Recomendações literárias de férias – faça chuva ou faça sol

Férias de verão na Alemanha, friozinho inesperado no Brasil... independentemente do tempo, ler é sempre uma delícia. À beira-mar ou debaixo de grossas cobertas, nada melhor que mergulhar em histórias fascinantes. Na contagem regressiva para minhas férias na Bella Itália, reuni as leituras mais interessantes, belas, deliciosas, um pouporri literário de recomendações para você.

 

Preparado(a)?

 

O distópico: O Conto da Aia, de Margaret Atwood

Publicado em 1985 pela canadense Margaret Atwood, O Conto da Aia está novamente sob os holofotes. Desde a eleição de Donald Trump e o lançamento da série de TV de mesmo nome na plataforma Hulu que muitos têm se referido à obra distópica que conta a história de Offred (¨of Fred¨, em referência à condição de propriedade da aia) na República de Gilead, os Estados Unidos de um futuro distante. Diante de um atentado que transforma a sociedade num Estado teocrático cristão, os direitos da mulher são plenamente retirados em nome da segurança e da necessidade de reprodução (devido à destruição da natureza - inclusive por causa de ataques nucleares – grande parte da população torna-se estéril). As mulheres são divididas entre fertéis e inférteis, e nessa sociedade plenamente desigual que a história de Offred se desenrola.

 

O romance é profundo, doloroso, irresistível, profético de tal forma que às vezes eu me arrepiava ao lê-lo. Passagens como ¨Foi após a catástrofe, quando eles atiraram no Presidente e metralharam o Congresso e o exército declarou estado de emergência. Eles culparam os fanáticos islâmicos, na época. Mantenha a calma, eles disseram na televisão. Tudo está sob controle. (...) Foi quando eles suspenderam a Constituição. Eles disseram que seria temporário.¨

 

O romance prevê situações que foram desencadeadas após o atentado do World Trade Center, assim como o constante controle que se faz do corpo da mulher: a proibição do aborto, a obrigação de vestir-se com pudor, a condenação da mulher (e não do algoz) em casos de estupro e abuso sexual.

 

É impressionante ver como o comportamento do ser humano, os princípios que carregamos, são obliterados quando o medo se alastra, nos fazendo aceitar que direitos sejam retirados em nome da segurança. A política do medo é o maior inimigo da humanidade; é o que magistralmente Atwood conta nessa obra-prima sobre o lado mais podre do ser humano.

 

O histórico: As Memórias do Livro, de Geraldine Brooks

Publicado em 2008, As Memórias do Livro da premiada autora Geraldine Brooks tem o formato que mais me atrai em livros: passado e presente entrelaçados, realidades e histórias de personagens diversos. Nesse aspecto, o livro é originalíssimo: ele intercala a história da restauradora australiana Hanna Heath (que se encontra em Sarajevo após a guerra civil da Bósnia para restaurar a Hagadá de Sarajevo, um livro judaico raro) e diversos personagens que um dia tiveram a Hagadá em mãos. Ao folhear as páginas, Hanna encontra pistas por onde o livro passou, de asas de insetos até sangue, aos poucos recriando a história da Hagadá.

 

Em cada história, em cada personagem, percebemos a vida do povo judeu ao longo dos séculos, das dificuldades, do preconceito, da luta constante. O mais interessante é, no entanto, como a autora conta como diversas pessoas – não necessariamente judias – lutaram contra uma série de infortúnios para proteger a Hagadá e outros livros raros, e como conhecimento é algo que une povos. Da inquisição até o nazismo e a guerra da Bósnia, o trajeto do livro é a consequência de um povo perseguido mas teimoso, que não se deixa desistir, que persiste sempre.

 

Para quem interesse em livros históricos, As Memórias do Livro é uma excelente pedida.

 

O sensível: Sinfonia em Branco, de Adriana Lisboa

Desde que li a obra Hanói que me tornei fã de Adriana Lisboa. O romance Sinfonia em Branco é mais um que me convenceu da habilidade dessa escritora de criar histórias de situações simples, a elegância de uma história comum elevada à maestria. O romance recebeu o Prêmio José Saramago – e bem merecido.

 

Nessa história, as irmãs Clarice e Maria Inês vivem à sombra de um trauma cujas repercussões se fazem sentir décadas após o ocorrido. Tal acontecimento deu forma às vidas infelizes de ambas, que mesmo tentando recomeçar se vêem no redemoinho de auto-destruição, afastando-se uma da outra em tentativas frustradas de esquecimento. Os laços que unem as irmãs falam mais forte, entretanto, mesmo que anos se passem sem que elas se vejam. Nesse intervalo, casamentos se fazem e desfazem, amores esquecidos continuam em carne-viva. Profundo, de uma sensibilidade que toca o coração, Adriana Lisboa consegue novamente emocionar.

 

A crítica que faço ao romance é o uso e abuso de metáforas, como ¨melhor era subtrair, retirar, como um escultor diante de um bloco de pedra¨ ou ¨estava vagamente alegre como se tivesse recuperado alguma promessa, algum perfume de criança (...)¨. O apego da autora em detalhes revela precisão em destilar os sentimentos associados a coisas, lembranças, relacionamentos e à obra do pintor James McNeill Whistler e sua pintura Sinfonia em Branco No. 1; mas o exagero é o que peca. Fora a overdose nas metáforas e detalhes nem sempre importantes, a obra de Adriana Lisboa é fabulosa.  

 

O trágico e belo: O Deus das Pequenas Coisas, de Arundhati Roy

Depois de longos vinte anos, a escritora indiana Arundhati Roy publicou seu segundo livro, The Ministry of Utmost Happiness (traduzível por O Ministério da Suprema Felicidade), causando um furor no meio literário. Resolvi adquirir o primeiro livro da autora, O Deus das Pequenas Coisas, para melhor entender o porquê de todo esse fuzuê. Posso dizer que agora entendo; o primeiro livro de Roy é sensacional, sem dúvida merecedor do Booker Prize de 1997.

 

O Deus das Pequenas Coisas conta a história de dois irmãos gêmeos de uma família de Kerala, no sul da Índia. Assim como o romance de Adriana Lisboa, baseado em uma história simples (ou vice-versa, já que esse livro veio bem antes), a obra aos poucos conta a história de uma família devastada com escândalos, divórcios, crueldade do patriarca e, o mais importante, a repercussão da morte da prima inglesa dos irmãos gêmeos, um acidente que moldou as vidas dos personagens para sempre, tragédias que se espalharam como baratas em solo tropical.

 

O ritmo da obra mistura presente e passado, questões sociais como o sistema de castas, escolhas impossíveis num lugar onde ser diferente é pecado, quase suicídio. Roy aborda também a questão da mulher, sempre inferior em qualquer situação, dependente para sempre da boa vontade do pai, do irmão, do marido. O homem, o chefe, o superior, é ele quem manda. É nessa situação que Ammu, mãe dos gêmeos Estha e Rahel, se encontra. Mesmo lutando para se encaixar nas expectativas da família, Ammu decepciona sempre, e nesse contexto seus filhos vivem as repercussões de suas decisões, seus erros, suas tristezas. Do amor encontrado em um dalit, a casta dos intocáveis, Ammu dá o último passo em direção à tragédia. E assim os irmãos crescem separados, sempre assombrados pela perda de tudo de bom que um dia tiveram.

 

Mesmo com passagens bem-humoradas, o livro é trágico, mas de uma beleza sem igual. A complexidade do ser humano é também contada por Roy que, diferentemente do ângulo político de Margaret Atwood, consegue capturar a falsidade, a inveja, a falta de amor que surpreendentemente assola famílias, às vezes muito mais preocupadas com a tal honra do que amor incondicional.

 

Posso dizer que estou na expectativa de ler The Ministry of Utmost Happiness,  e que espero que seja um livro tão grandioso como O Deus das Pequenas Coisas.    

 

O clássico: Gabriela, Cravo e Canela, de Jorge Amado

Tem dias que certas coisas do Brasil – os aromas, os costumes, a exuberância – ficam esquecidas em algum canto da mente. Num dia assim comecei a reler Gabriela, e como mágica as cores e sabores da Bahia reapareceram, inesperados. A cadência da obra é devagar como o ritmo de vida baiano, aos poucos os diversos personagens não só aparecem, mas ganham vida. Se no início ainda não estava ligada à obra, eventualmente as frases cheias de adjetivos te pegam de jeito tal que você não consegue mais largar o livro. Lendo-o avidamente, folheando as páginas feito uma maníaca, me perguntava: onde está Gabriela?

 

Por muito tempo o autor conta os causos de Ilhéus, terra de coronéis e cacau, sangue e honra, e nada da protagonista cujo nome adorna o título do livro. Até que lá para a página cem o autor faz a introdução de uma sertaneja suja mas sensual, cheiro de cravo e canela, que vira a cabeça dos marmanjos e do árabe Nacib, dono do bar Vesúvio. E nesse vaivém do romance com Nacib, as expectativas do amor e do casamento que Gabriela não consegue se ater, as politicagens dos coronéis que num intervalo da vida de Ilhéus se apresentam, que Jorge nos dá o prazer de conhecer cada personagem, cada canalhice, cada conflito interior da protagonista que, mesmo amando Nacib com sinceridade, quer ela apenas a simplicidade do amor, algo que somente alguém com sabedoria de vida almeja.

 

A obra é extensa, deliciosa de ser consumida, e cada página vale a pena. Graças a Deus que a obra foi escrita há muitas décadas atrás, longe das vistas do editor atual que, com certeza, pediria a Jorge para diminuir os adjetivos, as palavras, ou colocar Gabriela na página dez. Viva Jorge!

 

Uma maravilhosa leitura, pessoal!

 


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Comments: 1
  • #1

    Jair Lopes (Sunday, 06 August 2017 15:26)

    Manuela,
    Fico feliz por você ter "reaberto" a possibilidade de o leitor fazer comentários. Achei que você estava nos boicotando, mas agora tudo bem.
    As obras mencionadas, e tão excelentemente resenhadas, abriram meu apetite de leituras. Vou procura-las na Estante Virtual já!
    Exceto Grabriela, pois este já li, reli e tenho em casa. Bem vinda e boas férias!

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