Seguindo os passos de Shakespeare em Stratford-upon-Avon

A controvérsia sobre quem realmente assinou obras como Macbeth e Hamlet confere ainda mais mistério a William Shakespeare, cujo gênio e criatividade não se limitaram às fronteiras de sua pequena cidade-natal de Stratford-upon-Avon. Se os questionamentos sobre sua identidade acenderam-se no século XIX e mantiveram-se vivos até os dias atuais, os nativos de Stratford-upon- Avon não têm dúvida que foi nessa pequena cidade na região de West Midlands onde o Trovador de Avon nasceu e cresceu, até tornar-se pequena demais para acomodar tanto sucesso.

Entretanto, a tentação é muito grande para piamente acreditar e, mais do que nunca, pergunta-se: ser ou não ser Shakespeare, eis a questão.

 

De passagem por Warwickshire, também casa de um dos maiores castelos da Inglaterra, é impossível não sentir curiosidade pelo berço de um dos maiores nomes da literatura de tantos séculos. Como não tentar traçar os passos desse homem de origem humilde, e que mesmo na limitada mobilidade social do século XVI conseguiu alcançar graças de nobres, burgueses e comuns? Impossível não sentir um impulso invisível para embarcar em um velho trem inglês numa tarde gelada de inverno, para respirar o mesmo ar, tocar as mesmas paredes, e seguir os mesmos passos do supostamente grande bardo que foi William Shakespeare.

We know what we are, but know not what we may be

Ao chegarmos em Stratford, confesso que a impressão não foi das melhores. O aspecto shabby das casas ao redor da estação de trem dava sinais da decadência que muitas cidades fora de Londres têm. Procurando resquícios da vida de Shakespeare, aos poucos fomos encontrando pistas por onde ele passou. Nada como começar essa exploração na casa onde a história do pequeno William ganhou vida. Hoje em dia, chama-se a casa medieval simplesmente de Shakespeare’s Birthplace. Por fora, a casa em estilo enxaimel, pintada de um amarelo gentil e com pequenas janelas, não parece nada fora do comum. É por dentro que sentimos o espírito da casa, os móveis, paredes, tapeçarias, e outras decorações retratando a vida do menino William. É lá que descobrimos o negócio familiar de manufaturar luvas, o que possivelmente fez a família Shakespeare morar em condições de classe média da época.

 

É só andar mais um pouco para vermos a escola onde William Shakespeare estudou, a King´s New School. Não só ele aprendeu o ABC, como ainda na pré-adolescência já estudava temas e línguas que hoje em dia seriam destinados a alunos de mestrado e doutorado, como latim e grego. E ainda assim as más línguas duvidavam do intelecto de Shakespeare, apenas porque ele nasceu numa cidadezinha longe de todas as sofisticações de Londres?

 

I do love nothing in the world so well as you. Is not that strange?

Sem mais delongas, logo descobrimos que com apenas dezoito anos Shakespeare casou-se com Anne Hathaway (talvez seja coincidência que uma certa atriz hollywoodiana tenha o mesmo nome?). O início da história de amor entre o jovem Shakespeare e a mulher oito anos mais velha, algo incomum para a época, não passa despercebido em Anne Hathaway´s Cottage. Um chalé localizado no vilarejo de Shottery, é uma boa caminhada do centro de Stratford, mas é um passeio imperdível para encontrar resquícios da infância da primeira mulher que Shakespeare amou.

 

Conta-se que o casamento foi arranjado entre William e Anne com certa urgência, e a fofoca da época concretizou-se com o nascimento da pequena Susanna apenas seis meses depois da cerimônia matrimonial. Dois anos passados, os gêmeos Judith e Hameth aumentaram a família, e onze anos depois o menino Hameth faleceu de causas desconhecidas. Nesse meio termo, William Shakespeare construía seu império literário na capital do país, deixando poucas marcas de sua vida na cidadezinha do interior. Essa interseção de anos ausentes de Stratford me dizem que é em Londres onde encontraríamos mais pistas sobre o grande poeta.

 

A vida na Londres elizabetana, entretanto, estava sempre repleta de obstáculos imprevisíveis, e durante meses o London Globe, teatro onde grande parte das peças de Shakespeare eram apresentadas para o grande público, fechou as portas devido à epidemia da peste. Sem trabalho, ele retornou a Stratford, mudando-se para New Place,  e lá permaneceu até a sua súbita morte em 1616, aos 52 anos de idade. A casa onde o grande trovador passou seus últimos anos não mais existe, tristemente demolida em 1759, e em seu lugar surge um lindo jardim histórico, com esculturas e decorações que saudam seus trabalhos e gênio incomparável. 

 

Farewell! God knows when we shall meet again

Além das casas por onde William Shakespeare passou, não se pode deixar de passear pelas margens do rio Avon que mesmo no inverno nos dá aquela sensação de que passamos por um lugar especial, abençoado com o talento inusitado. Mais alguns metros, e visitamos finalmente onde Shakespeare foi batizado e enterrado, a Holy Trinity Church. Seguimos os últimos raios de sol desse dia friorento e atravessamos o belo jardim de altas ávores e túmulos antiquíssimos, daqueles que estão ali há tanto tempo que as lápides se inclinam levemente. Entramos na igreja construída no século XIII, e ao atravessarmos o corredor vemos o busto de Shakespeare à esquerda do altar, uma mão segurando uma caneta de pena, a outra uma folha de papel. Como poderíamos ter ainda dúvida de que fora esse homem, nascido na simplicidade do interior inglês, que produziu comédias, tragédias, e tragicomédias que são de influência para a literatura até hoje? Ali, perto dos restos de Shakespeare, mais uma vez notamos as pistas da existência de alguém que, de uma certa forma, mudaria o mundo com palavras e histórias.

 

It is not in the stars to hold our destiny but ourselves

Com o vento gelado cada vez mais forte, retornamos para a estação de trem de volta a Birmingham, com o coração inspirado pelo grande trovador, símbolo de que talento surge nos lugares e tempos mais inesperados. O sublime dom de Shakespeare nos dá coragem para tomar as rédeas de nossos destinos, e nos lembra que, de fato, "há mais mistérios entre o céu e a terra do que a vã filosofia dos homens possa imaginar".

 

 


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