Hanói, de Adriana Lisboa: a elegância de uma história comum

Dois jovens de origens distintas, Alex e David, encontram-se num supermercado asiático, desenrolando um breve relacionamento que culmina na morte certa de David, diagnosticado com um câncer terminal aos trinta e dois anos. Sem família, David acha melhor morrer sozinho, minimizando sofrimento de pessoas próximas, até que conhece Alex. Ao notar a jovem caixa de supermercado, suas resoluções altruístas diminuem a cada encontro, a cada conversa trocada com Alex.

 

Ela, ao mesmo tempo, é uma jovem mãe que engravidou ainda adolescente de um homem casado, e que cria seu filho pequeno aos trancos e barrancos, vivendo sua vida numa certa letargia da alma. Conhecer David desperta algo nela, e ambos mergulham num relacionamento breve mesmo que fadado à morte (literalmente).

 

A história do encontro de Alex, de descendência vietnamita, e David, filho de imigrantes ilegais de pai brasileiro e mãe mexicana, é simples e, pode-se dizer, até comum. Ambos levam vidas ordinárias, com o peso de obrigações, relacionamentos falidos e esperanças pisadas com muitas decepções. E é nisso que há a mais pura beleza desse romance: a história em si não apresenta nada de extravagante ou excepcional, o final é previsível até, mas a forma como é escrita, aos poucos revelando os mistérios de seus personagens, pensamentos e expectativas através de analogias inteligentes, mostra como a jornada de ler um livro pode ser prazerosa através de uma escrita elegante e sensível.

 

Pequenos detalhes fazem a diferença na obra: a história das três gerações da família de Alex, vindas de um Vietnam destruído pela guerra, revela o contraste entre a saudade da terra natal e a consciência de que o se sente falta não existe mais. A mistura cultural que é os Estados Unidos (a história se passa em Chicago, by the way) revela-se no relacionamento de Alex com o pai de seu filho, um afro-americano, além da origem multi-latina de David. O relacionamento de guerra da avó de Alex, Linh, que se envolveu com um soldado americano, engravidou, e nunca mais o viu. A expectativa do American Dream é que tantos estrangeiros procuram – e falham – é palpável, mesmo que sofram grandes riscos e perdas com a imigração ilegal (o pai de David jamais retornou ao Brasil depois de emigrar para os Estados Unidos, com medo de não mais conseguir retornar a Chicago).

 

Hanói é uma obra que faz o seu coração bater mais forte, te faz querer virar cada página ao mesmo tempo que já se entristece com o fim da história. A autora mostra tanta sensibilidade, numa sabedoria incomum que raramente se encontra por aí. Às vezes a vida pode ser simples e comum, não precisando de super-poderes ou grandes eventos reveladores, e mesmo assim ser uma história emocionante, e que vale a pena ser contada.

 

Conclusão: Excelente

 

 


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Comments: 1
  • #1

    Jair Cordeiro Lopes (Wednesday, 01 February 2017 20:52)

    Manuela,
    Cheguei a seguinte conclusão: O livro pode ser médio, bom, ótimo ou ruim. Você sempre o torna interessante. Mais que uma simples comentarista, você faz um "Up grade" no livro de tal forma que nos obriga a sentir curiosidade sobre ele. E, assim, compra-lo quase incontinenti. Parabéns pelo belo post.