A relação de amor e ódio das classes altas pela Europa

O artigo entitulado ¨O brasileiro acha chique visitar Paris, Roma, Berlim, mas a Europa é, em essência, tudo o que a classe média odeia¨ do blog Hoje Tem Textão está dando o que falar. O texto aborda a contradição do fascínio da classe média brasileira pela Europa, ao mesmo tempo que ironiza como no fundo o brasileiro despreza as políticas do velho continente. O problema é a incompatibilidade desses dois sentimentos: se de um lado nós nos fascinamos com a possibilidade de andarmos pelas cidades antigas

sem aquela paranoia de violência que bem conhecemos no Brasil, se achamos o transporte público eficiente, se vemos que os habitantes gozam de boa qualidade de vida, mal notamos que isso tem um motivo: o esforço de Estados europeus para reduzir a desigualdade social.

 

É claro, países europeus não são igualitários. Existem ricos e pobres, como todo sistema capitalista. Não é perfeito, de forma alguma. Entretanto, não há um abismo quase intransponível entre as classes altas e baixas; existe um certo equilíbrio de renda e, que em casos de necessidade, o Estado dá aos seus cidadãos benefícios sociais para evitar a pobreza absoluta. Se de um lado a Europa investe para que seus cidadãos ganhem seus próprio dinheiro e não vivam às custas do governo, o mesmo ajuda os cidadãos que estão em maus lençóis. Por exemplo, o governo alemão gasta bilhões em benefícios sociais, que incluem seguro desemprego, licença maternidade generosa, dentre outros. Recentemente a Finlândia começou a testar um sistema de renda mínima, independentemente do cidadão estar empregado ou não. A consequência disso? Baixas tensões sociais e criminalidade. Melhor qualidade de vida.

 

Nem tudo são flores. Há tempos que certas regiões tornaram-se um problema. Paris tem uma alta taxa de imigrantes vivendo em situação de risco. Apesar da baixa taxa de desemprego na Alemanha, houve aumento no número de pessoas que vivem na pobreza. Desigualdade existe; tensões sociais existem. Mas nada do nível absurdo do Brasil. Por isso, pessoas que têm poder aquisitivo para viajar se seduzem com a liberdade de ir e vir, as eficiências que não existem em nosso país.  O problema é que o brasileiro burguês não vê o link direto entre redução da desigualdade e o benefício de explorar cidades à pé sem o constante alerta da violência. Em suma, nós vemos a consequência das políticas de bem-estar social, mas nos recusamos a ver a causa.

 

O problema da desigualdade para o burguês brasileiro é a conveniência

Veja só, sem desigualdade não existe empregada doméstica nem babá, não existe uma horda de gente dirigindo Uber para complementar a renda, não existe frentista, porteiro, nem cozinheiro para fazer os salgadinhos da festa de aniversário (ou mês-sário) de crianças paparicadas. Sem desigualdade, é você quem limpa o seu banheiro, lava a sua roupa, coloca a gasolina no seu carro. Você não tem tempo – nem dinheiro, porque afinal você paga 50% de imposto e os serviços são caros – para fazer as unhas ou passar  no cabeleleiro para a sagrada escova de fim de semana. Desigualdade é confortável para as classes altas que, mesmo presos em condomínios de luxo e shopping centers, se consideram felizardos em comprar o carro do ano ou investir na ostentação da festa do filho de um ano, mesmo que ele(a) não entenda ou aproveite a comemoração.

 

Quem viaja de férias para a Europa logo se encanta com a liberdade de andar na rua sem aquele alerta constante, com a arborização dos parques, com o transporte público eficiente, a burocracia que funciona. Muitos sonham em se libertar da gaiola de ouro em que vivem, mas mal conseguem visualizar uma vida sem pequenos luxos. É dessa ironia do destino que o artigo trata.

 

O que eu faria se ainda morasse no Brasil?

É lógico, é uma questão de costume. Quando eu ainda morava no Brasil, parte da classe média, cresci com empregada em casa. Não tinha que me preocupar em limpar nada, em lavar roupa, em preparar comida. Vidão porreta. Com vinte e dois anos vim morar na Alemanha. Não sabia nem por onde começar; muitas vezes, queria esse vidão de volta. A verdade é que quem mora no Brasil e nunca morou no exterior não conhece outra realidade. É assim que o mundo (brasileiro) roda.

 

Para dar um exemplo ainda mais real, uma amiga de longa data estava na expectativa de se mudar para a Europa com a família toda e, nesse meio tempo, estava fazendo cálculos de custo de vida. Uma das coisas que ela me perguntou: quanto custa para fazer as unhas por aí? Na hora fiquei boba, achei uma futilidade mensurar custo (e qualidade) de vida com o ato de fazer unhas semanalmente.  Quando parei para pensar, me lembrei de que eu também fazia minhas unhas no salão toda semana, que isso era importante.

 

Daí vim morar na Alemanha e aos poucos você desapega dessas coisas e começa a ter uma outra mentalidade. Da última vez que estive no Brasil, já com filho e tudo o mais, ficava abismada com a quantidade de amigas e parentes que levavam babá para tudo quanto é lado. Saíam de férias, levavam babá. Caramba, eu pensei, por que famílias dependem tanto de babá? Que luxo desnecessário, me pegava pensando. Mas será que se eu ainda morasse no Brasil eu também não faria a mesma coisa? Esses costumes arraizados demoram para desintoxicar.

 

Se eu estivesse no Brasil, teria a mesma mentalidade de desapego de hoje? 

 

Não que eu esteja desculpando as classes altas, não é isso, acho que muitos dos comentários negativos quanto ao artigo da colega blogueira irritaram aqueles que de fato querem continuar com os luxos burgueses tão disseminados no Brasil. Mas que existe a questão do costume arraizado, do nem pensar mais no que a desigualdade significa... ah, isso existe!

 

Mas também existe uma outra onda: cada vez mais brasileiros estão saindo do nosso país para buscar oportunidades fora – principalmente na Europa e América do Norte. Talvez o sonho de se desapegar, de ter uma vida mais simples, esteja aos poucos quebrando a ilusão de que essa vida de aparências leva a algum lugar.

 

Porque se importar com o bem-estar social e não só com o seu próprio umbigo

A sociedade brasileira está cada vez mais polarizada quanto à política. A dicotomia entre os esquerda e direita está tomando proporções terríveis. De um lado, muitos continuam apoiando a esquerda brasileira representada pelo PT (que na verdade, eu nem sei mais o que defende, a não ser a liberdade de Lula e afins). Outros começaram a tomar o lado oposto, representado por uma direita que se opõe a direitos de gays e mulheres, revogação de desarmamento, etc. Eu me pergunto porque a trajetória brasileira precisa ser decidida entre essas duas opções radicais. Me pergunto se o brasileiro não se deixa influenciar pelos vizinhos do norte, que se encontram num país dividido por opiniões fanáticas. E nisso vejo alguns paralelos, porque também nos Estados Unidos falta o tal caminho do meio.

 

Nos Estados Unidos é épico ver a luta entre republicanos e democratas. De um lado, republicanos querem reduzir o papel do Estado, abolir o Obamacare, reduzir drasticamente serviços de apoio social, reduzir taxas. Do outro lado, democratas querem manter o largo papel do Estado, ampliar o Obamacare e serviços sociais, só que, para isso, se precisa aumentar os impostos (afinal, de onde vem o dinheiro?). Dilema total, e olha que as desigualdades nos Estados Unidos só fazem crescer. Benefícios sociais, como o sistema de saúde universal implementado por Obama, são considerados por alguns como comunismo (anos de doutrinação anti-comunismo dá nisso), mesmo que em países como no Reino Unido e na Alemanha tenham sistema de saúde sociais (os europeus não entendem por que os americanos têm tanta repulsa pelo Obamacare). Muitos não querem pagar mais impostos porque não veem o benefício para eles – afinal, o dinheiro seria investido em programas sociais para outras comunidades. Muitos acham que receber benefícios seja coisa de preguiçoso, porque afinal é só você trabalhar duro para subir na vida. O tal do American Dream.

 

Quem se beneficia dessa onda individualista são as empresas. A Corporate America está indo muito bem, obrigado. Lá se pode demitir por qualquer motivo, lá não existe licença maternidade. Como disse uma amiga minha americana há tempos atrás, você é um número, alguém descartável que pode virar morador de rua de um dia para outro. Não existem garantias. Quem se beneficia? As empresas, os shareholders, os ricos (que proporcionalmente continuam pagando menos impostos, by the way). O resultado: cidades com grandes desigualdades sociais como Detroit e Chicago tornando-se vítimas da violência. Da última vez que estive nos EUA, um dos taxistas me disse que tinha se mudado para Orlando porque viver em Chicago estava impraticável devido a violência. Pois é.

 

É esse o modelo que queremos nos inspirar?

Me pergunto se a Europa não oferece um caminho alternativo, uma estrada que seja pro-business mas que não deixe seus habitantes como reféns de uma cultura corporativa cujo único objetivo é fazer dinheiro para quem já tem dinheiro.  A Europa não é perfeita, mas é nesse continente onde empresas são competitivas ao mesmo tempo que o trabalhador tem certas proteções. Os cidadãos têm direitos sociais – que nada têm a ver com comunismo, mas com um Estado de bem-estar social que nos presenteia com sociedades relativamente pacíficas. Para isso, as pessoas pagam impostos altos, mesmo que não se beneficiem diretamente deles, porque sabem que a consequência dessas taxas dará uma vida melhor para outros cidadãos que talvez não tenham tantas oportunidades. A consequência é óbvia: um mundo menos desigual é um mundo melhor para se viver. Para TODOS (ou para a maioria).

 

Sei que a sociedade brasileira tem mais similaridades com a americana do que a europeia. Somos mais miscigenados, viemos de comunidades diferentes, somos mais heterogêneos. A Europa ainda goza de populações mais homogêneas, apesar de que o Reino Unido, Alemanha e França já sejam considerados países de imigrantes. Existe uma teoria que associa o individualismo americano à miscigenação, por exemplo.   Populações europeias também estão se tornando mais heterogêneas, e muitas das perguntas e preocupações que brasileiros e americanos têm – de sustentar  os vagabundos que não querem trabalhar - começam a aparecer por aqui. Entretanto, como o sistema de bem-estar social já está assentado no costume europeu há muito tempo, felizmente mudar para um sistema mais individualista e menos comunitário é mais difícil.

 

Resumindo...

Se as classes alta e média brasileira começarem a entender que para viver bem precisa-se investir na comunidade como um todo, o que significa diminuir desigualdades, apoiar benefícios sociais que tirem gente da pobreza extrema, é possível que, daqui a muito tempo, existam melhoras na sociedade. O que não dá mais é para virar o rosto, ignorar que a pobreza de um é prisão invisível do outro.

 

Estamos acostumados a olhar apenas para o nosso benefício próprio e imediato; acredito que começar a ver que o estilo de vida burguês está assentado nas desigualdades é um bom começo. É lógico que muitos ainda protestarão, dirão que o Bolsa Família é máquina de fazer votos, o que não é totalmente errado, não. Muitos continuarão a apoiar o Lula por causa do Bolsa Família, mas isso porque a alternativa da direita os aterroriza. A questão toda é que para o Brasil melhorar, a sociedade como um todo tem que melhorar. Não seria muito melhor assim, do que ver seus filhos criados numa gaiola de ouro, andando pelas ruas com carros blindados? Chegamos ao cúmulo de não colocar crianças no assento do carro apropriado com medo de bandidos levarem carro e criança num assalto só. Essa realidade não é normal. Isso começa com as graves desigualdades do nosso país; só não vê quem não quer.

 

Ao invés de nos inspirarmos no individualismo, no corporativismo, gostaria que nos inspirássemos em um sistema mais humano, que não deixe pessoas à mercê de empresas ultra-poderosas, que lhes dê saúde, a oportunidade de estar com os filhos ao invés de dias longos de trabalho, que apoiem pessoas que perderam o emprego e que precisam se recolocar no mercado do trabalho, que lutem pelo meio ambiente com afinco. Para isso, pensar na comunidade e não só no seu umbigo é primordial. Afinal, em que mundo queremos viver? Tudo começa com nossas próprias escolhas.  

 

ESCLARECIMENTO:

 

Resolvi dar pitaco no texto da autora Ivana Ebel porque gostei do viés que ela colocou no artigo. Não tenho, entretanto, nenhum vínculo com a autora. Aliás, nem a conheço, nem sei se ela concordaria com tudo o que disse aqui. De qualquer forma, no geral concordo com a autora em seu ponto e espero que ela continue trazendo esse viés fresco em seu blog.

 


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Comments: 4
  • #1

    Jair Cordeiro Lopes (Tuesday, 15 August 2017 19:44)

    Manuela,
    Você se superou, essa análise das conduções sociais da Europa comparadas com os tropeços tupiniquins na mesma área, é uma obra-prima. Não tenho pejo em dizer que você colocou os pingos nos "Is" com uma competência ímpar. Parabéns pelo virtuoso ensaio, e meu desejo maior é que você consiga divulgar (talvez para as mídias do Brasil) que deverão dar os maiores créditos a esse artigo magnífico.

  • #2

    Sidney Guerra (Thursday, 17 August 2017 17:57)

    Muito bom o texto, Manuela.
    Concordo plenamente!

  • #3

    Roberto Siqueira (Monday, 21 August 2017 00:48)

    Parabéns pelo texto, resumiu tudo que penso e que tento dizer há 10 anos, desde que pisei no velho continente pela primeira vez. Abraço.

  • #4

    Nestor Bender (Monday, 21 August 2017 01:11)

    Essa visão não é a dos filhos de descendentes de europeus que vieram pobres para o Brasil venceram e agora são da classe média. Eles reclamam porque tem que pagar 5 meses de trabalho ao ano de impostos e não tem nenhuma reciprocidade como os europeus tem. E fácil estar do outro lado onde não se tem uma cultura retrógrada, que nem a nossa.

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