Era uma vez uma nação de leitores

Todos nós gostamos de histórias; reais ou inventadas, sobre amor ou guerra, mundos verdadeiros ou fantasiados. Como as histórias são contadas e divididas foi uma questão de evolução: primeiro no boca-a-boca, em colunas e tábuas de argila, até a invenção do livro oficialmente reconhecida através da invenção de Johannes Gutenberg, em volta de 1439. Foi um alemão de Mainz que inventou a imprensa na Europa (aparentemente algo parecido já havia sido inventado na China), e que colocou

a Renascença, a Reforma, e a Revolução Científica em movimento.

Se o formato do livro começou com Gutenberg, podemos afirmar que o gosto pela leitura acelerou-se com Martinho Lutero, o pioneiro da Reforma Religiosa. Foi através de Lutero que a língua alemã unificou-se através da tradução da Bíblia do latim para o alemão, e por consequência fazendo o conteúdo bíblico disponível para todos os fiéis (para os que sabiam ler, é claro). Será que esses dois momentos cruciais na História teriam alguma consequência no mundo literário de hoje? O que isso significou para a Alemanha se tornar um país de leitores, sendo hoje o segundo maior mercado literário do mundo (apenas atrás dos Estados Unidos)? 

 

Tudo indica que as revoluções propiciadas por esses dois alemães foram apenas o começo dessa história de amor entre alemães e livros. É num ambiente que valoriza a leitura onde a literatura pode florescer. Na Alemanha, ler é prazer, é hobby, e desde cedo se dá valor à leitura.

 

Para se ter uma idéia,  68.7% dos alemães são interessados em livros, sendo que 44.6% da população germânica lê um livro pelo menos uma vez por semana. A maior feira de livros do MUNDO é em Frankfurt. O mercado literário na Alemanha de 2015 foi estimado em EUR 9.2 bilhões (R$ 30.6 bilhões), e olha que esse valor diminuiu em 1.4% em comparação com o ano anterior (a crise literária está em todo lugar). Nada mau para um país de 80 milhões de habitantes, não?

 

Os frequentadores de bibliotecas

À esquerda/acima, a Biblioteca Real Gabinete Português de Leitura, no Rio de Janeiro; à direita/abaixo, a Biblioteca Nacional Alemã (Deutsche Nationalbibliothek) em Leipzig, Alemanha.

 

Ao mesmo tempo, o que vemos no Brasil?

 

Vemos que, apesar da nossa população de aproximadamente 200 milhões de habitantes, o nosso mercado literário é muito menor. Para ser mais exata, é cinco vezes menor, avaliado em R$ 5.4 bilhões em 2015 (declínio de 5.16% em comparação com 2013). De acordo com pesquisa encomendada pelo Instituto Pró-Livro revelada em maio de 2016, 44% da população brasileira não lê e 30% nunca comprou um livro, e olha que os índices de leitura até que cresceram de 2011 até 2015 de 4 para 4,96 livros por ano. A Bíblia é o livro mais lido em todos os níveis de escolaridade, e outros livros considerados marcantes incluem clássicos da literatura brasileira como Vidas Secas, de Graciliano Ramos, espirituais como Ágape de Padre Marcelo Rossi, infanto-juvenis como a série Harry Potter e a Turma da Mônica, até o infame Cinquenta Tons de Cinza, de E L James.    

 

Mas o fato mais importante é esse: a leitura está apenas na 10ª posição das atividades preferidas dos brasileiros. Não gostamos de ler; para a maioria dos brasileiros, leitura é obrigação. É ler Iracema e Capitães de Areia porque é pré-requisito para o vestibular. E olhe lá!

 

Pergunta-se, portanto, como criar um mercado literário forte se não há leitores? (não vou responder, acho que o leitor já entendeu que não é possível).

 

Pode-se dizer que os mercados brasileiro e alemão não sejam comparáveis; afinal, as realidades são muito diferentes, principalmente no que diz respeito à renda. Entretanto, de acordo com a mesma pesquisa do Instituto Pró-Livro, descobrimos que apenas 2% dos não-leitores não lêem por causa do preço dos livros, e outros 2% porque não têm dinheiro. Ao mesmo tempo, 32% dos não-leitores responderam que não lêem por falta de tempo, 28% porque não gostam de ler, 13% porque não têm paciência e 10% porque preferem outras atividades (como comprar abadás para o Carnaval ou ovos de Páscoa, algo que nós sempre arranjamos dinheiro).  É tudo uma questão de prioridade.

A raiz do problema, a meu ver, é uma questão de hábito e incentivo que, francamente, estão em falta desde a primeira-infância no Brasil. Aqui na Alemanha, em contrapartida, existe muito estímulo à leitura desde o primeiro ano da criança – livros e mais livros estão à disposição, não são caros, e muitos pais se cobram para ler livros antes da criança dormir. A leitura faz parte da rotina, e isso é para muitos motivo de orgulho.

 

Não sejamos, entretanto, ingênuos quanto aos preços absurdos de livros no Brasil. Ora, se a maioria dos leitores preferem livros impressos (16%) ao invés de e-Books (1%), muitos deles não estão preparados para desembolsar centenas de reais por mês para comprar livros apenas. Na situação de renda do Brasil, a grande maioria dos leitores de classe média precisam escolher com cuidado em que livro investir. Isso mesmo, a palavra é investir, porque afinal livros são praticamente artigos de luxo. É necessário para muitos, portanto, que o livro seja sobre um assunto que se encaixe completamente em seu interesse (não há muito espaço para experimentações), seja preferencialmente de um autor conhecido, ou que seja indicado por familiares ou amigos. Isso significa uma coisa: aqueles que já estão na boca do povo continuarão na boca do povo, enquanto os autores desconhecidos continuarão desconhecidos.

 

A boa notícia das minhas descobertas dos últimos meses é que a literatura brasileira contemporânea está viva, e continua lutando para obter um melhor acesso para os leitores. Entretanto, pouquíssimo mudará na longa estrada da literatura brasileira se o hábito e o gosto de ler não forem amplamente difundidos e se, principalmente, não houver investimento em educação. Podemos ter maravilhosos autores, mas se não há quem consuma essas obras não existem formas sustentáveis de crescer. A literatura brasileira de hoje tem também a inusitada desvantagem do preconceito: muitos preferem literatura estrangeira (talvez porque sejam estas as que as editoras realmente investem). Nada contra a literatura que vem de fora, eu também leio e gosto, mas dar valor ao que produzimos é essencial. Podemos ter Machado de Assis como um dos autores preferidos do Woody Allen, mas se não houver incentivo para a literatura contemporânea estaremos para sempre fincados no século XIX.

 

Com certeza existem muitos problemas. Podemos culpar a economia, as editoras, o Temer, a Amazon, os preços dos livros. Podemos apontar milhares de culpados, mas a verdade é que a base de tudo se resume ao gosto e o hábito da leitura. Quem ama ler não consegue viver sem livros (impressos ou digitais) e arranja dinheiro para comprar o livro que quer (não arranjamos dinheiro para comprar abadás, para a cervejinha do domingo e para os ovos de Páscoa?). A questão toda é: como estimular a leitura? Como difundir o gosto pela literatura na geração do futuro? Como fazer da leitura prioridade e prazer?

 

Parece que aos poucos a situação está melhorando. De acordo com a recente pesquisa da GfK entre 22.000 internautas acima de quinze anos em dezessete países, o Brasil está ligeiramente acima da Alemanha em termos de hábitos de leitura, com 26% dos entrevistados lendo livros todos os dias (na Alemanha, 25%). Será que finalmente poderemos nos tornar um país de leitores?

 

Existe esperança, afinal.

 


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Comments: 3
  • #1

    Jair Cordeiro Lopes (Saturday, 08 April 2017 16:25)

    Manuela,
    Como sou leitor compulsivo, muitas vezes escrevi sobre ler, livros, escrever e quejandos. Fiz alguns mal formados sonetos sobre o assunto e os reproduzo abaixo a guisa de comentário.

    Emburrecendo

    E, naturalmente, não se pode dar trela
    Para aquele que reclama da qualidade
    Da tevê. E seu passatempo é só novela
    Que distribui muito amor e felicidade.

    Então, toda vez que pessoa assim eu vejo
    Dizendo que toda televisão não presta.
    Bem lá no fundo tenho um ardente desejo
    De dizer: É, tua estultice assim o atesta!

    Porém aquilo que por certo mais me assusta
    É que nunca se apercebe aquela pessoa
    Que desligar seu tela de tevê não custa
    E, muito melhor, é permanecer à toa.

    Portanto, se sua inteligência não susta
    Amigo, vá ler um livro que é uma boa!


    Autor mundialmente desconhecido
    Com três livros publicados apenas
    Tornei-me sim escritor aborrecido
    Por contrariedades não pequenas.

    Autor= otário

    Escrever textos prá mim é moleza
    Mas publicá-los já é outra questão
    Porque me torno vítima indefesa
    Do editor, que come tal tubarão.

    Não importa qual o nome da editora
    Todas abocanham maior quinhão
    E só crê nelas alma sonhadora.

    O autor é somente uma abstração
    Nas mãos de cada maldita impostora
    Que ganha dinheiro e só tem razão.

    Onde aprendemos?

    No início apenas ver e observar
    Do visto extrair o conhecimento
    Aprender levava a outro patamar
    E apressava o desenvolvimento.

    E vieram as escolas bem depois
    Somente decoreba e descrição
    E se decorava dois vezes dois
    Mais alguma leitura e redação.

    Mas vinha o nível médio então
    Por isso aumentava o desafio
    De modo que acabava a inação
    Em matérias novas até o fastio.

    Mas todo ensino é mera ilusão
    Somente livro preenche o vazio.

    Do livro
    Homenagem ao poeta Cruz e Souza

    Da forma e do conteúdo
    Do espírito e da ciência
    De ter bastante tenência
    Deste livro que trata tudo.

    De assuntos mais suaves
    De lúcidos pensamentos
    De mui claros argumentos
    Do explicar sem entraves.

    Das dúvidas aclaradas
    De palavras não caladas
    De vasculhar escombros.

    De dizer como são feitos
    De conduzir por estreitos
    De despertar assombros.

  • #2

    Jair Cordeiro Lopes (Saturday, 08 April 2017 16:27)

    Livros

    Já deixei claro muitas vezes neste pedaço que gosto de livros e sou leitor apaixonado. Hoje quero, mais uma vez, fazer apologia da leitura e também lembrar que o livro é uma fórmula mágica de aprendizado, é um pacote compacto de saberes que alguém compilou e publicou. Fernando Sabino contava que ele e alguns amigos escritores, em uma reunião literária, fizeram as seguintes perguntas: O que vale a pena ser lido? Que livros devemos ler e quais não? Pois é, segundo ele, depois de muita discussão chegaram à conclusão que todos os livros devem ser lidos.
    Concordo plenamente com eles, livros bons ou ruins o mais das vezes são como gostar ou não gostar de certas comidas, por exemplo. Há quem goste de comer gafanhotos no oriente, há quem deteste peixe ou não goste de jaca como eu. Então como determinar o que é bom e o que é ruim? Não existe fórmula para gosto por comida nem definição de quando um livro é bom ou ruim, todos merecem ser lidos, uns em algum momento de nossas vidas, outros em outro momento. Livros que achávamos ótimos quando éramos crianças, hoje podem parecer verdadeiros xaropes. Livros que alguns gostam outros acham maçantes, enfadonhos, chatos, e por aí vai.
    Então como ficamos? Ficamos lendo, pois é a maneira mais fácil de aprender e é extremamente gratificante. Hoje é dia do livro, então leiamos! JAIR, Floripa, 23/04/12

  • #3

    Diana Scarpine (Sunday, 09 April 2017 16:52)

    Excelente reflexão, Manuela!
    A foto da biblioteca Real no Rio de Janeiro reflete bem a situação brasileira, onde ler não é prioridade, nem toda cidade tem biblioteca e as que tem nem sempre aceitam os livros nacionais que os autores desta terra querem doar. Mas eu ainda acredito (e espero) que haja melhoras.

    Abraço,
    Diana Scarpine.

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¨Somos o resultado dos livros que lemos, das viagens que fazemos, e das pessoas que amamos.¨

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