Ainda mais contradições, absurdos e esplendores: Índia

Não podemos resumir experiências culturais na Índia apenas em palavras, tão complexa uma cultura baseada em castas, carma e costumes tão diferentes dos ocidentais.  Se as cores e beleza dos saris, da natureza, da comida, dos festivais, e dos monumentos nos encantam, a pobreza exacerbada e a falta de empatia com as castas inferiores nos faz questionar a espiritualidade indiana, nos chocando profundamente. É nesse país de contradições intensas que me aventurei há dez anos atrás, e cujo impacto se faz até os dias de hoje. A Incredible India é o país onde você questiona os conceitos mais impregnados dentro de você e, apesar de todos os choques culturais, te faz repensar em valores e princípios alternativos.

Nesse segundo artigo sobre a Índia, descubra um pouco mais sobre diferenças culturais que vivi nesse fascinante país (caso você queira ler o primeiro artigo, clique aqui). 

Falta de educação é relativo

Se você se acha uma pessoa bem-educada, pense novamente. Na Índia, os conceitos de educação são um pouco diferentes dos nossos, mesmo com toda a influência britânica de séculos passados. Se você considera falta de educação que alguém pule em sua cama ou cadeira no trem, para eles é normal que, se você tenha espaço, que divida (veja o primeiro artigo para mais detalhes). Se você acha melhor esconder arrotos e peidos no banheiro, os indianos produzem sons e cheiros não importa o lugar e quem esteja presente, te fazendo arregalar os olhos em surpresa. O conceito seguido por eles até que faz sentido: para que guardar gases prejudiciais à saúde dentro de si? É melhor dar vazão, ao invés de se contorcer para que ninguém note sua agonia (principalmente após um belo prato de curry no nível apimentado dos nativos).

 

Espiritualidade vs realidade

Antes de ir para a Índia eu tinha aquele estereótipo de espiritualidade na cabeça, como se todos os indianos fossem guiados pelos variados deuses hindus, com todas aquelas imagens de cânticos entoados por gurus sábios. Essa saga pelo mundo espiritual contrasta-se com uma realidade muito dura em diversos aspectos. O primeiro que me vêm à cabeça é a necessidade de honra familiar. Isso significa que, caso um filho desrepeite a decisão dos pais com quem casar, que ele pode ser banido da família, assim como tantos casos de mulheres exploradas pelas famílias de seus maridos, de trabalhos domésticos forçados até abusos sexuais e violentos. A honra, um conceito não muito usado com frequência no mundo ocidental de hoje, ainda é praticado com veemência na Índia.

 

Pessoalmente, acho que não há mais contraste da suposta espiritualidade do que o sistema de castas indiano. A casta tem uma ligação muito estreita com o carma, ou seja, uma espécie de justiça celestial em que todo bem ou mal que tenhamos feito numa vida irá nos trazer consequências boas ou más futuramente, seja nesta, seja em outras existências que estão por vir (sim, eles acreditam em reincarnação). Em termos práticos, isso significa que é uma praticamente uma benção dos deuses tratar alguém de forma diferente – para não dizer preconceituosa – baseado na sua casta. Não há qualquer indicação de que esse sistema desaparecerá, porém existem progressos. O atual primeiro-ministro da Índia, Nahendra Modi, pertence a castas consideradas inferiores, e mesmo assim ocupa o cargo mais importante do país.

 

O caso de estupros – que supostamente são provocados pela mulher – me parecem também uma contradição enorme num país onde a espiritualidade tudo governa. Nesse aspecto, infelizmente a Índia é muito parecida com o Brasil.  

 

Tocar pessoas é um bicho de sete cabeças

Logo quando cheguei em Jaipur, fiquei na casa de um membro da AIESEC, uma organização estudantil que promove intercâmbios. Esse rapaz, muito gentil comigo, resolveu me levar para passear de moto (a primeira e última vez que me aventurei nesse veículo). É claro que, morrendo de medo e sem um capacete na cabeça, me agarrei ao rapaz. Ao final do passeio, ele me comunicou que esse agarramento não era apropriado, e que não havia falado antes porque realmente sentiu o meu medo. Fiquei mortificada de vergonha com essa gafe.

 

Na Índia, o toque entre homens e mulheres é tabu. Praticamente não se vê casais aos beijos nas ruas, à moda ocidental. O máximo que vi foi um casal ou outro de mãos dadas. Ironicamente, os homens têm uma aproximação física muito mais exacerbada que na Europa ou Américas. Não há vergonha em andarem de mãos dadas ou abraçados. Vale ressaltar que esse comportamento não tem nada a ver com homossexualidade. Talvez porque o toque entre pessoas do sexo oposto seja tão controverso, que homens e mulheres procurem por chamego amigável com pessoas do mesmo sexo.

 

Ilhas de esplendor, oceanos de miséria

Nada é mais chocante na Índia do que a cidade de Agra, no norte do país. É o Taj Mahal a grande atração da cidade, cuja beleza é simplesmente incomparável com qualquer outro monumento construído pelo Homem que já tive o prazer de ver. Basta sair da área do mausoléu e dos palácios ao seu redor que esse esplendor é imediatamente contrastado com a maior e mais absoluta pobreza que vi. Jamais poderia ter me preparado para tamanho contraste em apenas alguns metros de distância.

 

A Índia é incomparável, para melhor e para pior

Um erro muito comum que ocidentais cometem quando vão à Índia é querer conhecer este país como se conhecesse qualquer outro lugar do mundo. Isso simplesmente não é possível! A primeira coisa que se precisa ao ir para a Índia é de tempo, pois o conceito de tempo nesse país corre de forma diferente do resto do mundo. A Índia é um país de muitos pontos turísticos mas não são eles a maior riqueza do país; é o convívio com as pessoas, conhecer suas vidas, tomar um chai e dividir um thali. Entenda que nossos conceitos de espiritualidade, educação, privacidade, e tantos outros são simplesmente diferentes, e que somente ao passarmos algum tempo na Índia podemos enxergar esses conceitos com outros olhos.

 

Se a Índia não foi a viagem mais prazerosa que tive, com certeza foi uma das mais memoráveis. Mesmo com todas as diferenças e choques, é um país que vale a pena ser visitado. Lembre-se apenas de preparar-se fisica e mentalmente para o que vai encontrar, e procure se apegar aos aspectos positivos e interessantes desse lugar fascinante.

 

Namastê!

 

Esse artigo foi escrito com a colaboração do meu amigo de longa data, Juliano Menini Trindade. Juliano esteve na Índia entre 2006 e 2007, e trabalhou para duas fundações indianas - a Kiran, em Varanasi e APD, em Bangalore - que educam e capacitam crianças e jovens indianos com deficiências físicas e mentais.

 

Obrigada Juliano!


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Comments: 2
  • #1

    Jair Cordeiro Lopes (Friday, 20 January 2017 13:14)

    Sem muita pretensão, escrevi o texto abaixo sobre a Índia em 2009. Nada que se compare à tua excelente crônica, mas é o que eu tinha na época:

    Estou lendo o excelente livro “Criação” de Gore Vidal onde autor faz um retrato riquíssimo da sociedade indiana com suas castas, etnias, milhares de deuses e inúmeras religiões, e assisti ao filme ganhador de três Oscars, “Quem quer ser milionário” o qual exibe, com chocante previsibilidade, os contrastes sociais da Índia, nação onde as diferenças entre a maioria miserável e analfabeta e a elites ricas e poderosas, são milenares, aviltantes, astronômicas e sem quaisquer possibilidades de mudança num futuro previsível. O sistema de castas sociais, onde o nascimento determina a impossibilidade de ascensão social; onde o indivíduo só é entendido como pertencente a uma casta a qual ele deve fidelidade absoluta e vitalícia; onde infringir as normas de sua casta significa expulsão e inclusão na casta dos párias ou intocáveis, o que é o mesmo que destituí-lo da condição de ser humano, torna a sociedade indiana a mais ignominiosa e injusta do planeta. Grosso modo, são quatro as castas clássicas: Brâmanes, Xátrias, Vaixás e Sudras, e, uma quinta, os Párias, que são uma espécie de classe de seres abaixo de classificação, mas que, curiosamente, possui suas próprias subcastas. Todas as castas são divididas em subcastas, subsubcastas de tal forma que são discerníveis mais de oito mil subdivisões, o que torna a sociedade indiana de uma complexidade macarrônica. O perverso do sistema é que, como não há mobilidade vertical intercastas, quem nasce pária, por exemplo, não tem qualquer possibilidade de estudar e se tornar médico, engenheiro, professor, técnico em alguma coisa, sua vida estará traçada com rigor numa profissão humilde e mal remunerada que poderá ser carregador de água ou limpador de fossa sanitária, não há escolha. Seus filhos, netos e demais descendentes também estarão destinados à mesma profissão. É claro que lá existem cientistas, prêmios nobéis em medicina, física, matemática e outros luminares, mas, estes são todos das castas Brâmanes ou Xátrias. Não sei e não me interessa extrair alguma ilação proveitosa dessa incrível situação heterodoxa de uma nação tão antiga e que, parece, optou pelo caos como organização social. A Índia já foi colônia inglesa e se tornou independente em 15 de agosto de 1947, separando-se em duas nações diferentes: A República da Índia que ocupava o coração do sub continente e a nova República do Paquistão, a qual foi dividida em dois lados, Ocidental e Oriental, sendo que este se tornaria a nação de Bangladesh. O propósito inicial dessa divisão era que os muçulmanos ficassem no Paquistão e os hindus na Índia, não foi o que aconteceu, houve uma mistureba federal em ambos os países, o que não contribuiu nem um pouco para a harmonia social. O inusitado da situação é que, apesar da salada de etnias, multiplicidade de idiomas, número infinito de deuses e inúmeras religiões com disposições antagônicas, favelas maiores e mais miseráveis do planeta e esse absurdo sistema de castas, a Índia ainda é uma democracia estável e uma potência atômica. Durma-se com um barulho destes.

  • #2

    A.L. Fonseca Matos (Friday, 20 January 2017 19:32)

    Ando chegando à conclusão que quanto mais pobreza e ignorância, mais espiritualidade e prática religiosa. A cultura indiana privilegia um pequeníssimo grupo. De resto, é muitíssimo cruel.

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