Quando a história pulsa em suas veias: antigos mundos

Existem poucas coisas mais chatas que aprender história na escola? Quem não se lembra das aulas enfadonhas sobre o antigo Egito, a Mesopotâmia ou a Grécia? Eram de dar sono, tamanho o número de datas, nomes, eventos que precisávamos decorar para a próxima prova. As aulas lá do colegial nos ensinavam sobre lugares tão imaginários quanto a Terra Média ou Westeros.

 

Nada do que era dito dentro das quatro paredes de uma sala de aula realmente ficava comigo, tal conhecimento evaporando-se assim que completava a prova. História, para mim, se tornou interessante no ver e no sentir, na experiência de ver grandes monumentos de tempos passados com os próprios olhos, tocar as paredes construídas há séculos, milênios atrás, conectar-se com uma energia de lugares que resistem ao tempo.

 

Há algum tempo atrás conversei com uns colegas americanos, daqueles que acham que histórico é algum monumento ou edifício com mais de cem anos. Nós brasileiros também somos um pouco assim, seres do tal Novo Mundo, com um conceito diferente do que é antigo. No meu caso, morei em Salvador até os vinte e cinco anos e, por mais que minha terra natal seja a cidade mais antiga do Brasil e possuir muitas coisas antigas, ainda não eram tão antigas que me causassem aquele frenesi. Eu não queria ver e sentir lugares de apenas alguns séculos; queria eu também ver algo que estivesse de pé há milênios. Essa sim era minha ambição, desde pequena, e foi no epicentro do mundo antigo que minha jornada  começou.

 

O Egito, onde os ventos de passados distantes conquistaram meu coração para sempre, é um lugar tão especial para mim que até tatuagem tenho. Ao chegar no Cairo da longa viagem de carro de Sharm El-Sheikh logo vi as sombras das pirâmides de Giza ao longe, vultos que estão sempre à vista na capital do país, um pouco como o Cristo Redentor no Rio.

Fotos mais antigas que o Egito (da esquerda para a direita): as pirâmides de Giza, a piscina de Cleópatra no oásis de Siwa, um templo no Cairo, o deserto do Sinai.

 

Não resisti e subi os primeiros degraus da grande pirâmide, senti a textura dos blocos antigos sob minhas mãos e a constância das areias do Saara sob os pés. Em terras egípcias vi palácios, mesquitas, bazares e, no oásis de Siwa (há alguns quilômetros da Líbia), a legendária piscina de Cleópatra e a cidade de tijolos de barro de Shali. O coração batia mais forte, às vezes precisava me beliscar para me convencer que estava na terra dos faraós, pisando o mesmo chão e sentindo a mesma sensação dos elementos. As essências de perfumes que trouxe do bazar do Cairo me levam de volta a esse país caótico, fantástico, antigo. Simplesmente incomparável sentir a História tão perto, a trajetória milenar das pirâmides e templos faraônicos até os monumentos islâmicos.

 

A Ásia não deixa por menos. Na Índia vi monumentos mais modernos como o Taj Mahal, cuja construção começou em 1632, estruturas tibetanas em Dharamsala (o refúgio do Dalai Lama) e o Templo Dourado em Amritsar, um dos sacrossantos edifícios do Sikhismo. Foi no Camboja, entretanto, onde encontrei os sublimes templos de Angkor. Capital do Império Khmer, algo que só ouvi falar quando estive nesse país recentemente redescoberto pelo turismo, Angkor atingiu o seu ápice entre os séculos IV e XV. Um grande complexo com mais de mil templos de inspiração hindu e budista, Angkor é pura antiguidade. É inesperado ver e sentir algo dessa magnitude, principalmente porque me era completamente desconhecido. Foi nessa terra de pessoas sorridentes mesmo ainda carregando traços do terrorismo do Khmer Rouge que senti a vibração viva da história.

 

Camboja (da esquerda para a direita): a entrada para os templos de Angkor; o templo de Ta Prohm; dentro do Angkor Wat; Angkor Wat ao amanhecer; rosto do Buda em pedra no templo de Bayon; na entrada do templo Wat Phnom na capital cambojana de Phnom Pehn e dentro do templo.

 

E é claro que a Europa também é riquíssima em História: Itália, Grécia, Chipre, Croácia, Turquia. Na ilha de Rhodes existe uma bela cidade medieval da qual nunca tinha ouvido falar, e em Chipre, uma pequena ilha no Mediterrâneo ainda dividida por uma guerra silenciosa, vê-se templos e a famosa pedra de Afrodite. E quantos de nós ouvimos falar do Império Otomano e da velha Constantinopla? Embarque para a Turquia e sinta fé na Mesquita Azul, independentemente de qual religião você siga, admire o esplendor da antiquíssima Hagia Sophia construída em 537, ainda hoje um santuário de fé mas sem religião definida (é possível que as autoridades mudem de idéia em breve) e os santuários construídos em pedra na região da Capadócia, onde os primeiros cristãos viveram escondidos em cavernas. Diz a lenda que o apóstolo Pedro passou por essa região em suas peregrinações. A Itália apresenta seus coliseus da Idade Antiga e catedrais medievais, enquanto a catedral de Estrasburgo na França comemorou 1,000 anos em 2015.

 

Alguns highlights da antiguidade na Europa (da esquerda para a direita): Capadócia, Turquia; Hagia Sophia em Istambul; teatro grego em Chipre; ruínas de Knossos, em Creta; catedral milenar de Estrasburgo, França.

 

Voltando a Munique, ainda me espanto com a idade avançada de certas coisas. Uma rede de padarias da cidade – a Hofpfisterei – está na ativa desde 1331. O Isartor, um dos quatro portões da cidade medieval (outros dois ainda existentes são Sendlinger Tor e Karlstor), nasceu em 1337.

 

Em Munique: uma padaria para lá de antiga, fundada em 1331; o Portal do Isar - Isartor - está de pé desde 1337; uma das entradas da cidade antiga, a Sendlinger Tor.

 

Entre viagens, retornei ao Brasil e redescobri a riqueza de nossa história, vendo tudo com outros olhos. Do Castelo Garcia D´Ávila de 1551 nos arredores da Praia do Forte na Bahia até o Forte de São Marcelo em Salvador de 1605, visitei novamente lugares que fui quando criança mas que ficavam ali, sempre à espreita, sem uma visita sequer por muitos anos. Depois me perguntei porque não visitei mais vezes, mesmo sabendo da resposta: estava sempre ali, ao alcance da mão, sem que eu valorizasse esses resquícios da história brasileira. Não são do mundo antigo nem medieval, mas são fascinantes mesmo assim, testemunhas dos tempos coloniais até o presente.

 

O Castelo de Garcia D´Ávila, nos arredores da Praia do Forte, Bahia.

 

Me sinto privilegiada de ter visto tantos lugares, de continuar realizando o meu Wanderlust, mesmo que aos pouquinhos. Pergunto-me até quando esses lugares permanecerão, e qual será o legado histórico que nossos filhos e netos terão. Será que um dia todos esses edifícios modernosos erguidos com pressa e eficiência serão descartáveis com o passar do tempo, ou cederão passagem a arquiteturas ainda mais futurísticas? Qual será a herança do século XXI para a humanidade? Será que gerações futuras olharão para o que erguimos hoje, e também farão fila para prestigiar o patrimônio arquitetônico do nosso presente? Jamais poderei saber.

 

Andarilhando por aí, aprendi que são as experiências que cementam a história em nosso corpo, mente e alma. Se não fosse por essas andanças, não teria descoberto os horrores do Khmer Rouge no Camboja, jamais teria ouvido falar do Império Khmer, não teria visto resquícios na arquitetura e na na alma dos alemães quanto ao nazismo e holocausto, não entenderia os preceitos das religiões hindu e muçulmana, provavelmente ainda não conseguiria distinguir Império Romano-Germânico, Prússia e Baviera, não saberia dos horrores infligidos pelo governo chinês ao Tibete.

 

Visitar tais lugares, entretanto, não é só tocar uma pirâmide, comprar um souvenir num bazar ou se deixar levar pela energia de um templo antigo. A beleza de viajar é também conectar-se com as pessoas e suas culturas, entender os parâmetros de comportamento, as tradições de gerações. É entender o lado humano de que quem pisa no mesmo chão que imperadores, profetas e artistas por onde passaram. É experimentar os gostos e cheiros, é vivenciar história e cultura com todos os sentidos. É, principalmente, uma maneira de nos tornarmos melhores seres humanos.

 

O que sei apenas é que viajar é preciso.

 

Com o nosso guia em Phnom Pehn, Camboja; menino brincando nos arredores de Angkor; casamento cambojano; uma dança tradicional egípcia; uma efíge em árabe na ilha de Rhodes, Grécia; ostras maravilhosas em Creta; uma casa tradicional cambojana do interior.


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Comments: 1
  • #1

    Jair Cordeiro Lopes (Saturday, 22 April 2017 15:28)

    Pois é, Manuela,
    Agora temos o ISIS (Estado Islâmico, para nós) destruindo cidades e monumentos históricos e muitíssimos antigos como a cidade de Palmira na Síria. Lamentável que exista gente que, em nome de uma ideologia esdrúxula, não respeite a história da humanidade.