Wunder Mamas 2: quando a maternidade floresce sem raízes

Não há nada mais desafiador do que ser mãe, o trabalho mais prazeroso e exaustivo do mundo. Quando se é mãe no exterior, longe da família e da cultura que estamos acostumados, algumas questões que nossas conterrâneas no Brasil não enfrentam, como se comunicar adequadamente em outro idioma, criam ainda mais dificuldades. Ao mesmo tempo, temos aqui na Alemanha o privilégio de termos segurança, de podermos sair tranquilas para passear com os pequenos. Cada lugar com suas vantagens e desvantagens, afinal.

 

No primeiro artigo da série Wunder Mamas explorei questões principalmente relacionadas à gravidez (clique aqui). Nesse segundo artigo eu conto um pouco mais dos desafios, possibilidades e peculiaridades depois que o bebê vem ao mundo.

 

Filhos, nossos constantes companheiros

Na Alemanha – e acredito que na Europa em geral -  carregamos as crianças para tudo quanto é lado, seu filho tornando-se seu companheiro mais constante em almoços e jantares de fim de semana, viagens de férias e até camping. Tenho a impressão de que, por causa do suporte que temos no Brasil devido à família ou babá, quem mora por lá tem mais opções de vida social a dois ou com amigos, sem necessariamente carregar a criança para cima e para baixo. Nesse lado do oceano Atlântico, no entanto, vida social sem filhos é praticamente inexistente, a não ser que os pais se disponham a gastar para contratar babás.

 

Talvez pela necessidade de fazermos tudo com os filhos ao lado, é importante para nós por aqui termos todos os ¨equipamentos¨ necessários à locomoção. Carrinhos com rodas fortes para aguentar o inverno, camas portáteis, charretes para anexar à bicicleta e cangurus são indispensáveis à maternidade moderna da Alemanha. Gastamos mundos e fundos com dezenas de apetrechos, nos equipando para carregarmos a cria para todos os cantos.

 

Despreparo do mercado de trabalho para mães

Ser mãe e profissional é difícil em qualquer lugar e, por mais que a Alemanha seja um dos países mais desenvolvidos do mundo, aqui também é não fácil conciliar maternidade com carreira. Se no Brasil nossas amigas e parentes contratam babás e têm a família por perto para ajudar de vez em quando, para mães imigrantes essa realidade é muito rara. Aqui babás são um luxo que apenas as classes mais altas podem pagar, e família só se for do marido, e olhe lá. É difícil achar uma creche mesmo quando se procura com antecedência e, quando finalmente se arranja vaga, descobrimos que muitas delas fecham às 16:00.

 

O sistema não ajuda mães a serem profissionais, sendo que apenas 14% das mães com um filho retornam ao mercado de trabalho para trabalhar full-time, e 6% retornam após o segundo. Quem retorna ao trabalho é considerada por muitos uma má mãe (popularmente conhecida como Rabenmutter, literalmente significando mãe-corvo). As empresas também não facilitam, e cortam muitas das oportunidades de carreira para as mães que não se disponibilizam a trabalhar até tarde ou a viajar constantemente.

 

Não que a realidade da Alemanha seja pior que a do Brasil, onde existe quase proteção zero quando mães retornam ao mercado de trabalho, além de existir aquela mentalidade de que mães são um estorvo para empresas. A Alemanha está muito além em termos de proteção legal às mães, como a obrigação de empresas do país de receberem mães até após três anos de licença maternidade, assim como manter o salário e a posição pré-licença (acreditem: minha chefe, mulher e mãe, tentou mudar minha posição na empresa, mas não conseguiu).

 

A verdade é que ser mãe é difícil em qualquer lugar, e todas nós precisamos fazer acrobacias para conciliar trabalho e família independentemente do continente em que vivemos.

 

Ser bilíngue não é automático

Bilinguismo é uma área complicada. No Brasil, ouvimos comentários (bem-intencionados ou não) de que submeter o coitado do seu filho a uma segunda língua é praticamente uma crueldade. Afinal, só vai confudir a cabeça da pobre criança, não é mesmo? Ouve-se muitos comentários sobre o sotaque fortíssimo que seu filho tem, da dificuldade de falar português. Você percebe que todos os seus argumentos científicos daqueles artigos que você leu não resistem aos ouvidos moucos dos seus ouvintes, e desiste de tentar convencer os mais retrógrados.

 

Não que a conversa sobre o mesmo assunto com mães brasileiras esteja livre de críticas e conselhos não solicitados. Uma certa nuvem de competição paira sobre nossas cabeças, e incessantemente ouvimos certas mães advogando seus métodos infalíveis. Cada tem seus próprios desafios, penso eu, o meu sendo uma incrível resistência de meu filho em falar português. Outro dia ele me revelou que não quer falar português e que ama alemão (¨Mama, ich liebe Deutsch!¨). O que fazer nesse momento? É difícil ter uma receita que funcione para todas as crianças, afinal cada uma é diferente.   

 

Seguindo a sua bússola pessoal

Independentemente de onde estejamos, ouviremos críticas. Se trabalhamos na Alemanha, somos uma Rabenmutter. Se estamos em casa com as crianças, somos folgadas. Se amamentamos em público, é provável que senhoras de idade se aproximem para te dar lição de moral (a popularmente conhecida Omapolizei – ou polícia da vovó). Se damos leite pronto para o bebê, muitas mães arregalarão os olhos em crítica velada. Se falamos português com o filho, seus familiares no Brasil reclamarão que você confunde a cabeça da criança. Se falamos alemão, eles reclamarão que seu filho não fala o idioma na próxima visita ao nosso país natal. Conclusão: não conseguimos agradar ninguém nem a nós mesmas, nos sentimos confusas, sem referências.

 

No meu caso, posso até ser considerada Rabenmutter, porém preciso trabalhar não só para pagar as contas, mas como forma de sanidade mental (tenho profunda admiração por mulheres que ficam em casa, mas não é para mim). Dei peito e leite de caixinha, então me senti numa avalanche de críticas.  Falo português com meu filho, mas ele responde em alemão. Não o forço a falar português, porque a experiência de meu marido com sua família coreana foi justamente de forçá-lo a falar, e hoje ele não fala quase nada. Levo meu filho para viagens, passeios e para resolver coisas independentemente de sol, chuva ou neve.

 

O que aprendi nessa jornada de ser mãe na Alemanha é que precisamos nos reinventar e nos apegar às nossas verdades, ao nosso instinto, às nossas necessidades como pessoa, profissional e mulher. Ser mãe não é anular sua identidade, não é apagar quem você é ou o que você acha certo. Claro que muitas vezes, sem saber o que fazer, precisamos da opinião de amigos e familiares. Isso não quer dizer, entretanto, que precisamos seguir o que os outros dizem ao pé da letra.

 

Maternidade no exterior é, antes de mais nada, recriar referências e confiar na nossa própria bússola pessoal.

 

 

Aguarde a parte 3 da série Wunder Mamas – em breve!

 


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Comments: 1
  • #1

    Jair Cordeiro Lopes (Thursday, 09 February 2017 00:07)

    Manuela,
    Frente a tua excelente crônica, não tenho muito o que dizer, apenas lembro que os mais velhos costumavam dizer. Criar filhos não obedece critérios de receita de bolo. O que, no contexto que você coloca os problemas, significa que tanto as maneiras tupiniquim quanto as germânicas de dar pitacos de como uma mãe deve se conduzir, estão certos e errados na mesma proporção. Não se aplica receita de bolo, ca mãe, intuitivamente, acaba conduzindo bem ou mal seu filhote à vida adulta produtiva e, se puder feliz.

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