiça de lado e se embrenhar na cultura bávara.

 

Se a Oktoberfest não for a sua praia (baiano ou não), tudo bem. Mas se for preguiça como a minha, dê uma chance. Não é à toa que milhões de pessoas prestigiam o grande evento bávaro há duzentos anos: é realmente sensacional!

 

Lembrando que a Oktoberfest de 2017 vai até 03/10. Viel Spass und Prost (divirta-se e saúde!)

 


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