A alma natureba dos alemães

Se você pergunta a um alemão o que ele mais gosta de fazer em seu tempo livre, é muito provável que ele diga: curtir a natureza. Apesar de todos os estereótipos de intenso trabalho e eficiência dos germânicos, cada dia mais me convenço que os alemães têm a alma tatuada de amor pela natureza, talvez sendo um dos povos mais avançados em como progredir a economia sem ferir o meio-ambiente. Essas sabedorias naturebas estão presentes na política assim como no estilo de vida. Confira:

O amor por florestas e montanhas

Fazer caminhadas em florestas, escalar montanhas, acampar no meio do nada. Esses são hobbies muito comuns entre alemães, onde eles se reencontram com o poder na natureza. É um relacionamento tão estreito, íntimo, que os mais sedentos por curtir a natureza são chamados pela expressão fora de moda Wandervogel* (literalmente significa ¨ave itinerante¨), que define os que amam se embrenhar entre árvores, colinas, montanhas, lagos. É um conceito muito parecido com Naturmensch ou ¨ser natural¨, alguém que está em profundo contato com as forças da natureza.


Esse contato começa desde a infância, e acredito que nos últimos tempos tem se fortalecido ainda mais. Um exemplo são os Waldkindergarten (¨jardim de infância da floresta¨), onde crianças passam o dia na floresta aprendendo sobre a natureza e habilidades de como lidar com ela. Vale ressaltar que esses jardins de infância da floresta estão abertos o dia inteiro, independentemente do tempo (o que para nós, brasileiros, é um pouco difícil de engolir).

 

*Wandervogel também foi um movimento alemão do fim do século XIX, no qual um grupo de jovens desejavam libertar-se das restrições da sociedade e retornar à liberdade da natureza. O movimento foi reestabelecido em meados do século XX e possui ainda hoje milhares de membros na Alemanha.

 

Orgânicos pra que te quero

A Alemanha é um dos poucos países do mundo onde produtos orgânicos são vendidos com tanta pompa e circunstância. São milhares as lojas de produtos orgânicos, que prometem menos químicos e mais saúde, assim como até uma certa pressão para que se consuma esse tipo de produto. Em creches e jardins de infância os educadores promovem as refeições com ingredientes orgânicos, não importando muitas vezes que tais refeições não são frescas (ou seja, congeladas ou fornecidas em potinhos) e por vezes até fast-food.

Se vão servir pizza ou batata frita no almoço do seu filho, não se desespere, afinal a batata com certeza será orgânica! De uma certa forma, algumas lógicas quanto a produtos orgânicos e frescor dos alimentos ainda precisam ser revistas por aqui.

 

Proteção ao meio-ambiente como prioridade

Não é novidade para nós, imigrantes na Alemanha, que existe uma certa obsessão com reciclagem nesse país. Nós dividimos o lixo em bio (restos de comida, frutas, verduras), papel, plástico, vidro e papel. Nós guardamos as garrafas de plástico após consumidas, e as retornamos na próxima ida ao supermercado (onde raramente usamos sacos plásticos). Quando temos algo mais complexo para jogar fora – como um sofá – nós vamos ao Recyclinghof (local de reciclagem). Às vezes pode parecer um pouco além da conta, mas o motivo é simples: proteger os


recursos naturais, para que nós e nossos filhos possam aproveitar tudo de bom que a natureza tem para oferecer.

 

Também é a Alemanha líder em energia renovável, e não só porque a Angela Merkel decretou que as usinas nucleares estão desativadas em 2022 (devido ao desastre de Fukushima). Energia eólica (ou seja, do vento) já é usada há muitos anos, assim como energia hidráulica.

 

Os alemães são tão conscientes em relação ao meio-ambiente que é da Alemanha uma das iniciativas mais interessantes dos últimos tempos: a fabricação de pratos descartáveis com folhas, ao invés de plásticos.

 

Urbanização verde

Mesmo morando em cidades, quem mora na Alemanha sabe que sempre há um parque, jardim botânico ou pequena floresta disponível em centros urbanos. Há também grande prioridade para um veículo muitíssimo ecológico – a bicicleta – que compete quase que em termos de igualdade com os carros. O planejamento alemão permitiu que boa parte de áreas municipais tenha bastante verde e ciclovias, promovendo qualidade de vida para quem vive também na cidade grande.

Em Munique podemos andar de bike por toda a cidade, tomar banho no rio Isar, passear no Englischer Garten, correr no Sendlinger Wald; pequenos bolsões de natureza ao alcance de nossas mãos.

 

Como viemos ao mundo, para quem quiser ver

Ainda é chocante para muitos de nós ao nos depararmos com aquele monte de gente pelada em parques, à beira de rios e lagos ou saunas (afinal, mesmo com os biquínis pequenos do Brasil, ainda cobrimos o essencial). Entretanto, a nudez tão comumente encontrada na Alemanha e também nos países escandinavos é um reflexo dessa vontade de se conectar com a natureza, de retornar às origens mais primitivas do ser humano.


Talvez muitos dos alemães nem pensem muito nisso – apenas o fazem porque é cultural, estão acostumados – mas acredito que essa vontade de se livrar das roupas tem um quê  de desejo em ter contato completo com a natureza.

 

Enquanto isso, no Brasil...

Mesmo donos de uma natureza exuberante, os brasileiros no geral não têm esse mesmo cuidado com a natureza como os alemães. Será que esse caso de amor com o meio ambiente seria algo que pudéssemos importar para nossa pátria amada? Não necessariamente precisamos andar pelados por aí (seria isso atentado ao pudor?), nem gostar de fazer caminhadas por entre matas sob aquele calorão. Poderíamos, porém, incentivar iniciativas que podem fazer diferença no dia-a-dia, como a reciclagem, que ainda é feita de forma muito pontual e portanto toca apenas a ponta do iceberg. Comecemos a deixar de lado aquela mentalidade que andar de bicicleta só é chique no exterior, mas é inviável nas cidades brasileiras, e portanto apoiar o seu uso (se houver construção de ciclovias viáveis).  Poderíamos evitar que áreas verdes fossem destruídas em prol de construções em nossas cidades, que aos poucos roubam o pouco ar puro que ainda resta.

 

Não vou nem comentar questões ambientais que dependem da boa vontade e interesse de políticos, porque sinto que, independentemente do partido, estamos de mãos atadas. Entretanto, grandes mudanças por vezes ocorrem com pequenos passos, e isso sim está em nossas mãos. Pode parecer um discurso um tanto demagogo, idealista, principalmente vindo de alguém que mora no exterior e pode fazer pouquíssimo para mudar a realidade do Brasil. Posso, todavia, mostrar através da escrita como o amor pela natureza no país onde vivo pode servir de inspiração para todos nós, residentes no Brasil ou não.

 


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Comments: 3
  • #1

    Jair Cordeiro Lopes (Sunday, 22 January 2017 15:03)

    Manuela,
    Antes de tudo, teu artigo está ótimo, parabéns. De fato, não surpreende que essa "Alma natureba" se faça presente num país como a Alemanha. É quase impositivo que países desenvolvidos enxerguem primeiro o "caminho das pedras", isto é, vejam que sem conciliar-se com a natureza não há solução para a perpetuação da vida neste planetinha azul. Nós, os "países em desenvolvimento" seguimos no rastro dos pioneiros. Aqui no Patropi surgem aos poucos, movimentos nessa linha natureba, esperemos que cresçam e entrem na circulação sanguínea da sociedade, se tornando partes integrantes de nossa visão sobre o futuro da humanidade.

  • #2

    A.L. Fonseca Matos (Sunday, 22 January 2017 18:11)

    Muita coisa (vá lá: quase tudo) que você falou se aplica aos holandeses também. Acho que porque a natureza de climas temperados não é agressiva (não vai cair coco nem abacate na sua cabeça, você não vai pegar febre amarela, malária ou ser mordido por jacaré, piranhas e chikungunya). Acabei de voltar de uma caminhada nos bosquezinhos de Bergen. Parecia que estava andando num parque urbano, tal a quantidade de cachorros e crianças. Mas foi bem conto de fadas, com cogumelos, gralhas... Na Holanda nunca há "in the middle of nowhere" e por isso posso imaginar que os holandeses fiquem encantados quando vejam majestosas montanhas, abismos, vales, cachoeiras. Os povos do norte da Europa são bem ligados à terra, amam as mudanças de estações, ter bichos em casa, morar à beira d'água - sonho de 9 entre 10 holandeses.
    Aqui o movimento por orgânicos, livres de glúten, ou ingestão de crus sem radiação não é tão forte. Muitas vezes grandes acadêmicos universitários debocham na TV da preferência que algumas pessoas tem por orgânicos, ou alergias a leite e trigo... (lógico, as empresas de laticínios e processamento de trigo são fortíssimas no país). Uma pena mesmo. Mas pouco a pouco estão ficando com a pulga atrás da orelha com o aumento da doença celíaca e a possível radiação dos legumes e frutas estar ligado a cânceres. O que me espanta é que eles consideram muita coisa "natural" ou "pura natureza", quando sabemos que não é bem assim. Por exemplo: pão, queijo, cerveja (!), embutidos (!), sucos em caixa, picolés de fruta e outros. Alguns ficaram chocados quando eu disse que adultos não necessitam per se de tomar leite nem laticínios diariamente, só crianças até os 5 anos de idade. O país é afogado no leite, queijo, iogurte, coalhada, creme, manteiga, etc. quando na verdade você adquire vitamina D se movimentando bastante e com exposição à luz solar diária (muito magra por aqui). Enfim... Cada um com sua verdade.

  • #3

    Mareta (Tuesday, 22 August 2017 19:47)

    Eh bem isso Manuela, na Alemanha vivo na prática o que sonhei viver no Brasil um dia.... Esse cuidado com a Natureza e o futuro dos cidadãos... Minha família posso dizer que 80% da nossa programação eh em contato com a natureza.

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¨Somos o resultado dos livros que lemos, das viagens que fazemos, e das pessoas que amamos.¨

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