Macho que é macho não tem medo de ser feminista

Nunca fui daquelas de comemorar – ou até lembrar-se – do Dia Internacional da Mulher. De alguma forma, sempre era pega de surpresa, perguntando-me por que precisamos de um dia para nos lembrarmos da importância da mulher, do feminismo, da necessidade da igualdade de gênero. Não deveria ser esse tema pauta de uma batalha de todos os dias?

 

Este 8 de março e seus dias seguintes foram, entretanto, inusitados. Não só fomos bombardeados com inúmeros exemplos de mulheres sensacionais na ciência, literatura, direitos humanos, e outros campos, assim com o completo oposto que infelizmente ainda existe, como a subjugação da mulher no Islã. Fomos lembradas como sempre que, apesar de certos avanços e prova definitiva que o intelecto da mulher não deixa nada a dever para o homem, que ainda não conquistamos a tal almejada igualdade.

Demonstrações não faltaram: enquanto o primeiro-ministro canadense, Justin Trudeau, conclama o feminismo e a luta pela igualdade entre homens e mulheres um dos pontos de sua agenda política, fomos confrontados com a ignorância do nosso presidente Michel Temer, que impôs às mulheres o papel submisso de dona de casa. Para ele e tantos outros, a mulher tem que ser bela, recatada e do lar.


Não só no Brasil que fomos obrigadas a engolir esse sapo; apenas alguns dias antes do nosso dia, escutamos um representante polonês no Parlamento Europeu dizer que a mulher é intelectualmente inferior ao homem. Isso mesmo; tal frase foi dita em alto e bom som em solo europeu em pleno século XXI.

Entretanto, não foram esses discursos políticos que me fizeram escrever esse artigo. A minha motivação veio através de um post de um grupo de mulheres expatriadas em Munique no Facebook, no qual uma mãe mostra o dever de casa de sua filha da aula de religião. A tarefa? Copiar o seguinte texto:

 

Nosso Pai no céu é Deus.

 

Nosso pai (o pai ¨humano¨) faz muito por nós: ele cuida de nós, ele brinca conosco, nos sustenta.

 

Nossa mãe também cuida de nós: ela faz as compras, cozinha, nos presenteia, brinca conosco, limpa e lava.  

 

 

 

Essa tarefa foi dada em uma escola da Alemanha. Primeiro mundo! Pasmem.

 

Eu me pergunto – assim como as outras mães desse grupo – como o sistema pode continuar perpetuando uma mentalidade antiga, desatualizada e plenamente desigual. A questão de que o papel da mulher, nesse caso provavelmente associado ao que Deus concebeu e portanto inquestionável, é ainda mais difícil de engolir. Não deveria a aula de religião – seja lá qual for – pregar amor, respeito, justiça?

 

Essa mentalidade é onde tudo começa. É quando a menina já se vê no papel de mãe e dona-de-casa, e o homem como o provedor da casa. É quando os papéis que Deus destinou a meninos e meninas começam a solidificar em suas cabeças, mesmo que inconscientemente perpetuando que homens e mulheres estejam presos às convenções, aos papéis que lhe foram destinados pela mão divina e pela sociedade.

 

Basta! Não adianta sermos apenas lembradas dos feitos de Marie Curie, Agatha Christie ou Anita Garibaldi. Não adianta se nos Estados Unidos 53% do eleitorado de Donald Trump é feminino, mesmo que ele se orgulhe de agarrar pela buceta (o infame grab by the pussy). Não adianta sabermos que mulheres já produzem metade da ciência no Brasil. Nada adianta, se governos e empresas acham que mulheres grávidas e mães são um estorvo – não me admira que a população na Alemanha continua estagnada, exceto pela entrada dos refugiados (o governo quer que mulheres tenham mais filhos, mas não fazem NADA para facilitar carreira e filhos como vagas suficientes em creches até o horário de funcionamento absurdo de quatro da tarde).

 

Nada disso adianta, se meninos e meninas aprendem desde pequenos que eles têm um papel a cumprir na vida ditado por Deus e pelas convenções, e vêem essa divisão de trabalho em casa – mamãe cuida da casa e das crianças, papai trabalha o dia inteiro e sustenta a família.

 

Quando vamos enxergar que feminismo nada mais é que a luta pelo direito de igualdade? Que é libertação das convenções? Que é dar liberdade para a mulher decidir se quer fazer carreira ou ser dona-de-casa, para ter plenos direitos com o seu corpo, de poder ir e vir sem constante abuso? Que óbvias diferenças físicas não signifiquem desigualdade.

 

Como disse Trudeau, homens também precisam ser feministas. Isso não significa somente ensinar e motivar meninas a conquistar o que quiserem, como incutir na cabeça dos meninos que eles devem não só respeitar meninas, mas vê-las com igualdade. Essa mudança começa nos primeiros anos de vida – na escola e em casa. Os meninos precisam ver suas mães trabalhando, seus pais lavando a louça ou varrendo a casa, na escola aprender que meninos e meninas devem ser tratados igualmente, que os papéis de outrora já mais se aplicam. A  mudança está nas mãos de nós – pais e mães – assim como de educadores.

Deixo por fim a imagem que fez meu coração ter esperança: hoje meu filho de três anos quis me ¨ajudar¨ a limpar a casa. É claro que deixei, mesmo que ele só faça mais bagunça, porque desde cedo ele precisa entender que também meninos e homens são responsáveis pela limpeza da casa. São pequenos passos numa revolução silenciosa, mas que, quem sabe, dará frutos no futuro.

 

Feliz dia da mulher atrasado!



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