O segredo de Creta

Mundialmente conhecida pelas ruínas de Knossos, centro cerimonial e político-cultural da Civilização Minoica ao redor da capital Heraklion, Creta atrai milhares de turistas com ruínas históricas, cidades pitorescas como Rethymno e praias de tirar o fôlego como Elafonissi. Uma ilha de imenso atrativo turístico natural e histórico, Creta conta com uma carta extra no baralho, algo inusitado e diferente das típicas ruínas gregas.

 

Estamos falando da pequena ilha de Spinalonga, acessível através das cidades cretenses Agios Nikolaus, Elounda e Plaka. Abandonada desde os anos 50 e hoje um sítio arqueológico, Spinalonga foi uma colônia de leprosos entre 1903 e 1957.

 

Entre praias e história

Num dia quente fomos a Agios Nikolaus, uma charmosa cidade com mar cristalino e de onde podemos ver a façada de Spinalonga (oficialmente chamada de Kalydon) ao longe. É uma ilhota com um forte veneziano bem à vista, mas de longe não achamos que houvesse algo interessante para ver. Enquanto tomávamos um sorvete em Agios Nikolaus, eu e meu marido estávamos divididos entre ir à praia ou tomar o barco na marina em direção à ilha fantasma.

 

Passeando pelas ruas de Agios Nikolaus, comprei um livro chamado The Island (A Ilha; não confundir com o filme de Leonardo DiCaprio), de Victoria Hislop. Foi esse livro, escrito em 2005, que ressucitou interesse e criou fama para a história repleta de reveses de Spinalonga. A obra de ficção usa a colônia de leprosos durante a segunda guerra mundial como pano de fundo para uma história de sacrifícios e perdas, amor e preconceito a uma doença que aos poucos desfigura e destrói vidas.

 

Ao ler as primeiras páginas do livro, meu interesse acendeu-se. Fomos à marina e tomamos o primeiro barco até Spinalonga.

 

Tão perto, e ao mesmo tempo tão longe

Rodeada por um mar azul, procurei imaginar ainda no barco como os antigos moradores de Spinalonga deveriam se sentir ao olhar para a grande ilha. Mesmo com apenas alguns metros de distância que poderiam ser facilmente conquistados a nado, a distância nesse caso não poderia ser medida em metros ou quilômetros. Essa era mais que distância; era distanciamento. Não era só de ordem física, era emocional.

 

Vemos a paisagem da ilhota, rochosa e seca, com algumas moitas que teimam em crescer apesar do clima semi-árido. Aos poucos vemos as paredes ao redor dessa ilhota-forte tomando forma, praticamente da mesma cor que a rocha, e percebemos a complexidade da construção de Spinalonga. Não são apenas algumas colunas em pé, alguns blocos caídos no chão como as tradicionais ruínas gregas. Não. Nos deparamos com grandes muralhas que envolvem toda a ilha. Mesmo construída antes mesmo da ilha ser usada como colônia de leprosos, o forte de Spinalonga já nos dá a impressão de que a ilha estava destinada a se tornar uma pequena prisão ao ar livre.

 

Além das aparências

Ao desembarcarmos o sentimento de opressão foi diminuindo. Passamos por um portão, onde no romance de Victoria Hislop os leprosos podiam ver familiares que lhes faziam visitas a certa distância. Atravessamos o portão, e lá nos deparamos com casas e edifícios de certa qualidade arquitetônica, onde notamos que lá também havia uma certa hierarquia  entre os moradores. Entre flores e túneis, ruas e ladeiras, vemos lindas casas de pedra como num vilarejo comum.

 

Não nos enganemos com as aparências, disse a guia turística com um pequeno guarda-sol. Apesar dos pacientes de Spinalonga receberem uma espécie de aposentadoria mensal, a quantia geralmente não era suficiente para cobrir custos com comida e remédios. Eram tempos cruéis, afinal; a Grécia ainda se reerguia de múltiplas guerras (duas guerras nos Bálcãs, uma guerra mundial, uma guerra civil), piorando as condições dos leprosos na ilhota. Foi apenas na década de 30 que as coisas começaram a mudar graças a  Epameinondas Remoundakis, um estudante de direito que viu sua vida tornar-se refém da lepra.

 

Foi através desse jovem que a decadência de Spinalonga teve uma reviravolta: a construção de uma estrada na ilha, um teatro e um cinema, pequenos estabelecimentos como barbearias e cafés foram abertos, a igreja de St Panteleimon recebia fiéis. Pessoas apaixonavam-se e casavam-se em Spinalonga e, independentemente da doença, tinham filhos. Muitos deles cresceram saudáveis na ilha dos leprosos.

 

Com a cura da lepra sendo descoberta em 1948, o número de leprosos foi gradualmente diminuindo, até que em 1957 os últimos vinte pacientes foram transferidos para Atenas. Muitos recuperaram-se e retornam às suas casas, abandonando a ilha de Spinalonga para sempre.

 

Com ruínas das casas, barbearias, igrejas, cinema e teatro, Spinalonga é um símbolo de resistência humana, de luta constante, de vitórias quando o fracasso era iminente. Vale a pena ver as paredes que abrigaram lágrimas, dor e alegrias, e nos lembrar que a Grécia é palco de um povo lutador, resistente e cheio de vida.

 

Valeu a pena trocar a praia por um dia para ver e sentir Spinalonga de perto.

 


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Comments: 1
  • #1

    Jair Cordeiro Lopes (Wednesday, 22 February 2017 15:54)

    Manuela,
    Viajei pela Grécia, conheci algumas ilhas, principalmente Santorini, onde permaneci por mais de uma semana. O tempo todo me ocorria que aquele solo está impregnado de história. História que influenciou nossa civilização ocidental além do que se imagina.
    Você deve ter sentido algo parecido ao visitar Spinalonga, percebe-se pelo teu belo texto. A Grécia sempre vai nos atrair e sempre terá histórias a nos contar.

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