Viajando em folhas de papel

Que sensação boa é abrir um livro e já se sentir levada a um lugar diferente, imaginar paisagens, cheiros e gostos dos mais diversos. O que não falta hoje em dia são opções de literatura de viagem, diários de experiências de quem se joga no mundo. Não só alguns desses relatos estão compilados aqui, mas também algumas opções de leitura que não são de viagem em si, mas que se desenrolam em lugares fantásticos e te dão vontade de fazer a mala com destino incerto. Inspire-se com alguns dos meus livros prediletos, e viaje em folhas de papel...

 

Cem dias entre céu e mar, de Amyr Klink

Nesse maravilhoso livro o velejador mais famoso do Brasil relata a primeira travessia do Atlântico Sul em barco a remo, realizada em 1984, partindo da Namíbia e desembarcando na Bahia. O livro é uma espécie de diário de viagem que apresenta alguns feitos no pequeno barco a remo (apelidado de ¨lâmpada flutuante¨).

 

Aos poucos nos familiarizamos com os termos náuticos (que eu não conhecia, então foi um bom aprendizado), como lastros e escotilha e, o mais interessante, detalha a viagem numa época em que internet e GPS não estavam nem perto de serem desenvolvidos. Deixe o coração apertar com os tubarões e ondas gigantes, emocione-se com o sentir de uma grande baleia abaixo do barquinho, e sinta-se parte da natureza selvagem do mar.


Paris é uma Festa, de Ernest Hemingway


Um dos escritores mais celebrados do século XX, Ernest Hemingway escreveu sobre sua temporada parisiense nos anos 20. Ainda no começo de sua carriera, Hemingway escrevia nos famosos cafés, frequentava a legendária livraria Shakespeare & Company, se deliciava com a gastronomia francesa, passeava pelo Jardin du Luxembourg e encontrava-se com personalidades do mundo artístico.   Nesse curto livro, o escritor, ainda desconhecido e pobre, celebra a vida em Paris das quatro estações. Anedotas como a ida ao Louvre para observar os pênises de estátuas da antiguidade para provar ao colega Scott Fitzgerald que seu pênis não era pequeno como acusava sua esposa, dão cor à obra carregada de romantismo da vida de escritor em Paris.

 

É no final do memoir, escrito décadas após sua estadia na cidade luz, que Hemingway diz Paris sempre valeu a pena (...), foi assim a Paris nos primeiros dias quando éramos pobres e felizes. Depois de ler a obra, a única vontade que tive foi colocar a mochila nas costas e me embrenhar pela Paris dos velhos tempos.


O Alquimista, de Paulo Coelho

Pode ser que Paulo Coelho não seja do gosto da maioria, mas seus primeiros livros, como O Alquimista, são daquelas obras simples, gostosas de ler, que te inspiram a ir além. A obra instiga o jovem espanhol Santiago a procurar um tesouro, o que o faz cruzar o Mediterrâneo até o Marrocos, atravessar o deserto do Saara até as pirâmides e a Esfinge no Egito.

 

Ele conhece o verdadeiro tesouro – que nada tem a ver com moedas de ouro ou riqueza material. Essa jornada pessoal por países exóticos, e a própria expansão da visão de mundo do jovem Santiago é uma baita inspiração para colocar a mochila nas costas, e sair da nossa zona de conforto.

 


Pé na Estrada, de Jack Kerouac

A legendária obra de Jack Kerouac, publicada em 1957, foi elevada a clássico pelos amantes de viagens e espíritos livres. Pé na Estrada retrata a amizade entre Sal Paradise e Dean Moriarty, jovens inquietos que não conseguem ficar num só lugar por muito tempo. Não é só de viagens entre o leste e o oeste dos Estados Unidos que o livro trata, mas do encontro com diversos personagens, festas, sexo, jazz e drogas. Por mais que o livro procure retratar a tal geração beat, aquela mesma pseudo-intelectual, ¨livre¨ e usuária de drogas (a definição não é minha) e sim, há descrições e conversas sobre o sentido da vida e a beleza do movimento, sinto-me ambivalente quanto à obra.

 

O que vejo nesse livro não são só as viagens que com certeza parecem fascinantes e inspiradoras, mas um bando de jovens baderneiros que largam mulher após mulher na rua da amargura sem remorsos, cenas e mais cenas do vaivém leste-oeste, pessoas que me parecem mais perdidas do que livres. Ainda assim, um bom livro para inspirar o espírito viajante de qualquer um.


Comer, rezar, amar, de Elizabeth Gilbert

Tá bom, esse é meio clichê, admito! Mas quem lê não pode deixar de se inspirar nessa jornada autobiográfica de Liz Gilbert, uma jornalista/escritora que, ao se separar do marido, procura se achar no mundo que é, na verdade, a sua casa.

 

Ela decide desbravar três países que, coincidentemente começam com a letra i: Itália (onde ela se delicia com os sabores de Roma: o comer da viagem), Índia (onde ela luta para encontrar paz através da meditação: o rezar da viagem, que na verdade é mais se conectar com si mesmo) e a ilha indonésia de Bali, onde ela encontra o amor. Vale a pena a leitura.

 


Um Brasileiro em Berlim, de João Ubaldo Ribeiro

Lançado em 1995, essa obra de um dos meus escritores baianos preferidos compila crônicas sobre as experiências do escritor na Berlim alguns anos após a queda do famoso muro. Desde comentários sarcásticos sobre a versátil palavra bitte, que pode significar por favor, desculpe, licença, o quê?, dentre outras utilizações práticas, a dificuldade com o idioma, como os alemães se deliciam com a gastronomia brasileira a cada jantar promovido pelo escritor, as diferenças culturais de dois países que por vezes parecem andar em direções opostas.

 

O relato de João Ubaldo Ribeiro é divertido, fluido, uma delícia de ler e, principalmente, apresenta os alemães na literatura fora do clichê do nazismo. Einfach wunderbar!

 


A Ilha, de Victoria Hislop

Com certeza em dos romances que mais gostei nos últimos anos, A Ilha conta a história da família Petrakis na ilha de Creta, na Grécia, cujo pano de fundo é a ilha de leprosos de Spinalonga e também a Segunda Guerra Mundial. A história é contada pela jovem Alexis Fielding que, curiosa com o passado da família que sua mãe recusa-se a revelar, ela parte para Creta à procura de respostas.

 

Apesar do estilo simples, a autora mostra com grande categoria a vida e os costumes gregos, e nos transporta para cenários e escolhas impossíveis delineados nessa obra. Para quem adora a Grécia como eu, essa será uma viagem inesquecível.

 


A Chave da Casa, de Tatiana Salem Levi

O livro de estréia da escritora brasileira mostrou um talento nato para retratar não só a jornada pessoal de descoberta, como as poucas passagens sobre a Turquia e seus costumes. Ainda é um mistério que esse livro seja auto-biográfico, mas tudo indica que sim pela autenticidade dos sentimentos e a sensibilidade impressa nessa obra. O que mais me chamou atenção são as sensações da autora ao ver pela primeira vez a terra de seus ancestrais em busca da antiga casa onde seu avô morava antes de se mudar para o Brasil.

 

Ela viaja para Istambul até chegar em Esmirna e conhece a família judia que, no começo, a despreza por não falar turco ou conhecer certos costumes. O livro é mais focado na redescoberta interior, mas ainda assim é poderoso o suficiente para inspirar uma viagem à Turquia, um dos países mais fascinantes que conheço.

 



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Comments: 2
  • #1

    Jair Cordeiro Lopespossível (Friday, 05 May 2017 19:34)

    Manuela,
    Dos livros focados por você, não li: "A estrada da vida", "Viajar é trocar a roupa da alma", "Um brasileiro em Berlim", "A ilha" e "A chave de casa" . O demais comprovam que é possível viajar sem sair de casa. Parabéns pela bela seleção e pela postagem. Quero apenas ressaltar que li quatro livros de Paulo Coelho, mas não o leio mais, acho ele péssimo escritor, e tenho pena de quem só lê ele e não conhece bons escritores.

  • #2

    Luiz Fernando Emediato (Tuesday, 16 May 2017 14:30)

    Comecei a ler e a gostar. Vou seguir. Parabés. Luiz Fernando

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¨Somos o resultado dos livros que lemos, das viagens que fazemos, e das pessoas que amamos.¨

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