Sobre Iemanjá e raízes perdidas

Um nó no coração apertou quando notei que o dia de Iemanjá estava chegando, uma das grandes celebrações da Bahia. Talvez seja esse frio que parece infinito, essa estação escura que me faz desejar voltar para o calor constante da minha terra natal. Vejo essa ligeira saudade ressaltando-se a cada evento do misticismo baiano – dia do Senhor do Bonfim, e agora de Iemanjá – e de repente penso como é engraçado que uma festa popular desperte esse sentimentos, mesmo que eu, quando ainda morava em Salvador, não tivesse tanta curiosidade assim de fazer parte desse cosmos baiano.

É claro, minha família não tem nenhuma tradição referente a orixás, nunca fomos praticantes de candomblé ou umbanda, e talvez por isso não desenvolvi essa conexão com Iemanjá, Oxum ou Oxalá. Na minha juventude minha fascinação consistia em explorar o mundo, aprender outras línguas, conhecer exóticas culturas. É pena, portanto, que não tive a curiosidade nesse tempo de conhecer a cultura de minha própria cidade. Não estava preocupada em criar raízes; muito pelo contrário, eu queria arrancá-las, jogá-las fora, mal sabendo que anos depois serias as raízes as referências que tanto me fazem falta.

 

Pode parecer bobagem, mas eu queria conversar com alguém que fosse justamente esse contraponto. Minha amiga de escola Lucimar, desde criança envolvida no misterioso mundo dos orixás, me revelou aquela paz de quem desde cedo já havia encontrado o mundo ao qual pertencia. Enquanto eu sempre estive – e acredito que ainda estou – cética em criar raízes num lugar e em tradições, Lucimar não consegue imaginar não ter contato com Iemanjá, sempre pedindo licença para entrar no reino da orixá das águas.

 

É irônico que  eu sinta saudade de uma coisa que nunca vivi, de uma Bahia que raramente vivenciei, mas que nos últimos tempos têm ariçado um certo sentimento de perda. Me explicando como o dia de Iemanjá é celebrado, senti que queria fazer parte do ritual de pedir bençãos à meia-noite no Dique do Tororó para Oxum, orixá de águas doces, no primeiro dia de fevereiro, e continuar a marcha no dia seguinte para o Rio Vermelho, sentindo o cheiro forte de alfazema e colocando flores no oceano em homenagem à rainha do mar. Talvez conseguisse embarcar num desses barquinhos onde os balaios são levados até as lanchas mais potentes, até que finalmente os presentes para Iemanjá são depositados na água distante da costa apenas por mãos masculinas. Por que nunca fiz parte desse lindo ritual de fé? E por que sinto que agora – depois de morar longe de Salvador por doze anos – eu tenho saudade desses rituais místicos dos quais nunca participei?

 

De uma certa forma, assim também foi com meu pai, nascido em Portugal e criado no Brasil. Aos cinco anos, meu pai deixou seu país de origem, e retornou para uma visita quarenta anos depois. Nesse longo hiato, jamais ele abriu a boca para dizer que se sentia brasileiro, sempre contando das parcas lembranças que tinha do vilarejo de São Pedro do Sul, como da cerejeira do quintal da casa de meus bisavós, e mantendo as poucas tradições que ele conhecia. Mesmo sem grandes recordações, ele sentia falta, saudade de uma terra que lhe era completamente desconhecida.

 

Procuramos, aos poucos, matar essa saudade, nos reconectar com raízes que nos parecem perdidas no espaço e no tempo. Ainda são passos pequenos, como fazer parte da celebração do Senhor do Bonfim como fiz há três anos, pela primeira vez na vida. É, em certo momento da vida, que percebemos como raízes são necessárias, mesmo que elas estejam longe fisicamente, mas estão ali, à espera.

 

O dia de Iemanjá para mim, mesmo sem ter feito parte ainda, abre portas para que aos poucos eu redescubra raízes que não precisam ser arrancadas, mas que podem ser um pouco mais elásticas para me deixar correr pelo mundo por um tempo. Um dia, quem sabe, eu volto para me reconectar, e Lucimar talvez me introduza a um mundo que agora me fascina.   

 

Amiga minha há vinte anos (o tempo passa rápido!), Lucimar Marques vivencia Iemanjá todos os dias e se define como universalista, ou seja, é praticante de umbanda, frequenta a igreja católica e virou fã de ioga e meditação. Nos conhecemos na escola e a amizade permaneceu, apesar de não nos vermos há muito, muito tempo mesmo. Amizade boa é assim, ela fica independentemente dos rumos de nossas vidas, e são essas raízes das quais sinto mais falta. Obrigada Lu por dividir comigo um pouco desse mundo!


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