Auto-sabotagens do imigrante: 4 grandes mitos

Nessas últimas semanas eu tenho escrito bastante sobre a Alemanha, predominantemente de forma positiva (deve ser o efeito verão!). Daí me pego lendo alguns comentários de leitores aqui e ali, e um ficou na minha cabeça. Foi algo mais ou menos assim: ¨estou lendo esse blog e parece que a Alemanha é a Disneylândia¨. A mesma pessoa então escreve em outro comentário que mora na Alemanha há um ano e alguma coisa, e que no
país que o acolheu não existe lei do trabalho, que tudo é ruim.

 

Em um outro artigo – sobre o amor dos alemães com a natureza – um indivíduo esculhambou o artigo dizendo que era tudo ¨balela¨. Segundo ele, os alemães não respeitam a natureza coisíssima nenhuma, o brasileiro, ah! esse sim sabe valorizar a natureza porque afinal nós temos a Amazônia e portanto nossa consciência ecológica é praticamente automática (fez sentido para você?), e como o Brasil é muitíssimo melhor que a Alemanha, que depois de seis longos anos ele não via a hora de voltar. Outro colocou outro dia que, ao falar bem da Alemanha em um artigo sobre ¨sabedorias alemãs¨, eu reflito a síndrome vira-lata que muitos brasileiros sentem (oi?).

 

E por aí vai... com certeza mais comentários como esses continuarão a aparecer. Como blogueira, estou ciente do risco que é fazer suas ideias tornarem-se públicas. É dar a cara para bater mesmo (e haja sangue de barata, senhor!).

 

O que me incomoda, entretanto, não é isso: o que ficou claro nesses últimos meses desde que comecei o blog é como algumas pessoas tem atitudes de auto-sabotagem quando o negócio é viver no exterior. É um tal de cuspir no prato que se come que vou te contar... Portanto, resolvi fazer uma curta coletânea das atitudes mais tiro-no-pé que percebi nesses meus doze anos como imigrante (e diga-se de passagem, não sou perfeita e ainda hoje me pego em situações de auto-sabotagem também).

 

Mito 1: Tudo no Brasil é melhor

Pronto, vamos logo começar com a base de tudo.

 

Para começo de conversa, o que nós achamos ¨melhor¨ é o que nós estamos acostumados: a comida, a forma como nos comportamos, valores compartilhados, visão de mundo. Não quer dizer que seja melhor coisa nenhuma.

 

Muitos de nós saíram do Brasil por desilusão, para fugir da violência, para ganhar qualidade de vida. Criamos expectativas, é verdade, assim como familiares e amigos (muitos acham que ficaremos ricos na Europa ou Estados Unidos... ê, ilusão!). A verdade nua e crua é que se adaptar a novos costumes, idioma, e tudo o mais, é difícil pra cacete. Não será um mar de rosas. Mas isso não quer dizer que o Brasil seja ¨melhor¨ ou que o país que te acolheu seja ¨pior¨.

 

Vamos combinar que tudo é uma questão de perspectiva, de expectativa, do momento de sua vida. Mas em muitos casos saímos do Brasil porque ¨nada funciona¨, mas quando as coisas funcionam de um jeito diferente do que esperávamos no exterior temos essa tendência (até certo ponto normal) de comparar com o nosso referencial de vida – que é o nosso Brasilzão. O problema consiste em dar vazão exagerada às reclamações, a ver tudo pela ótica do negativismo.

 

Além disso, quando estamos longe o que vem em nossa mente? As coisas ruins do Brasil ou as coisas boas? Para mim, as coisas boas tem muito mais força quando estou fora do país, as fantasias de um Brasil gentil, de comida deliciosa, de praias fantásticas, de natureza exuberante, etc., do que os aspectos negativos como a violência, a corrupção, as dificuldades do dia-a-dia.

 

Essa combinação das irritabilidades de viver no exterior e as fantasias que passam por nossas cabeças podem te dar aquela sensação de que tudo no Brasil é maravilhoso, até que retornamos eventualmente e percebemos de novo o porquê saímos do Brasil. Tapa na cara, não é?

 

Mito 2: Falar bem do país que te acolheu desmerece o Brasil

Por que, pelo amor de Deus, falar bem da Alemanha seria falar mal do Brasil? Difícil compreender, mas algumas pessoas acham que sim.

 

Para mim um dos segredos de viver bem no exterior é justamente reconhecer que certos costumes ou regras sociais fazem sentido, coisas que você acaba absorvendo-os na sua vida pessoal eventualmente até como forma de se integrar no país onde você está.

 

Cada lugar tem algo especial, assim como tem coisas boas e ruins. Nada será perfeito. Nada será a tal Disneylândia. Mas se você não tiver habilidade de reconhecer as coisas boas, é óbvio que você vai acabar se apegando às coisas negativas. E como viver desse jeito, se tudo o que você vê é de uma negatividade suprema? Até por uma questão de sobrevivência, de satisfação interior, é importante que você abra seu coração para aceitar as coisas boas – do apego alemão com as regras até a forma como eles falam diretamente com você.

 

Mito 3: Não consigo fazer amizade com a estrangeirada porque ELES são fechadões

Ê lelê, essa eu ouço direto, inclusive da minha própria boca! Olha, não é fácil fazer amizade com os alemães – ou outras nacionalidades – se você não souber se comunicar na língua deles. Se você está indo morar em outro país, não tem jeito, gente. Tem que aprender o idioma. Pode ser que você não fale perfeitamente (eu jamais vou escrever um artigo desses em alemão ou recitar um poema de Goethe), mas esperar que os estrangeiros se adequem a você e às suas habilidades linguísticas não faz sentido.

 

Para que essa questão entre nas cabeças mais duras dos meus conterrâneos, imagine que um estrangeiro de passagem pelo  Brasil puxe papo com você, mas ele sabe só falar o básico do básico do português. Fica aquela conversa de bêbado, você começa a fazer mímica para o gringo te entender, e vice-versa. Você gostaria de continuar a conversa? Vamos admitir que essa conversa chegaria a um limite, e muito provavelmente você não daria uma segunda chance a esse estrangeiro?

 

É só invertermos os papéis – o que poderíamos esperar a não ser um small talk bem básico, e eventualmente um chega-pra-lá educado?

 

Além do idioma, o negócio é ser cara de pau mesmo. Já ouvi de alguns alemães que eles não estão proativamente buscando por novos amigos – afinal, a maioria já tem os amigos da escola, da faculdade, do trabalho. Quem tem que rebolar para fazer amizades somos nós.

 

Temos também que nos acostumar que quando chegamos em outros países ninguém coloca o tapete vermelho para nós passarmos. No Brasil, nós babamos o ovo de estrangeiros, e no fundo esperamos que, quando aterrissamos em outro país, que os nativos façam o mesmo conosco. Isso não vai acontecer; seja na Europa, seja em qualquer outro lugar, as pessoas raramente se fascinarão porque você é brasileiro. É decepcionante, mas é verdade.

 

Para finalizar, alguns culparão o caráter fechadão dos alemães para não fazer amizades (eu também já fiz isso, tá?). Talvez a grande maioria deles não vai contar sua vida toda numa fila de supermercado, talvez não se consiga aquela intimidade superficial que nós estamos acostumados desde o princípio. Se é isso que você está esperando, te digo de antemão que vai quebrar a cara. Temos que sentir que o ritmo para selar uma amizade aqui demora mais. Aceitando isso, persista, e as chances de você ganhar um amigo verdadeiro são muito grandes.  

 

Mito 4: Eu sou imigrante, portanto SEMPRE terei menos oportunidades

Pode ser verdade em muitos casos, mas fato é que uma atitude derrotista não te levará a lugar nenhum. Tenho conhecidos e amigos que batalharam muito para aprender o idioma, e não ficam atrás de nenhum alemão quando o assunto é carreira (e isso inclui mulheres e mães). Eu também já caí nessa armadilha várias vezes, e confesso que deixei de lutar com mais afinco porque achei que por ser estrangeira eu não conseguiria ir adiante.

 

Não sejamos ingênuos, é claro. É lógico que é mais difícil em vários sentidos: o idioma que precisamos aprender do zero, as equivalências de diploma que demoram, os nãos que recebemos quando as empresas veem que você tem filho. Na questão carreira, não tem jeito, você também vai ter que rebolar e convencer o empregador que seu currículo é excepcional. Em alguns casos, precisamos dar um passo para trás antes de dar um passo à frente.

 

Às vezes se reinventar é preciso: uma amiga deixou a carreira de advogada no Brasil e hoje tem uma empresa que faz salgadinhos, docinhos e bolos. Conheço muita gente que trabalha como autônomo: de gerente de projetos a documentação de marketing. E precisamos ser muito mais flexíveis também: mesmo com diploma na mão, você vai servir café no Starbucks ou cortar cebola no McDonald´s. Empregos muito dignos, por sinal, nada daquela loucura no Brasil em que se ensina que ser gari é quem não deu certo.

 

Conclusão: existirão percalços, obstáculos maiores ou inimagináveis para os nativos, mas impossível? Saímos do Brasil porque quisemos, então o negócio é batalhar por um lugar ao sol.

 

O que é melhor?

Não sei. O que sei é o que é melhor para mim. E para mim, nesse momento da minha vida, a Alemanha ainda é o lugar onde me sinto bem. Às vezes tenho vontade de morar em outro país com um mais de sol, às vezes tem coisas na Alemanha que acho um pé no saco, tem dias que me dá vontade de fazer as malas e ir embora. Mas se eu estivesse no Brasil, conhecendo a minha inquietude, provavelmente seria a mesma coisa.

 

Reclamar às vezes faz bem: você pode reclamar do frio, do inverno rigoroso, da comida, do idioma difícil, da dificuldade em fazer amigos ou até arranjar um(a) namorado(a). É claro que, em muitas instâncias, queremos apenas desabafar com quem entende a vida de imigrante – e tudo bem. Muitos até dirão: ¨não está satisfeito? Então volte para o Brasil¨, o que não te ajuda nem um pouco (e que eu acho um tanto cruel, afinal não é porque somos imigrantes que precisamos concordar e aceitar tudo).

 

Todos nós teremos fases de desamparo, desespero, desolação – e isso reflete a forma como vemos o mundo. Se o bicho tiver pegando, considerar um possível retorno ao Brasil não é admitir derrota, é admitir que simplesmente o lugar onde se está no momento não é o lugar certo. Por vezes pensamos até que admitir que estamos felizes em algum lugar do mundo nos faz menos brasileiros; eu não sinto isso. Acho que vivendo fora até passamos a valorizar certas coisas. Por exemplo, quando ainda morava na Bahia nunca tinha ido à Festa do Senhor do Bonfim. Fui pela primeira vez quando visitei Salvador como ¨turista¨. Aqui faço moqueca, algo que na casa de meus pais nunca fizeram. Pequenas coisas que aprendemos a valorizar quando estamos longe.

 

A vida já não é fácil para muitos de nós, com a família longe, as dificuldades inerentes de ser imigrante, achar o equilíbrio entre a identidade de brasileira e a ¨condição¨ de imigrante permanente – então a única forma que vejo para ser feliz longe de sua terra é parar de se auto-sabotar, mergulhar na cultura, estar de cabeça e coração abertos para aceitar coisas que antes pareciam inimagináveis. Não tem jeito, quem quer ser feliz tem que perceber as coisas boas – mesmo que isso signifique receber comentários cínicos de vez em quando.

 


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