Uma boa história não se mede em números

Não é novidade que a qualidade de uma obra não se mede em número de páginas. Existem livros maravilhosos de todos os tamanhos, histórias curtas ou longas, que nos fazem mergulhar em outra realidade ao deixar nossos olhos passearem pelas palavras e frases de um conto, crônica ou romance.

 

O que não consigo deixar de pensar é, no entanto, em como os livros longos são geralmente os meus prediletos. Sou daquelas que querem saber os detalhes do caráter dos personagens, onde vivem e para onde vão, as paisagens por onde passam, os sonhos alegres e tristes que têm, o passado, o presente, e o futuro dos que povoam o mundo fictício de uma obra. Nada mais lógico que, para caber esses pequenos detalhes (sem necessariamente encher linguiça), que linhas e páginas a mais são necessárias.

Nada me dá mais desgosto que não saber o porquê das atitudes de um personagem, ou me deparar com destinos incertos ao fim de um livro.

 

Não que livros curtos não tenham capacidade de profundidade e detalhes; todavia, a impressão que tenho hoje em dia é que o nível de atenção das pessoas é tão curto que os livros-tijolo por vezes não têm vez, exceto pelos famosos Harry Potter ou 50 Tons de Cinza. É como se grande parte da humanidade sofresse de um transtorno de atenção, vítimas do incessante estímulo de informações e estresse, que apenas histórias curtas e simples cabem no ritmo agitado de nossas vidas. É uma pena não termos tempo para mergulhar nas peripécias de personagens em uma longa história, que obras precisem ter objetividade.

 

A impressão que tenho da literatura brasileira contemporânea é o resultado dessa hiperatividade, onde breves páginas contam histórias leves, rápidas, curtas e, muitas vezes, superficiais. Soma-se a essa tendência a média de que brasileiros lêem apenas cinco livros lidos por ano e 30% nunca compraram um livro na vida, e temos o resultado esperado de uma literatura on-demand, na qual livros são lidos quando se tem um tempinho extra, e olhe lá. É raro tomarmos tempo para ler, deixar nossos cerébros concentrarem-se nas minúcias de histórias mais profundas ou complexas. Me pergunto se esses são motivos para os mini-romances que brotam por aí, como Fui a Lisboa e Lembrei-me de Ti, de Luiz Ruffato (80 páginas), o premiado A Imensidão Íntima dos Carneiros, de Marcelo Maluf (150 páginas, que ainda não li), dentre outros. 

 

Essa impressão foi exacerbada quando pedi um orçamento para revisão ortográfica de meu livro recentemente. Mesmo sem ler a obra, ao constatar o número de páginas a revisora decretou que o livro estava extenso demais. Comparei com as obras internacionais que estou acostumada a ler – volumosos, pelo menos quatrocentas páginas, aclamados pela crítica  – e achei o feedback da senhora sem cabimento. Reduzi algumas partes afinal, mas aquela impressão de que obras precisam ser curtas, naquele vapt-vupt literário, me chamou atenção.

 

Insatisfeita com essa impressão, resolvi pegar algumas obras brasileiras para ler. Dito e certo: com algumas exceções, as obras brasileiras me parecem bem mais curtas – e por vezes, superficiais – que os best sellers em uma livraria na Inglaterra, onde estive em dezembro. É normal que um livro tenha quatrocentas páginas ou mais no mercado internacional, notei a cada livro que olhei e comprei. Meu pequeno experimento me deixou um tanto abismada, e minha impressão inicial solidificou-se. Se é verdade ou não, só mesmo uma pesquisa mais aprofundada para saber. 

 

Estou ciente que muitos dos clássicos nacionais e internacionais são breves e curtos, assim como certos autores persistem em encher linguiça para engrossar os livros, o que não me agrada nem um pouco. Nem 8 nem 80, acredito eu. Mesmo com meu gosto peculiar por livros mais cheinhos, o que importa é a história e como ela nos toca, não é mesmo? O que espero apenas é que nesse mundo de ritmo cada vez mais acelerado, quando precisamos fazer malabarismos para dar conta de todas as tarefas que nos rodeiam,  que ainda tenhamos tempo para nos entregarmos aos mundos imaginários que os livros oferecem, sem estresse e tempo predefinido. Receio que a literatura seja cada vez mais deixada de lado, dando lugar a outras mídias de consumo mais rápido, do cinema e televisão até as redes sociais.

 

Espero que obras que têm tanto a dizer não cortem capítulos em nome da objetividade, que resistam esse mundo impaciente e sem tempo, que seja curto ou longo porque assim deve ser e não porque o mercado editorial acredita que menos páginas significa ser mais vendável. Que a arte não seja medida em número de palavras, que a literatura persista em histórias de significado, independentemente de quantas páginas sejam necessárias.  

 


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Comments: 1
  • #1

    Jair Cordeiro Lopes (Wednesday, 18 January 2017 22:39)

    Manuela,
    Primeiro, parabéns pelo "new look" da página, criativo e muito plástico. Vez ou outra você pode até inverte-lo por brincadeira.
    Quanto ao teu texto ressalvo: "que seja curto ou longo porque assim deve ser e não porque o mercado editorial acredita que menos páginas significa ser mais vendável", trecho que diz tudo. Sou só um beletrista, não me considero escritor, mas concordo com tudo que você disse. Também gosto de livros massudos, não me atrai um livro do tipo "A história da civilização" com apenas 200 páginas. Para mim o autor é pretensioso ou apedeuta com laivos de megalomania.

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