Pequenas sabedorias alemãs que podemos aprender

Viver no exterior nos faz passar por várias fases de integração: primeiro admiramos a beleza das artes, da arquitetura, das cidades; passamos então pela fase de que nada, absolutamente, nos agrada; até que finalmente aceitamos novos hábitos e nos deixamos influenciar por eles. Aqui na Alemanha não seria diferente, e depois de algum tempo percebemos que existem muitas coisas que nós podemos aprender com o povo que nos acolheu.

 

Mesmo não sendo particularmente conhecida como uma terra de sábios, a Alemanha traz pequenas sabedorias que podem descomplicar nossa vida.

 

Simplicidade e pragmatismo

Seja em aniversários de criança, seja no pouco uso de maquiagem ou balangandãs, o alemão é pragmático e simples no seu dia-a-dia. Ostentação não combina com o jeito alemão de ver o mundo, e não há uma cultura de gastar mundos e fundos com coisas fúteis. No que o alemão investe? Em viagens, bons restaurantes, concertos, roupas adequadas para escalar montanhas. Enfim, por mais que alguns gostem de esbanjar em BMWs ou outros bens materiais, muitos por aqui preferem investir em experiências e coisas simples.

 

Falar diretamente

Ao contrário do Brasil, onde damos voltas e voltas para dizer que algo não nos agrada, o alemão não tem papas na língua quando o assunto é dar opinião. É um povo que não mede palavras para dizer o que pensa de forma tal que nos faz sentir constrangidos, às vezes nos fazendo pensar que os alemães são extremamente rudes. Se são grossos ou não, na grande maioria das vezes não é a intenção dos germânicos; apenas vai de encontro ao que estamos acostumados.

 

Lidar com essa honestidade exagerada pode ser difícil para nós, entretanto aos poucos vemos que ser direto nos poupa tempo e trabalho, e com o passar dos anos (!) nós aprendemos que o melhor mesmo é não levar para o lado pessoal.

 

Curtir e proteger a natureza

Os alemães têm um caso de amor com a natureza: adoram caminhadas, respeitam e protegem o meio ambiente. Nesse lindo país não faltam opções para curtir a natureza, desde escalar montanhas até tomar banhos nos lagos de águas cristalinas ao pé dos Alpes. Aqui se pratica reciclagem quase como um ritual religioso, anda-se de bicicleta, pode-se escolher o tipo de energia elétrica que se usa em casa. Os alemães ensinam que crescimento econômico não necessariamente deve ferir os recursos naturais. Que sirva de inspiração para o mundo inteiro!

 

Faça você mesmo

No Brasil estamos acostumados a ter sempre alguém que faça o trabalho pesado em nosso nome: carpinteiros, empregadas domésticas, babás. Na Alemanha, no entanto, não só esses serviços são caros e portanto reservados às classes mais altas, como se dá grande valor ao ¨faça você mesmo¨. Nesse país, nós montamos nossos móveis, furamos paredes, cuidamos do jardim, lavamos o banheiro e cuidamos das crianças (claro que, se pai e mãe trabalham, a criança fica na creche, jardim de infância ou escola durante o dia). Conclusão: mordomia zero! Para quem ainda acha que quem vive na Europa está com a vida ganha, pense novamente.

 

Pontualidade

Apesar dos alemães estarem um pouco mais tolerantes a atrasos (talvez devido à internacionalização das cidades), pontualidade ainda é um dos pilares da cultura germânica. Diferentemente de nós que, quando marcamos para determinado horário chegamos com pelo menos meia hora de antecedência, os alemães dão grande valor à pontualidade. Ser impontual equivale a falta de respeito. Portanto, integrar-se à cultura alemã significa repensar esse conceito, e começar a ser escravo do relógio.

 

Planejar com antecedência

Se às vezes achamos que os alemães são obcecados com planejamento e organização, pense novamente. Planejar com antecedência tem um motivo muito forte: se planejamos mais e melhor, perdemos menos tempo tentando resolver certos pepinos. Numa viagem, por exemplo, ao invés de perder tempo tentando marcar um tour em cima da hora e se decepcionar quando não há mais vaga, siga o exemplo dos alemães e marque com antecedência. As horas ¨perdidas¨ com planejamento vão valer a pena!

 

Desejo de viajar e explorar: Wanderlust

Não é à toa que a palavra internacionalmente usada Wanderlust tem origem alemã. ¨Wander¨ vem do verbo ¨wandern¨ que significa explorar, caminhar; ¨Lust¨ significa vontade, desejo. O desejo de explorar, de viajar é muito intrínseco à cultura alemã. Se os alemães são no geral um pouco mão-de-vaca para coisas consideradas fúteis, isso não se aplica às viagens. Os alemães exploram diferentes continentes, têm desejo pelo exótico, pelo diferente. Querem sair da rotina, e mergulhar em outros ambientes e culturas. Não só eles exploram durante suas férias; quantas vezes vemos trens lotados de montanhistas e esquiadores? Descobrir novos lugares é com os alemães mesmo!

 

Apreciar a beleza de todas as estações

Na Alemanha não existe tempo ruim, existem roupas inapropriadas. É nesse espírito que os alemães se aventuram em florestas, montanhas e parques independentemente da estação e do tempo. Apesar de às vezes reclamarem do calor no verão ou do excesso de neve no inverno (nós sabemos como é difícil agradar um alemão!), convenhamos que estamos lidando com os mestres em apreciar as quatro estações. Enquanto muitos de nós desejam hibernar durante o inverno, os alemães fazem questão de sair de casa, nem que seja só para pegar ar puro.

 


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Comments: 8
  • #1

    Jair Cordeiro Lopes (Saturday, 25 February 2017 11:11)

    Pois é, Manuela,
    Isso é honestidade. Esse reconhecimento que, embora, outras culturas, outros costumes e histórias diferentes, há coisas boas onde quer estejamos. Por motivos profissionais, vivi na Bolívia durante algum tempo e, não país mais "diferente" no modus vivendi que qualquer outra nação deste Planeta. Com o devido tempo, no entanto, a gente passa a perceber tantas coisas boas que, no início, passaram batidas, porque nos faltou boa vontade de olhar com acurácia. Sinceramente, hoje sempre que alguém fala (sem conhecer, é claro), mal daquele país, tenho um monte de argumentos para refutar. Parabéns pelo belo post, JAIR.

  • #2

    gloria obermark (Monday, 27 February 2017 18:18)

    Não chegamos com antecedência, mas com atraso.

  • #3

    A.L. Fonseca Matos (Thursday, 11 May 2017 19:41)

    Concordo contudo, apesar de nunca ter vivido na Alemanha. Moro "do lado" e as culturas são muito semelhantes. Ambos, holandeses e alemães gostam também de dar sermão e dizer como as coisas devem ser feitas, como se o jeito deles fosse o único e correto e o resto do planeta tivesse tudo a aprender com eles.

  • #4

    Orlando (Friday, 09 June 2017 13:32)

    A autora soteropolitana (soter = salvador; protetor + polis = cidade; sociedade), mesmo com boa intenção, errou em querer comparar culturas distintas sem considerar os contextos históricos, sociais e culturais próprios de cada nação e seu povo, por fim, mais demonstrou o famoso “complexo de cachorro vira-lata”, infelizmente típico de muitos brasileiros. Diversos alemães vêm para o Brasil em virtude das incontáveis coisas boas do nosso país, assim como muitos brasileiros vão para a Alemanha pelas maravilhas daquele país, uma simbiose que gera transmutações sociais, culturais e humanas, dentre outras.
    A autora intitulou o seu texto como “Pequenas sabedorias alemães que podemos aprender”... “Pequenas”, onde? “Justificando” o erro do título a autora incorreu, mesmo sem saber, no desrespeito à germanidade principalmente ao afirmar no segundo parágrafo parágrafo, provavelmente tentando indiretamente enaltecer uma certa superioridade nacional para ultrapassar esse complexo “vira-latístico”, que “Mesmo não sendo particularmente conhecida como uma terra de sábios, a Alemanha [...]”, ou seja, lamentavelmente diminuiu a terra que ofereceu ao mundo grandes expoentes da humanidade, verdadeiros gênios e sábios como Kepler; Kant; Einstein; Von Braun; Kirscher; Lutero; Carl Bosch; Marx; Oberth; Heisenberg; Planck; Bohrn; Beethoven (no Brasil seria uma dupla sertaneja: Be & Thoven); Brecht; Goethe; Döblin; Thomas Mann; Heidegeer, o grande autor de “Ser e tempo”, apesar deste ter sido o filósofo do nazismo; Von Marthius; um dos mais importantes antropólogos e pesquisadores que estudaram o Brasil no século XIX; Simon Mayer, quem de fato descobriu antes de Galileo os principais satélites naturais (luas) de Júpiter e denominando-os de Ganimedes, Calisto, Io e Europa... Só citando alguns dos expoentes alemães numa lista infindável de cientistas, filósofos, artistas, escritores, dramaturgos, empreendedores, inventores, líderes mundiais e de tantas outras áreas. Não escrevi aquele texto, mas como brasileiro peço escusas ao povo alemão pelo título do texto e daquele parágrafo em questão, pois de fato àquela é uma nação reconhecida pela grande Sabedoria e Genialidade, assim como o Brasil igualmente possui seus Gênios e Sábios. Muito bem escreveu e harmoniosamente cantou o sábio soteropolitano Caetano Veloso, em “Língua”: “Está provado que só é possível filosofar em alemão.” (https://www.vagalume.com.br/caetano-veloso/lingua.html)

    Em suma, Alemanha e Brasil, assim como outras nações e seus povos, são belas, maravilhosas e podem – e devem! – mutuamente se complementar por meio de tudo de bom que existe pela essência humana de seus respectivos cidadãos.
    Auf Wiedersehen

  • #5

    Alexandre (Thursday, 15 June 2017 01:48)

    Gostei da postagem. Todo povo tem suas sabedorias. Particularmente sou muito admirador de certas peculiaridades da cultura alemã. Sempre vale a pena aprender coisas novas e quebrar certos paradigmas.

  • #6

    Cati (Friday, 16 June 2017 23:10)

    Alemão paga suas contas em dia é não faz prestação. Comprar à prazo é coisa de asocial

  • #7

    Astrid K B (Saturday, 17 June 2017 12:14)

    Maravilhoso, profundo e sábio seu comentário, Orlando!!!!! O artigo original revela uma vivência do " aqui e agora" mas peca pela falta de profundidade e Cultura histórica. A Alemanha é conhecida por seus sábios nas mais variadas áreas do conhecimento.

  • #8

    Baiana da Baviera (Saturday, 17 June 2017 17:55)

    Obrigada a todos que comentaram. Para os que esperavam que o artigo tivesse um viés voltado para a filosofia: não é esse o propósito desse artigo, nem minha intenção. A ideia foi, simplesmente, fazer uma coletânea de costumes que eu pessoalmente acho interessantes, e agreguei à minha vida pessoal. Talvez a expectativa seja oriunda do termo ¨sabedorias¨. Mesmo reconhecendo que o termo possa ser aplicado ao ângulo de filosofia ou história que alguns esperavam (e que, novamente, nunca foi o objetivo do texto), me utilizo da ¨licença poética¨ de escritora para fazer uso da palavra. Por isso, coloquei justamente ¨pequenas sabedorias¨ - algo que se encaixa no aqui e agora, nos detalhes da vida cotidiana - e não em uma análise histórica / filosófica. Sinceramente, não acho relevante nesse texto - e portanto não o fiz.

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