Pelos caminhos oblíquos de palavras e histórias

Escrever e ler, dois verbos que sempre estiveram de mãos dadas, companheiros de momentos solitários e silenciosos. Através da escrita que consigo melhor me expressar, dividir idéias, criar histórias. E foi essa vontade, para não dizer um certo talento, que me embutiram da ambição de me tornar escritora.

 

Quando ainda estava no colegial, lembro-me com clareza e felicidade do momento em que o professor de literatura – um homem inteligentíssimo porém um tanto ríspido, impaciente – leu minha redação para a turma, e ao final revelou não só quem a escreveu, mas que tinha sido uma excelente composição, um exemplo a ser seguido pelos meus colegas. Estes me olhavam com uma mistura de inveja e admiração. Aquele momento se tornou o pontapé para que eu sonhasse em ser jornalista. Para que eu pudesse colocar meu talento para escrever em algo interessante, importante, criativo. Nunca tinha pensado em ser jornalista – na verdade, ainda não tinha idéia para que profissão eu prestaria vestibular – então foi naquele momento que eu disse a mim mesma: pronto, é isso!

 

Então, fiz vestibular e passei. Cursei um ano de jornalismo, e meu coração não estava lá. Achava as matérias e textos cheios de palavras difíceis uma perda de tempo, com teorias de comunicação, filosofia e sociologia que não me diziam nada. O tal conceito de ¨o meio e a mensagem¨ que os professores faziam tanta questão de embutir em minha cabeça, não me empolgavam. Meus colegas se promoviam como comunistas de plantão, colocando Lula e companhia num pedestal de ouro. Os professores não se dignavam a aparecer e, quando apareciam, explicavam as tais teorias com má vontade. Talvez nem eles entendessem direito o que estavam falando. Depois de meses para me deixar conquistar pela nobre arte do jornalismo, eu joguei a toalha. Não me via naquele meio, não me enxergava como jornalista. Nem como escritora.

 

Resolvi prestar vestibular novamente, dessa vez para administração de empresas. Passei e, por anos a fio, me encontrei nessa profissão pragmática. Ainda na universidade, trabalhei para um hospital como estagiária em recursos humanos e gerenciamento de processos, investi meu tempo na AIESEC, uma organização estudantil que promove intercâmbios, assim como trabalhei para uma das maiores empresas de auditoria do mundo. Nesse meio tempo, descobri que o mundo dos números, das análises, dos processos, dos relatórios não eram para mim. Minha alma pedia criatividade, palavras e frases. Histórias.

 

Através da AIESEC fiz um intercâmbio para a Alemanha, me aventurando na área de marketing. Na verdade, eu não tinha muita idéia de como essa área funcionava, mas me parecia muito mais interessante que contabilidade. Mergulhei de cabeça, e ainda como trainee estruturei o departamento de marketing da empresa, uma start-up na época. Aos poucos fui entendendo melhor como comunicação corporativa funciona, como se cria a identidade de uma empresa, como se lida com jornalistas, como se cria uma estrutura de comunicação, de campanhas, de mensagens que queremos transmitir para clientes, investidores, empregados. Me senti empolgada por alguns anos, sem nem parar para pensar que, mesmo indiretamente, tinha retornado para a área que havia abandonado há alguns atrás. Tinha virado jornalista corporativa sem saber.

 

Até que, eventualmente, nós precisamos de novos desafios. Mesmo continuando na área de marketing, minha cabeça não parava de pensar em histórias, mas nada que me agradasse a ponto de sentar e escrever alguma coisa. Me consolava com maravilhosos livros, e me deixava levar por histórias das mais variadas, mas no fundo o que eu queria mesmo era produzir uma obra que me fizesse sentir daquela mesma forma que meu livros favoritos. Eu queria escrever, mas não sabia sobre o quê. Então eu lia, e lia, e lia ainda mais, à procura de inspiração e de consolo por uma vontade que ficava só na vontade mesmo.

 

Então numa noite qualquer, tive uma idéia. Acordei de madrugada, escrevi num papel para não esquecer. Talvez seja uma daquelas idéias idiotas, pensei, mas vejo com calma amanhã. Quando amanheceu, li a idéia novamente, e me convenci de que estava no caminho certo. Finalmente!

 

Se não era mais as idéias que me faltavam, era a falta de tempo o maior empecilho para escrever. Voltei a trabalhar depois da licença maternidade, e de repente me vi mendigando tempo, uns trinta minutos aqui, uma horinha acolá, naquela contínua acrobacia para conciliar trabalho, casa, marido, filho, e você mesma. Aos pouquinhos, ou melhor, aos trancos e barrancos, escrevi. Tirei dois meses de férias não remuneradas do trabalho, e terminei de escrever meu primeiro romance. Demorei dois anos e meio nesse jornada. Ao finalizar a última linha, sorri, quase chorei. Ainda me esperavam dezenas de revisões, inclusão do feedback de conhecidos e amigos mas, naquele momento, eu tinha dado asas à história que há tanto tempo minha cabeça matutava. Um daqueles momentos mágicos que te fazem seguir em frente, assim como quando o professor de literatura elogiou minha redação.

 

Mal sabia eu que os maiores percalços ainda estavam por vir. Se antes achava que escrever era o mais difícil, agora já não tenho mais certeza, enfiada que estou em convencer o mundo editorial a me dar uma chance. Se comecei a mandar minha obra ainda no comecinho de janeiro desse ano, ou seja, há cerca de três semanas atrás, já me deparei com uma negativa de uma editora, com a impossibilidade de concorrer em uma competição literária porque eu resido no exterior, potenciais agentes ou tradutores para o alemão que não te respondem. Às vezes é como se você tivesse que sacrificar até um pouco da sua dignidade para que alguém te ouça e te leve a sério.

 

Mesmo com esses pequenos desprazeres, até leves decepções e plena certeza de que é realmente difícil, sinto-me otimista. Às vezes nem sei de onde vem esse sentimento positivo, mas então me lembro que deve ser porque achei o meu caminho. Será uma longa estrada, pois o caminho da literatura é oblíquo, feito de percalços e obstáculos, principalmente num mundo hiperativo que resiste mergulhar no mundo das palavras. Demorei anos para entender esse destino, andei em círculos, muitas vezes não acreditei que fosse capaz, que jamais fosse encontrar uma vocação. Cá estou eu, então, arriscando algumas coisas,  dando minha cara para bater, seguindo um sonho, trilhando um caminho próprio. Não é fácil, mas quem disse que realizar sonhos é?

 


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Comments: 1
  • #1

    Jair Cordeiro Lopes (Thursday, 16 February 2017 12:55)

    Manuela,
    Você É escritora, lamentavelmente nascida num país que a leitura não é prioridade, costume ou fonte primeira de adquirir saber. Continue, contudo, se tua literatura não trouxer meio de vida, trará satisfação pessoal, tenha certeza. Parabéns pela grande escritora que você é,

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