Da euforia à integração: histórias de uma imigrante

Tudo começou com aquela vontade de conhecer o mundo, de mudar a paisagem, de tentar algo novo. Assim, bati o pé e resolvi sair do Brasil. Parece simples, mas não foi, porque decidir até que não foi difícil, já que eu sempre tive esse desejo de andarilhar por aí, mas concretizar essa ambição... ah, isso não foi nada fácil.

Mas quando finalmente estava tudo pronto para arrumar as malas e pegar o avião com destino à Alemanha, bateu medo, nervosismo, vontade de ficar.

 

 

É claro que embarquei no avião, achando que assim que pisasse em terras germânicas tudo seria maravilhoso. Não dizem por aí que morar no exterior é fantástico, tudo de bom, show de bola?

 

Quando vim para a Alemanha estava ainda como imigrante temporária. Já tinha estudado em Bremen, no norte do país, e já conhecia as agruras do frio, a reserva exagerada dos alemães, a solidão do inverno. Eu vim mesmo assim, porque achei que Munique, terra da Oktoberfest, seria um pouco menos fechadona que a taciturna Bremen. Havia criado uma série de expectativas, de planos. E logo quando você chega sente aquela euforia, aquele uau que te abraça com todas as pequenas coisas que anteriormente seriam inimagináveis. Acenar para o motorista do ônibus? Não precisa. Sai arzinho da boca quando está frio? Sai. A neve então? Nossa, ver pela primeira é uma mega sensação. O castelo de Neuschwanstein? Conto de fadas, nunca tinha visto nada igual. E por aí vai...

 

Cheguei em Munique no pico do inverno, as temperaturas abaixo de zero, neve até o tornozelo (imaginem empurrar duas malas de 32kg...). O sol estava sempre tímido, raramente saindo detrás das nuvens, a tonelada de roupas e acessórios começa a te incomodar, você cai na rua congelada duas, três vezes por falta de sapatos apropriados que são muito caros para você comprar. A comida é sem aquele temperinho da Bahia, as pessoas são tão reservadas quanto as de Bremen, a língua continua difícil de aprender mesmo com aulas intensivas.

 

Aos poucos a realidade se apresenta, te convida a ver algumas dificuldades que anteriormente você achava pequenas demais para levar em consideração. Você começa a perceber que aquele mundo perfeito que você criou na sua cabeça se desfacelou que nem biscoito velho, que ele nunca existiu. Você percebe, apesar de ser óbvio, que uma coisa é sair de férias e outra coisa completamente diferente é morar num país que não é seu, com uma língua que você entende mais ou menos, com costumes que você acha um pé no saco. Você se vê entrando numa espiral de choques culturais, às vezes positivos mas muitos negativos também, e começa a se dar conta como é difícil viver longe da família, do sol, da rotina que antes você achava massante. A fase do desencanto te pega de jeito, e de início você não sabe sacudir a saudade, o arrependimento, a falta de noção do próximo passo.

 

É nesse momento, que por vezes pode parecer desesperador, que é  preciso levantar-se para não cair em depressão (o que é super normal no inverno). Cada um tem o seu modo de superar essa fase; alguns se resignam à vida mais tranquila da Alemanha, alguns passam anos como zumbis como se não tivessem alternativa. Por mais que a Alemanha seja um país maravilhoso em muitos aspectos, também não é fácil. O idioma é de matar. O frio é uma tristeza. A falta de sol então... socorro!

 

Não é fácil passar do desencanto, da fase da frustração para o caminho da adaptação. A estrada é mais esburacada que as rodovias brasileiras, mas é possível. Essa fase de recuperação vem com esforço, entretanto. Falar o mínimo da língua é essencial, procurar diversidade de relacionamentos é saudável. Não entendo gente que evita a comunidade brasileira, por exemplo, como se ter amigos da pátria fosse impedir uma plena integração. Tudo é uma questão de equilíbrio: conhecer pessoas da nossa terra que já passaram pelos mesmos perrengues e podem dar dicas ajuda bastante, assim como procurar relacionar-se com os nativos. Muitos deles apreciam quando se tenta falar o alemão – ou a língua do país onde você está – e muitos te ajudam nesse processo. Embrenhar-se na cultura e costumes é necessário; por exemplo, os bávaros adoram caminhar nas montanhas, então por que não tentar?

 

O mais importante para sacodir o desânimo é ver as coisas positivas do lugar que te acolheu. Tomar uma cervejinha no biergarten? Opa! Colher morangos no verão? Que delícia! Dormir até mais tarde no inverno e tomar um chocolate quente debaixo de cobertas grossas? Fiquei até com preguiça agora...

 

Não é fácil chegar à fase da aceitação, mas como na grande maioria das coisas na vida, é uma questão de tempo. Começamos a nos sentir em casa, e não mais como aquele turista que passou da data da viagem. Para muitos cortar o cordão umbilical com o Brasil é tarefa impossível... e tudo bem. Algumas pessoas precisam recarregar as energias com o sol, a praia, a família, a feijoada e os amigos de longa data. O Brasil é, apesar de todos os problemas, o lugar que temos como referência de vida.

 

A aceitação e plena integração não significa um processo linear. Quantas vezes já passei por esse mesmo ciclo por anos a fio, principalmente durante o longo inverno? Quantas vezes chorei enquanto a neve não parava de cair? Quantas vezes tive vontade de largar a vidinha arrumada que tenho aqui e voltar? Centenas de vezes, já perdi a conta!

 

E para aqueles que continuam a sentir-se como eternos turistas, que é a fase que eu estou passando no momento, acredito que quando arrancamos raízes e saímos de nossa terra, é como se não conseguíssemos replantar essas raízes. Elas sempre ficam meio soltas, e mesmo quando voltamos ao Brasil para uma visita temos aquela sensação de que lá também já não é nosso lugar. Onde é minha casa?, às vezes ainda me  pergunto.

 

É difícil dizer; apesar de me sentir adaptada na Alemanha (eu, sinceramente, adoro pontualidade, planejamento e organização, coisas impensáveis numa baiana!), ao mesmo tempo não me sinto completamente em casa. É aquela sensação de quando eu estou na casa de alguém fazendo uma visita: apesar do anfitrião me deixar à vontade, eu não tenho intimidade para colocar os pés no sofá, me demorar no banheiro ou tirar um cochilo na poltrona. Aos poucos vou conhecendo um pouco mais das regras da casa e de como o anfitrião se comporta, mas como visita ainda fico sem-graça de abrir a geladeira. Aquela coisa de mi casa es su casa não se aplica muito bem...

 

Para muitos, ser imigrante é isso. É aquele leve e contínuo desconforto de não estar em casa, de não estar ciente das regras, do que pode ou não fazer. O lado racional diz que viver fora do Brasil é melhor para você, mas o coração... oxe, o coração não quer saber dos problemas sistemáticos do Brasil! O coração quer sentir o cheiro de mar, ver céu azul, falar a língua sem aquela embolação de um idioma estrangeiro, se deliciar com os sabores que conhecemos desde pequenos.

 

Algumas pessoas que querem morar no exterior acabam percebendo que não querem se desvencilhar do seu ponto de referência cultural nem viver com o coração dividido. No final das contas, cada um sabe do seu limite. Eu mesma tentei viver alguns meses na Índia; planejei três meses, fiquei um. Não aguentei, a diferença cultural era muito grande para mim. E tudo bem, cada um sabe de si.

 

Hoje, morando na Alemanha, ainda tenho fases difíceis, mas no geral considero um privilégio combinar a criatividade do brasileiro com a organização alemã. Viver com coração dividido é o preço que preciso pagar, eu acredito. Mesmo depois de doze anos, ainda não me sinto em casa completamente, mas aprendi que mesmo de vez em quando ainda me sentindo um tanto turista, eu vou fazer questão de colocar meus pés no sofá, me demorar no banheiro e abrir a geladeira. No caminho da integração, às vezes precisamos ser cara-de-pau mesmo!

 


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