Little things about the homo americanus

Sempre fui meio ambivalente com os Estados Unidos, não necessariamente um relacionamento de amor e ódio, estava mais para aquele sentimento que você tem por alguém que mistura admiração, respeito, um pouquinho de inveja e também um certo desprezo (sim, admito, não sou tão politicamente correta). Fui para a América pela primeira vez aos quinze anos, porque o rito de passagem da meninice para a idade adulta precisa ser feito nos parques da Disney, é claro, mas naquela época não interagi tanto com os americanos.

Desde então, nunca priorizei a América em minhas viagens, e olha que eu adoro viajar, e durante duas décadas de intervalo desenvolvi fantasias, preconceitos, e um certo receio do homo americanus. Os tão-orgulhosos americanos me fascinavam, mas também achava a arrogância desse povo algo descabido. E olha que vivo na Alemanha, um país que não é conhecido por uma população especialmente modesta em sua auto-imagem.

Pois nos últimos doze meses estive três vezes na América, sempre a trabalho (o país ainda não é minha prioridade para turismo, mas quem sabe um dia).  De São Francisco, passando por Las Vegas até Orlando, além de também lidar com americanos no dia-a-dia do trabalho, algumas dessas interações sedimentaram assim como criaram novas imagens da psiquê americana. Não que eu seja expert, pelo amor de Deus, antes que os amantes da América comecem a me xingar nas redes sociais, apenas pretendo aqui contar um pouco das experiências e esquisitices que notei aqui e ali.

 

Convivo com alguns americanos em Munique, sempre no trabalho, onde pude perceber aquela necessidade de sempre estarem no centro das atenções. Era dito e certo; eram eles os que geralmente falavam alto, que contavam piadas nos eventos da empresa, que convergiam as pessoas ao seu redor como se todos eles fossem a garota popular do high school. Não que fossem pessoas ruins ou arrogantes, até o contrário, mas às vezes um pouco chamativas demais, mesmo para os meus padrões teuto-brasileiros (acho que já estou mais germânica nesse sentido, excesso de barulho me dá nos nervos).

 

O que mais chama atenção com os americanos corporativos para mim é a necessidade de parecer ocupado porque, afinal de contas, se você é ocupado, você é importante. Li um artigo sobre isso na revista TIME, que justamente narra esse ponto da personalidade americana de estar e parecer ocupado: quanto mais emails, reuniões e ligações no meio da noite do chefe mais ressaltam sua relevância. Uma colega minha me disse uma vez que na América as pessoas são números, podendo ser demitidos a qualquer hora, sempre ao dispor dos chefes e shareholders. Pessoas respiram trabalho, principalmente porque o medo se ser demitido é grande. Não há um estado social como a Alemanha, não há licença maternidade, férias são limitadíssimas, geralmente de dez dias ao ano (exceto por algumas empresas do Vale do Silício que recentemente anunciaram férias ilimitadas como benefício para trabalhadores, mas sabendo que ninguém vai tirar tantos dias de folga por medo de serem rapidamente substituídos). Competição na veia, todos os dias.

 

É uma vida tão competitiva, que faz sentido colocar cada vez mais pressão nas crianças para alcançarem mais com trocentas atividades por semana para que elas, um dia, possam sobreviver essa selva. Vi uma propaganda que me deu a sensação de que as pessoas estão perdendo a noção: dizia a tal propaganda que a sociedade pediátrica americana recomenda pelo menos sessenta minutos de brincadeiras não-estruturadas para crianças. Como assim, as pessoas precisam ser lembradas de que as crianças têm de brincar sem muito fru-fru? Back to basics, people!

Outra coisa que sempre notei foi que, ao perguntar a um bando de gente de onde eles vêem, as pessoas geralmente vão te dizer Alemanha, Brasil, Índia, Inglaterra, ou seja lá onde. Os americanos respondem Texas, Nova Iorque, Winconsin, Califórnia. Eles não dizem ¨sou dos Estados Unidos¨, como se as pessoas tivessem que saber onde fica o Texas ou Winconsin. Imagine se eu respondesse à essa pergunta que sou de Salvador, já imagino meus colegas estrangeiros achando que sou de El Salvador (já aconteceu).

 

Já a questão da arrogância dos americanos é algo que me chama a atenção, a forma como eles se acham o centro do mundo. Quando estive em São Francisco, peguei um desses ônibus Hop-On, Hop-Off, já que só tinha um dia na cidade. Quando passamos pelo museu da cidade, o guia disse, com toda pompa e circunstância: esse museu tem mais cultura que toda a Europa. Como assim, meu querido, meus olhos questionaram o homem. Gargalhei, o guia ficou sem entender.

 

Ao mesmo tempo, tenho a impressão que essa arrogância é mais da boca pra fora, como qualquer pessoa que se coloca num pedestal mas, no fundo, no fundo, sabe que tem os seus defeitinhos. E o que falta aos americanos é cultura e história antiga, os castelos, monarquia, ruínas, templos de séculos atrás. Como consequência, nos Estados Unidos tudo pode ser histórico, como no caso do bairro de Tenderloin em São Francisco: construído na década de 20, foi tombado como histórico (tudo bem que essa foi a maneira dos proprietários de evitar a demolição de suas propriedades para a construção de novos prédios). Deve ser essa mania de querer ser histórico que fez Walt Disney construir o castelo da Cinderela baseado no famoso Neuschwanstein da Baviera, assim como a arquitetura-réplica de Las Vegas, que tem uma Fontana de Trevi, pobres imitações de Veneza no hotel The Venetian, e uma torre Eiffel. Quando americanos vêm para a Europa, dá para ver a fascinação deles com tudo o que é antigo, eles ficam embasbacados com tanta cultura e, principalmente, com a autenticidade dessa história de séculos, milênios atrás. Um dos taxistas de Orlando me contou que maravilha era Rothenburg ob den Tauber, uma cidade medieval na Baviera, que nunca havia visto coisa mais linda. Tudo que é antigo é uma deslumbramento para eles e para nós brasileiros também, seres do New World. Acho que essa arrogância toda é recalque, puro e simplesmente, como se para eles faltasse o passado glorioso de séculos ou até milênios atrás.

 

Daí a gente vê o lado gente-boa dos americanos, tudo mundo e eu digo todo mundo mesmo, te cumprimenta daquele jeito, hello ma’am, how are you today? No começo achei ótimo, você sente que não existe aquele gelo sempre latente que se encontra na Alemanha. Os americanos sorriem, puxam conversa. Até certo ponto acho uma maravilha, até notar que eles, na verdade, não se importam se você está bem. É só uma convenção social, algo que eles fazem quase como obrigação. Fiquei com aquele gosto amargo na boca de superficialidade, de falta de autenticidade até, de ser apenas mais um cliente que eles têm que tratar bem. Isso, de alguma forma, me incomoda, porque vejo que por trás da famigerada pergunta how are you doing today? existe zero interesse. Depois de uns dois dias, comecei a sentir falta dos alemães, que podem ser um pouco mais mau humorados, mas me parecem mais autênticos nesse aspecto; eles só falam com você se estiverem afim, não porque uma convenção social manda.  Além disso, admito que tenho pavor que me chamem de ma’am (curto para madam), porque me dá a sensação de que estão falando com uma senhora de sessenta anos. Não existiria um termo entre young lady e ma’am, pelo amor de Deus? Os americanos são tão criativos, até o iPhone inventaram, então está na hora de inventarem um meio-termo! (desculpem o desabafo).

Além disso, algumas esquisitices ou simplesmente diferenças culturais são inegáveis. Ao chegar no meu quarto de hotel em Orlando, procurei abrir as janelas no quarto para ter ar fresco, aquele mesmo ar fresco que os alemães adoram e eu aprendi a gostar. Tenho pavor de ar condicionado hoje em dia. Pois bem, a janela não abria de jeito nenhum, então fui para a recepção onde uma moça me disse Oh, honey, the windows don’t open. Como assim, não abrem, eu perguntei em desespero. A machine will provide you fresh air, ma’am. Uma máquina vai me soprar ar fresco? A janela não abre? Pavor completo, quatro noites sob as bufadas de ar da tal máquina. Além de me chamarem de ma’am mais uma vez.

 

Os americanos são mais relaxados em alguns aspectos, como os hóspedes do hotel puderem levar comida do café da manhã para seus quartos, por exemplo. Na Alemanha até plaquinhas existem proibindo a prática; se você não comer ali na mesa do café da manhã, não se pode pegar uma banana para mais tarde, daí você acha isso uma bobagem e coloca a banana na sacola escondido (típico de brasileiro, eu sei). Em Orlando, as pessoas podiam pegar o que estivessem afim e levar para onde quiserem, não tem ninguém policiando se você vai comer a tal da banana na mesa do restaurante ou daqui a uma hora no seu quarto. Talvez seja o foco que os americanos colocam no quesito liberdade; se as pessoas podem carregar armas em qualquer lugar, faz sentido que a banana em questão possa ser consumida onde e quando o cliente quiser. Pode ser que não tenha nada a ver, mas que faz sentido, isso faz.

Voltando à questão dos americanos falarem alto e serem o centro das atenções, me pergunto se isso não teria algo a ver com o entretenimento que eles têm. Fui prestigiar o time de basquete de Orlando, minha primeira partida do esporte ao vivo e em cores, e como tem cores! E como tem barulho! É animação o tempo inteiro, dança das cheerleaders, dança do mascote, kiss cam, dance of the awkward dad (dança do pai esquisito), é música alta, é narração mais alta ainda, são os painéis piscando propaganda, pontuação do jogo, replay das melhores jogadas. Gente, é uma sobrecarga sensorial! Foi divertíssimo, achei o máximo, mas saí de lá com dor de cabeça. E olha que tem gente que leva bebê e criança pequena, o que é uma delícia porque se torna um passeio de família, mas para quem não está acostumado... ou então eu estou ficando velha mesmo, e as pessoas podem realmente me chamar de ma’am (damn!). Enfim, me pergunto se todo esse barulho, esse foco no entretenimento, faz com que as pessoas fiquem barulhentas e com essa necessidade de estarem no centro de tudo. Não sou psicanalista ou antropóloga, apenas uma observadora nata.

 

A verdade é que sinto uma baita curiosidade com relação aos americanos, mesmo com os meus sentimentos ambíguos, e toda vez que a empresa me manda para os Estados Unidos eu vou com um sorriso no rosto mesmo com todo o jetlag que eu preciso passar. Não gosto de tudo, mas procuro manter minha cabeça aberta, e não posso evitar de fazer algumas observações (sintam-se livres para discordar). Minhas últimas palavras seriam apenas para dizer: America, you are ALWAYS great.


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