Pequenas sabedorias brasileiras que podemos ensinar

Muitos de nós brasileiros à vezes nos deixamos levar por uma síndrome de vira-lata, aquele mesmo complexo de inferioridade incutido nas nossas mentes desde pequenos no qual tudo que vem do exterior é melhor que no Brasil. Mesmo que nossa atual situação política e econômica não ajudem na nossa auto-estima, posso garantir que existem certas brasileirices que podemos ensinar aos estrangeiros – principalmente aos alemães.

 

Criatividade

Vivendo em terras germânicas há doze anos, uma das coisas brasileiras que mais se destacam é a criatividade. Não estou falando de criatividade artística, mas aquela capacidade de pensar além da caixinha, de procurar soluções inesperadas. Minha experiência na Alemanha me fez ver como muitos dos nativos se prendem às soluções de carteirinha, fazem o seu trabalho da mesma forma porque sempre foi feito assim. O mundo corporativo é refém de uma cascata de processos, e é interessante ver como os alemães se apegam aos diagramas e soluções de praxe. Não que seja sempre assim, mas existe um padrão  de comportamento tão forte de seguir as regras que sair desse mundinho pré-configurado é difícil.

 

O brasileiro, em contrapartida, cresce em um ambiente onde o jeitinho tem grande poder. Não que o tal jeitinho brasileiro seja sempre bom (nós pecamos pelo exagero!), mas a minha conclusão é que nós estamos geralmente mais abertos a soluções alternativas. Somos artistas da sobrevivência, e nossa criatividade para criar e resolver problemas é algo distinto que podemos usar não só em nosso benefício, como ajudar nossos amigos e colegas para pensarem além dos diagramas e processos com os quais estão tão acostumados.

 

Perspectiva

Há muito tempo atrás, duas colegas de trabalho reclamavam do absurdo que era a greve de transporte em Munique, que parou metrôs, ônibus e afins em toda a cidade por vinte e quatro horas. Eu observava apenas, até que não aguentei mais a ladainha de reclamações: contei que, ainda morando em Salvador, vivi uma greve de policiais por quatro dias. Eu e minha família ficamos encarcerados em casa, e víamos saques e selvageria no noticiário. Foi o suficiente para as duas calarem a boca e ganharem um pouco de perspectiva.

 

A Alemanha é um país seguro em todos os sentidos: economia, segurança e política; ou seja, não existe essa ¨excitação¨  de países mais conturbados como o Brasil. Isso significa que a população alemã, mesmo sem perceber, começa a ver problema onde não existe. Quem mora por aqui sabe como muitos dos alemães são cri-cri; desde críticas incessantes no trabalho por detalhes irrelevantes até atrasos no transporte público de apenas cinco minutos. Nossa perspectiva pode dar a eles um bom exemplo de que nem tudo na vida tem que ser motivo de reclamação.

 

Solidariedade

Talvez esse ponto seja um pouco mais controverso, mas minhas experiências no Brasil e na Alemanha me dão bons exemplos de como o brasileiro pode ensinar solidariedade. Quando estive em Salvador há alguns anos atrás, loucamente tentando mover um carrinho de bebê pelas ruas esburacadas da cidade (idéia de jerico), um senhor me ajudou a chegar ao meu destino por pura solidariedade. Eu procuro imaginar essa cena acontecendo na Alemanha e... simplesmente não consigo.

 

O que vejo por aqui tem mais a ver com o individualismo. São raros os que cedem o assento à uma grávida ou idoso (tanto que existe uma campanha da empresa de transporte de Munique para que esse comportamento mude), que te ajudam com uma mala pesada, que ajudam uma idosa com problemas de locomoção a atravessar a rua (acredite, outro dia  vi dois rapazes atravessando a rua ao mesmo tempo que uma senhora quase caía no chão, e eles não fizeram NADA!). Na Alemanha, é cada um por si.

 

Já tive momentos que quase me alemanizei nesse aspecto, até que meu coração brasileiro foi mais forte. No caso da velhinha, mandei meu marido estacionar o carro e a levei em casa. Ao invés de ficarmos tentados a esquecer essa qualidade, que possamos ensinar que um pouco de solidariedade no dia-a-dia faz a nossa vida mais bonita.

 

Tolerância cultural

O Brasil já nasceu miscigenado, somos um país de imigrantes e temos muito orgulho disso. Os brasileiros sabem absorver novas culturas, ao mesmo tempo que dão liberdade de costumes e credo a quem quer que seja. É claro que nem tudo são flores; ainda existe muito racismo por aí (a discussão sobre apropriação cultural revela justamente esse lado), mas no geral vemos culturas e religiões vivendo lado a lado.

 

Enquanto isso na Europa, o continente vive um período bastante atribulado por causa, justamente, da imigração. Isso porque absorver imigrantes – seja lá de onde eles venham – significa perder um pouco da identidade cultural do país. Para os europeus, esse é um ponto negativo, mas para os brasileiros? Multiculturalismo é um dos pilares de nossa identidade, e vemos como isso traz coisas positivas também como a convivência pacífica entre pessoas de cores, credos e culturas diferentes. Essa tolerância cultural na qual somos mais experientes é algo que podemos ensinar por aí.

 

Calor humano

E é também no quesito calor humano que tiramos nota dez! Não é só na Alemanha que muitos de nós sofremos com a reserva exagerada (que às vezes chamamos de frieza) dos nativos, e isso nos faz ficar um pouco mais reservados também. Não mais damos dois beijinhos, e sim um aperto de mão. Aos poucos nos adaptamos à cultura local, mas isso não quer dizer que devamos perder nossa alegria inerente, nosso bom humor, nosso calor humano.

 

Sigo o bom exemplo de uma amiga que estava cuidando de meu filho há algum tempo atrás que, ao invés de apertar a mão de meu marido como de praxe, deu-lhe um abraço. Meu marido foi pego de surpresa, mas foi uma surpresa boa. A justificativa de minha amiga foi simplesmente de não se deixar levar pela formalidade exagerada, e seguir mais o coração.

 

É claro que tal atitude não pode ser aplicada com qualquer pessoa ou situação (no mundo corporativo, nem pensar!), mas o ponto é: não deixe seu calor humano esfriar com o inverno ou com a reserva das pessoas. Essa alegria nossa é algo especial que não pode esmorecer!

 


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