72 anos da liberação de Dachau: os campos de concentração da Alemanha e do mundo

29 de abril, 1945. Os prisioneiros do campo de concentração de Dachau foram libertados, e o mundo finalmente soube a verdade sobre o que acontecia por trás dos muros da bucólica cidade nos subúrbios de Munique. Espantados com a verdade, as montanhas de cadáveres malnutridos, os crematórios, as câmaras de gás, o horror sem fim, parte da sociedade alemã tirando as vendas dos olhos.

 

Foi ali, em Dachau, onde o conceito moderno de campo de concentração surgiu, lugar onde concentravam-se primeiramente dissidentes políticos, comunistas, ciganos e homossexuais, até expandir-se para o aprisionamento sistemático de judeus. O modelo criado localizado em uma antiga indústria de munições e do slogan irônico Arbeit macht frei (¨o trabalho liberta¨) foi exportado para sustentar a ideologia nazista em Auschwitz-Birkenau e Treblinka, Polônia, e em outras instalações em territórios ocupados.

 

Na verdade, campos de concentração existem desde a existência do Homem que, por algum motivo que para mim ainda é desconhecido, tem grande prazer em conflitos e guerras. O primeiro campo de concentração da História, ou pelo menos do que se tem notícia, criou-se na Assíria. Desde então, especialmente desde o século XIX, vemos que quando o sistema se vê desafiado por determinados grupos que os tais campos de concentração surgem. Apesar dos alemães serem os mais notórios, praticamente nenhuma nacionalidade se safa nesse quesito: até os americanos, auto-intitulados guardiões da democracia e liberdade, aprisionaram americanos de origem japonesa após o ataque de Pearl Harbor em campos de concentração, além de tomarem posse dos bens dos possíveis inimigos.

 

Se tal campos de concentração foram construídos ¨apenas¨ para aprisionar indiscriminalmente aqueles que talvez fossem inimigos, uma forma mais sinistra é a que vemos popularizada por Dachau: não só campos de concentração eram, como campos de execução. Um deles é o Killing Fields of Cheoung Ek, localizado nos arredores da capital cambojana de Phnom Pehn.

 

Lá cometiam-se horrores similares aos de Dachau, talvez com um quê ainda mais selvagem: os prisioneiros, inclusive bebês, tinham crânios esmagados contra troncos de árvores para economizar no consumo de balas de armas. Ali foi o epicentro do sistema do ditador Pol Pot, líder do Khmer Rouge, cuja loucura e megalomania exterminaram 25% da população cambojana de fome, pestilência ou através de execuções entre 1975 e 1979.

 

Apesar do objetivo comum dos campos de concentração de Dachau e Phnom Pehn, a sensação que se tem ao adentrar o Killing Fields de Cheoung Ek é um tanto diferente do da pequena cidade bávara. Enquanto em Dachau somos apresentados a uma fábrica de matar gente, um matadouro eficiente nos melhores padrões germânicos, onde os corredores te dão calafrios e ao fechar os olhos você sente a frieza, a crueldade do lugar, na ensolarada Killing Fields parece que você entra numa fazenda. Galinhas percorrem o lugar, passarinhos cantam, a natureza exuberante do sul asiático se pronuncia. Uma das primeiras coisas que vemos é uma alta stupa (local onde relíquias são depositadas ou locais de oração para budistas), que ao longe parece um templo. Aproximando-se, vê-se que essa stupa acumula milhares de crânios encontrados no grande terreno dos Killing Fields, pequenos, médios, grandes. Vê-se os resquícios das vítimas, que para sempre serão desconhecidas.

 

Ao entrarmos nos campos de execução, pisamos nos resquícios de roupas, dentes e ossos. Isso porque muitos corpos ainda estão enterrados nos campos verdes onde colocamos nossos pés, e a cada chuva lembretes do grande cemitério aparecem. A selvageria de Cheoung Ek provavelmente não era de eficiência germânica, mas era tão odiosa quanto. Senti calafrios, enjôos, exasperação. Pessoas comuns como eu vêem cenários de morte ao alcance das mãos e, naquele momento de estupefamento, me perguntei: por quê?

 

Campos de concentração continuam existindo, porque a guerra continua presente no cotidiano da humanidade. Se alguns desses campos hoje abrigam refugiados que, em alguns casos, não têm permissão para sair do local e portanto são prisões ao ar livre como no caso de campos entre Grécia e Macedônia, vemos com preocupação que o conceito popularizado por Dachau também está sendo usado para a criação de campos de concentração para homossexuais na Chechênia ou o aprisionamento sistemático da população Rohingya em Myanmar. O ministro do Interior da Grécia,
Panagiotis Kouroublis, afirmou em março de 2016 que o campo de refugiados de Idomeni é "tão ruim quanto um campo de concentração nazista. Eu não hesito em dizer que este é uma moderna Dachau."

 

O centro de refugiados de Idomeni, Grécia (foto: Independent UK)
O centro de refugiados de Idomeni, Grécia (foto: Independent UK)

Uma das coisas que mais admiro nos alemães de hoje é na capacidade de não deixar esquecer: não só constantes documentários sobre Hitler e companhia estão sempre presentes na programação televisiva, mas ainda vemos resquícios da guerra no campo de concentração de Dachau, assim como as ruínas da igreja São Nicolas em Hamburgo, bombardeada na Segunda Guerra. A vergonha que os alemães carregam quanto ao holocausto e ao nazismo talvez seja a fonte da linha geralmente ultra politicamente correta que a maioria dos políticos seguem. Correto ou não, com certeza cada um terá a sua opinião. Entretanto, em minhas reflexões me pergunto se por vezes não é melhor do que o fascismo disfarçado de hoje em dia nos Trumps e Putins da vida.

Não que eu seja a favor do exagero no politicamente correto – equilíbrio é importante em todos os aspectos da vida – mas nesses 72 anos da libertação de Dachau, assim como os quase 40 anos do Killing Fields de Cheoung Ek e os campos de concentração contemporâneos, nos lembremos que é muito fácil a História se repetir. Estaríamos nós nos deixando levar pelo mesmo discurso de ódio, repaginado para o público moderno?

 


NOTA 1: O aniversário de 72 anos da liberação de Dachau será comemorado com alguns eventos promovidos pela KZ-Gedenkstaette. Para quem tiver interesse, checar o website aqui

 

NOTA 2: Para quem tiver interesse, esse artigo explica como a História é feita de ciclos e como nós nos deixamos levar pela demagogia e nacionalismo: History tells us what may happen next with Brexit and Trump.


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