Da ordem alemã para o caos italiano, oh mamma mia!

Sempre leio comentários de residentes ou turistas visitando a Alemanha reclamando do atendimento péssimo em certos estabelecimentos, do atraso de trens na terra da eficiência, de pessoas que metem o bedelho quando uma criança está se descabelando (porque afinal criança tem que ficar calada mesmo). Enfim, uma série de coisas, algumas importantes, algumas não. Às vezes tenho a sensação que nossa tolerância quanto aos alemães é pouquíssima: afinal, se estamos num lugar onde tudo (ou quase) funciona, a nossa expectativa é de que tudo (ou quase) funcione.

E quando não funciona, quando não atende nossas altas expectativas, o que sobra são as nossas reclamações.

 

Não falo só dos estrangeiros, não. Os alemães também têm um nível de tolerância baixíssimo quando algo dá errado. Se alguém desrespeita uma regra é um deus-nos-acuda. Se o metrô está atrasado, os rostos dos passageiros se esprimem em irritação. Os alemães são notórios reclamões, especialmente eles criticam ferozmente quando algo não funciona. A verdade é que quem mora na Alemanha se acostuma com uma qualidade de vida que é incompatível com 99% do mundo, talvez apenas a Escandinávia esteja a par dessa quase-perfeição. Quando se vive num mundo onde muita coisa funciona, quando algo vai para o beleléu é difícil de engolir.

 

Mas quando você sai dessa bolha, desse mundo onde se espera que tudo funcione como um reloginho, você deixa essas altas expectativas de lado. Se você vai parar na Itália então, você já sabe que as coisas não funcionarão da mesma maneira.

 

Imagine a situação: um bando de funcionários do transporte público fofocam à beira da escada rolante, dão risada alto, e você interrompe o conversê para perguntar onde se compra o tíquete do metrô, e ainda por cima recebe uma patada. Se fosse na Alemanha, a pessoa que sofreu tal patada levaria sua indignação para imediato julgamento através de grupos no Facebook e contaria esse despautério para seus amigos, que ficariam escandalizados com tal comportamento, essa falta de profissionalismo. Se fosse na Itália, você diria: mas o italianos são assim mesmo. Você daria de ombros, engoliria o sapo da patada recebida, e ficaria tudo por isso mesmo. É, ou não é?

 

Pois comigo foi assim... algo que já tinha notado nas minhas relações Brasil – Alemanha.

 

Daí alemães – e estrangeiros que moram na Alemanha como eu – vão passar as férias na Itália. O seu lado racional já sabe que as coisas são diferentes, que se demora mais para absolutamente tudo, que os motoristas são meio malucos no trânsito, que os lugares visitados estarão entupidos de gente, que existe simplesmente mais caos, e que as pessoas dão menos importância para o precioso tempo que os alemães tanto querem controlar. Você se joga nesse mundo – mesmo que apenas como turista – e se deixa levar por pequenas dificuldades que, se fossem na Alemanha, te incomodariam um monte, mas na Itália, não tanto assim. No Brasil, provavelmente você faria um meme e colocaria no seu perfil do Facebook e riria até 2020.

 

Diante do caos, a beleza italiana. Em Padova, norte da Itália.
Diante do caos, a beleza italiana. Em Padova, norte da Itália.

É como se o nosso nível de tolerância variasse de acordo com a cultura onde nos encontramos e, principalmente, com os estereótipos que formamos com relação a certos lugares. Se certo lugar se destaca pela eficiência e pontualidade, você cria a expectativa de que tudo funcionará como um relógio, que não haverá atrasos. Quando se está num lugar onde o contrário é o que domina, você procura dançar conforme a música e não dar mais tanta importância para que tudo funcione perfeitamente. Mesmo que algumas vezes nós até reclamemos de alguma coisa, aos poucos vamos nos adaptando a outra forma de viver.

 

Com os alemães também é assim. Uma das pequenas coisas que me chamou a atenção nessas últimas férias é que os alemães têm coragem de quebrar certas regrinhas quando não estão na Alemanha, que eles relaxam a ponto de deixar as altas expectativas de lado. Veja só o caso das toalhas ao pé da piscina: mesmo que o regulamento do hotel explicitamente proiba hóspedes de reservar cadeiras com toalhas, cedinho de manhã praticamente todas as espreguiçadeiras estão ¨reservadas¨. O lado malandro do alemão começa a dar as caras: afinal, mesmo sendo contra o regulamento, eles quebram a regra. Um verdadeira heresia para a cultura alemã, mas imagino que na Itália eles não mais se importam em ser tão cri-cri com tudo. Afinal, eles estão na Itália. Será que na Alemanha eles fariam isso?, eu me pergunto.

 


Teoria vs. realidade: apesar da proibição, a grande maioria dos hóspedes (alemães) ¨reservam¨ suas espreguiçadeiras de manhã cedo. Em Bibione, Itália.

 

Da mesma forma, você não percebe aquele ar de irritação quando há um atraso, quando os lugares estão cheios de gente. Sabendo que as coisas são diferentes, o nível de tolerância com atrasos, com quartos de hotel caindo aos pedaços, com grosserias e tudo o mais, sobe extraordinariamente. Voltando para a Alemanha, um switch automático parece colocar nossas cabeças novamente no modo baixa tolerância para quaisquer empecilhos da vida. Reclamamos de um monte de coisas, porque estamos acostumados com o bem-bom dessa vidinha pacata, e mal notamos que não temos motivos para tanta reclamação.

 

Talvez alguns digam que são essas altas expectativas que fazem a Alemanha o país maravilhoso que é, porque as pessoas trabalharão com essas altas expectativas em mente e tentarão alcançá-las. Se a meta não for ambiciosa, a mediocridade toma conta. Acredito ser esse o caso, os alemães querem alcançar mais e mais, e isso geralmente é bom. Existe o outro lado da moeda, entretanto: a partir do momento que nos apegamos com tanto afinco às altas expectativas que permeiam nosso cotidiano, nós perdemos a noção da simplicidade, da imperfeição tão inerentemente humana. Nós criamos problemas onde não existem, porque por definição o ser humano precisa de problemas para lutar contra.

 

O negócio é que perfeição não existe, é uma ilusão querer que tudo funcione tintim por tintim. Nem nós nem os próprios alemães podemos esperar que o estereótipo germânico atenda expectativas inalcançáveis. E um pouco de caos aqui e ali não faz mal a ninguém; pelo contrário, uma dose de caos nos faz ter nossos pés no chão, de vivenciar dificuldades que apenas nos fazem mais fortes, de ter histórias para contar, de sair dessa bolha de eficiência que às vezes pode ser confortável mas que não prepara nossos filhos para uma vida mais dinâmica, relaxada, multi-cultural, divertida até.

 

Um tantinho de caos italiano para as nossas vidas certinhas na Alemanha até não soa não mau, penso enquanto tomo um dos maravilhosos vinhos de Montepulciano, um bocado de Efficienz com um tantinho de Confusione num equilíbrio de opostos é a chave de tudo!

 


Gostou do artigo? Siga a Baiana da Baviera!


Compartilhe!