Jane Austen: mãe do chick lit?

Teorias que abordam Jane Austen como a ancestral primeira do gênero chick lit – romances de ficção feminina, de caráter leve e divertido – não são novas. Há tempos que pergunta-se no meio literário se a famosa escritora inglesa, autora de Orgulho e Preconceito, Senso e Sensibilidade, dentre outros, seria a inspiração para autoras de literatura feminina da geração atual como Helen Fieldling, a escritora que criou a infame Bridget Jones.

 

Não é segredo que Helen tomou emprestado as características e até o nome do personagem Mark Darcy para compor o par romântico de Bridget, também ele um homem sério, complicado, às vezes até considerado um tremendo babaca. Os paralelos com Orgulho e Preconceito não terminam aí, entretanto. Ambas as protagonistas incorporam personalidades que vão de encontro ao que é esperado de moças em seus respectivos tempos: Elizabeth Bennet é apenas moderadamente bonita, não sabe cantar, tocar piano, falar diversos idiomas. Bridget Jones é solteira, bebe, fuma, não arranja namorado firme. Ambas encontram-se perdidas em meio a sociedades que esperam mais do que elas podem dar. São esses os paralelos que dividem o meio literário: seria Jane Austen ¨apenas¨ uma autora de chick lit de sua época? Ou pertenceria Jane Austen ao nível de cânone literário?

 

Não é só a opinião de acadêmicos de hoje em dia que divergem: enquanto alguns enaltecem a autora inglesa, o renomado escritor americano Mark Twain tinha verdadeira ojeriza com a escrita de Austen. Em uma carta de 1898, Mark Twain escreveu:

 

¨Toda vez que eu leio 'Orgulho e Preconceito' eu quero desenterrá-la (Jane Austen) e batê-la sobre o crânio com seu próprio osso de canela¨.

 

Ouch.

 

Tudo bem que os livros de Jane Austen são voltados para o público feminino, chick lit ou não, e portanto não me surpreende que um leitor masculino não consiga ler as páginas repletas de diálogos sobre a compatibilidade de fulano ou cicrano para casar-se, se o pretendente é agreeable (juro que nunca vi uma repetição tão grande dessa palavra como nos livros de Austen). Realmente, lendo quaisquer dos livros de Ms. Austen de maneira superficial, vê-se praticamente os mesmos dilemas de Bridget Jones, transportados para o final do século XVIII: moça empobrecida procura marido, questiona certos comportamentos de sua época, e casa-se com homem rico no final. Vendo por esse ângulo, fica difícil ver por que Jane Austen é considerada uma autora clássica, suas obras dignas de serem estudadas em universidades.

 

Um olhar mais profundo em suas obras mostra um lado que vai além da trama básica que seus livros apresentam: suas obras abordam não somente o lado romântico, o encontro entre almas, mas delineam leves críticas à condição submissa da mulher de duzentos anos atrás. As personagens principais de Senso e Sensibilidade, Elinor e Marianne, são nobres que precisam deixar a casa confortável onde nasceram e cresceram, pois a morte do pai significava que a propriedade passaria para as mãos do irmão mais velho, filho do casamento anterior. Em Orgulho e Preconceito, Elizabeth Bennet recusa-se a aceitar a proposta de casamento do repugnante Mr. Collins, mesmo que a condição de sua família pedisse que ela, já um pouco mais velha, finalmente achasse um bom marido. As personagens buscam amor, não conveniência, riqueza ou poder. Não seriam essas atitudes revolucionárias para a época? Enquanto isso, a história de Bridget Jones não passa de uma pobre imitação de dilemas que já foram resolvidos há muito tempo para a mulher, e mesmo assim a personagem age numa sequência de bebedeiras, transas e conflitos adolescentes. É uma história divertida que arranca boas risadas, mas não pode ser comparada às obras de Jane Austen.

 

Fora que a própria Jane Austen, solteirona e portanto não seguindo o protocolo social da época, quebrou a tradição literária simplesmente por ser mulher. Talvez comentários maldosos como os de Mark Twain tenham raízes na história machista que a literatura tem; por que, afinal, uma mulher não poderia escrever sobre amor e mesmo assim ser respeitada? Não seriam temas como amor, casamento, família e tradições dignos o suficiente para construir uma história de peso na literatura? Eu penso que são assuntos mais que importantes, e o fato de serem mais interessantes para mulheres não deveria diminuir sua relevância.

 

Quanto à pergunta se Jane Austen é a pioneira do chick lit ou um cânone da literatura, pergunto-me: por que ela não pode ser ambas as coisas? Mesmo o chick lit sendo um gênero leve, de apelo predominantemente feminino, isso não quer dizer que algumas obras desse gênero não possam ser consideradas excepcionais. Minha conclusão é que Jane Austen, mãe do chick lit e abordando temas sensíveis merece um lugar de destaque na literatura mundial.

 


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