O dilema Merkel

Nessa época de eleições na Alemanha muitos dão como garantida a vitória de Angela Merkel. Para seus fãs, a chanceler é a heroína que confronta os “cowboys” da política internacional como Putin, Trump e Erdogan, além de ter dado a oportunidade humanitária a milhões de refugiados de se instalar no país. Para os críticos mais ferozes, Merkel é a vilã que apóia a islamização da Alemanha e que devastou as economias da Grécia e Itália com sua obsessão por austeridade. 

Os dois lados da moeda apresentam a Mutti da nação germânica como um caso de amor ou ódio.

 

Além da falta de grandes propostas para assegurar o sucesso alemão no long prazo, muitos até gostam da Merkel, mas não suportam o partido que ela representa, o CDU (União Democrática Cristã), juntamente com o partido bávaro CSU (União Social Cristã). Ambos os partidos, de caráter conservador, acreditam na família tradicional (ou seja, homem trabalha, a mulher fica em casa e cuida dos filhos). Mesmo que durante sob o seu comando a Merkel tenha feito muitos progressos na questão da mulher no trabalho, como uma lei que exige salários equivalentes aos dos trabalhadores masculinos, fato é que o CDU/CSU ainda comporta uma atitude conservadora que, a meu ver, não condiz com a modernidade. É esse um dos dilemas mais arraigados que muitos alemães têm, pois não é só uma questão partidária: é uma questão de valores.

 

O sistema indireto de eleições

Uma das grandes questões é que, diferentemente do Brasil, onde podemos votar diretamente para presidente, na Alemanha a eleição é indireta. Isso significa que, para que a Merkel seja reeleita, é preciso votar para o CDU/CSU (ou partidos aliados).

 

¨Quem vota para a CSU, vota para a Merkel¨, diz o cartaz.
¨Quem vota para a CSU, vota para a Merkel¨, diz o cartaz.

O candidato é proposto pelo presidente da Alemanha. Os eleitos para o Bundestag, o parlamento alemão, decidirão em voto secreto quem se torna chanceler, que precisa da maioria dos fotos para ser eleito(a). Portanto, como diz um cartaz da CSU: “Vote na CSU, vote na Merkel”. É literalmente isso mesmo, e por isso que muitos dos indecisos se perguntam: é esse partido que eu quero para liderar a Alemanha?

 

Com a população cada vez mais centrista, votar na combinação CDU/CSU é, para muitos, intragável.

 

Vantagens e desvantagens do mundo Merkel

A Merkel tem muita coisa a seu favor: a Alemanha vive uma época de ouro em termos de renda e uma baixíssima taxa de desemprego (3.8%). O euro assim como matérias-primas estão mais baratos desde que assumiu o comando, o que deu à Alemanha um impulso adicional para se tornar uma máquina de exportação. Entretanto, muitas das políticas que hoje dão frutos em termos econômicos não foram gerados pela Merkel, e sim por reformas no governo anterior ao dela, sob o comando do então chanceler Gerhard Schroeder, do SPD (Social Democratas). Fato é que grande parte do que se colhe hoje em dia em termos econômicos não é necessariamente devido à Merkel; a sua contribuição foi manter as reformas do antecessor, mesmo que de um partido rival. Mesmo que seja de certa forma reacionário – o que a bem da verdade é um tanto da personalidade dela mesmo – a Merkel tem sido uma boa administradora do sucesso alemão.

 

O ponto forte de Angela Merkel que muitos parecem concordar é na política internacional, onde a senhora nascida na Alemanha Oriental parece ser a única mente sã em meio aos ditadores e candidatos à ditadura que acham que o mundo é seu playground privado. Foi Merkel quem persuadiu seus compatriotas a tomar mais responsabilidades no âmbito internacional, como as sanções contra a Rússia no contexto da invasão da Criméia, o acordo do meio ambiente de Paris, e o envio de tropas para o Afeganistão, Mali e Lituânia. O bom-senso de Merkel é o seu ponto mais forte, principalmente numa época de grandes incertezas quanto ao maior parceiro comercial e político do país: os Estados Unidos.

 

E é justamente nesse ponto que a Merkel se apega a algo fundamental: a política externa é a arma mais potente para ganhar as eleições, o que faz sentido num país onde paz é um tema de importância para os alemães. O status quo que Merkel representa, sua mão forte ao liderar o mundo em várias questões, são de grande relevância para o povo que ainda vive sob a sombra do nazismo.

 

Além disso, é o próprio comportamento da chanceler que é de se admirar. Diferentemente das lambanças dos políticos brasileiros e até do presidente francês anterior, François Hollande, que foi visto numa vespa para se encontrar com a amante, não se pode negar que Merkel é exemplar. Ela pode ser criticada por muitas coisas, mas seu governo não tem escândalos. Sua fé luterana (ou “compasso interior”) de calma e simplicidade, de horror à dívidas (daí vem a obsessão por austeridade e equilíbrio de contas) e de extender a mão aos mais necessitados (daí vem sua decisão de abrir o país a milhões de refugiados) e sua atitude praticamente apolítica e centrista que vem de uma desconfiança natural de ideologias (daí vem o bom senso) são raras qualidades em políticos cada vez mais populistas, que apostam nos medos mais obscuros da população. De formação científica (Merkel estudou física), essa senhora tem um comportamento racional, algo extremamente bem-vindo num mundo cada vez mais turbulento.

 

Entretanto, por mais que existam muitos pontos fortes em seu favor, não se pode negar que a chanceler poderia ter feito mais na própria Alemanha. Não é à toa que, mesmo com o desemprego em baixa, existe uma expansão da pobreza no país. A infraestrutura e educação poderiam figurar mais alto em termos de investimento, principalmente em face do superávit orçamentário - EUR 23.7 bilhões. Como um país com tanto dinheiro pode investir tão pouco em creches, impossibilitando que mães retornem ao mercado de trabalho? Como não investir na diminuição da pobreza?

 

Na verdade, muitos temas de importância não estão sendo discutidos nem abordados. No debate televisivo, os jornalistas levantavam perguntas controversas, focando tais questões não foram nem levadas em consideração pelos jornalistas, que batiam na mesma tecla dos refugiados, como se mais nenhum assunto importasse. Os assuntos internos da Alemanha, que devem preparar o país para o futuro, ficaram para depois.

 

Tais questões, apesar de óbvias, não tem sido parte do discurso da Merkel. Seu rival, Martin Schulz, tem um ângulo mais social, propondo melhorias em educação, aposentadorias dignas, investimentos em infraestrutura, além de fortalecer a União Européia. Muitos se perguntam como ele financiará tantas melhorias (o superávit é grande, mas não é suficiente), e muitos ainda se perguntam como o candidato que antes foi parte do Parlamento Europeu lidaria com as pirraças dos grandes líderes mundiais. Por todo o discurso social – que é importante – Martin Schulz é, para muitos, um risco. Merkel é o símbolo de um status quo que agrada à grande maioria, medrosa de escolher um candidato que pode botar toda a política externa alemã a perder, mesmo que isso signifique lidar com a falta de um posicionamente estratégico da chanceler.

 

Cartaz do candidato Martin Schulz com a pichação acusando-o de mentiroso.
Cartaz do candidato Martin Schulz com a pichação acusando-o de mentiroso.

Conhecida por sua hesitação que, inclusive, virou verbo (merkeln, que significa a incapacidade de tomar decisões), Angela Merkel vacila em decisões estratégicas. De repente então, movida pela reação de seus compatriotas ou vítima de pressão, ela então decide. O que falta para a Merkel é uma ideia do que quer alcançar. Afinal, mesmo com o sucesso atual do país, isso não vai durar para sempre. Como preparar a Alemanha para o futuro, com uma população cada vez mais diversificada (não só muçulmanos, mas no geral mesmo)? Como diminuir a pobreza quando os preços – principalmente de aluguel – continuam a crescer numa velocidade estrondosa? Como liderar a Alemanha para se tornar um país mais justo, que dê a imigrantes e mulheres mais oportunidades?

 

Faltam respostas, mas não só da Merkel. A distração com a questão dos refugiados é enorme, com o novo partido AfD (Alternative für Deutschland / Alternativa para a Alemanha) cada vez mais apostando no medo que a tal islamização inspira. Mas não é só esse problema que deve chamar atenção na discussão política, mas questões externas e internas à Alemanha.

 

Alternativa para a Alemanha? Os cartazes absurdos da AfD

Quem quer que seja eleito terá muito trabalho pela frente. As pressões internacionais - mesmo com o país considerado pequeno em termos populacionais, em torno de 80 milhões – são um enorme peso que precisa ser gerenciado. Sem dúvida, Merkel é nesse aspecto uma tour de force, é onde ela se destaca. Entretanto, questões internas não podem ser esquecidas, é preciso uma atitude mais decisiva que ajude a Alemanha a se manter como uma das forças comerciais do mundo. A vacilação de Merkel nesse aspecto é indesejável; ela é uma administradora, não uma reformista.

 

Na balança, algumas alternativas, outras não

No final das contas, temos que colocar todas essas questões na balança. O que é mais importante agora e no longo prazo? Será que o Martin Schulz é realmente um candidato promissor? Será que votando na CDU/CSU teremos um progresso em questões como o igualitarismo entre homens e mulheres no mercado de trabalho?

 

Dilemas persistem, mas também existem algumas certezas: a primeira é que, diferentemente da tensão partidária vista em muitos países, a Alemanha trabalha em coalisões. No atual governo da Merkel, muito pode ser feito porque partidos de fato trabalham juntos. O ministro das relações exteriores, Sigmar Gabriel, é do SPD, por exemplo. Mesmo que Martin Schulz persista que não haverá mais a coalisões em seu governo, é mais realista acreditar que ele esteja rebatendo as acusações de que, independentemente de quem seja eleito, o CDU/CSU trabalharia novamente em conjunto com o SPD. Afinal, por que escolher o Schulz se os dois partidos iriam trabalhar juntos de qualquer forma? Nesse momento, o candidato do SPD precisa se posicionar contra uma futura coalisão, mas na realidade é difícil que isso aconteça.

 

E, finalmente, a grande certeza é que votar em partidos extremistas está fora de questão para a grande maioria. Mesmo que as últimas pesquisas coloquem o AfD com 10% do eleitorado para o Bundestag, tal partido não é uma alternativa viável para a Alemanha. Tal partido responde aos medos mais intrínsecos da população, focando-se na questão da islamização e da imigração em massa, uma mensagem que está refletindo cada vez mais o humor de certas partes da população.

 

A esperança é que o centrismo e o bom-senso prevaleçam: duas qualidades germânicas que poderiam ser para exportação.

 


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