5 influências de Martinho Lutero na cultura alemã

Muitos de nós lembram-se das aulas de história no colegial, quando estudamos a reforma protestante iniciada por Martinho Lutero em 1517 (não se preocupe que esse artigo não é aula de história!). Completando 500 anos da Reforma em 2017, fiquei intrigada com um artigo recente da The Economist em como as idéias de Martinho Lutero não só revolucionaram a religião, como também a cultura alemã depois de meio milênio das 95 teses afixadas na catedral de Wittenberg.

 

Mesmo com a secularização dos dias de hoje – em geral, os alemães não são tão religiosos, principalmente em comparação com os países europeus do sul – pode-se ver que o legado de Lutero vai além da religião, mas perpassa muitos aspectos culturais de católicos e protestantes. Como imigrante na Alemanha, é interessante notar como tais influências ainda estão presentes no dia-a-dia dos alemães com quem convivemos.

 

Contra a ostentação, pela simplicidade

Lutero acreditava que cristãos tinham sua salvação garantida através de Jesus, mas tinham a obrigação de viver de acordo com um certo estilo de vida para merecer tal salvação. Ostentação era considerada como algo indesejado, longe da simplicidade requerida para examinar sua própria consciência. Traços dessa frugalidade estão presentes na arquitetura do começo do século XX, na predileção por móveis baratos e funcionais da IKEA (produzidos pela Suécia, um país de maioria luterana), na simplicidade das vestimentas de Angela Merkel e da população em geral.

 

Quem viveu no Brasil e ainda se lembra da produção que as mulheres têm para ir ao shopping, sabe que aqui muitas pessoas não têm essa vaidade toda. Essa simplicidade, falta de ostentação e vaidade até são atributos de uma longa onda cultural criada por Lutero.  

 

Cultura vs demônio

Se o estilo de vida deveria ser quase ascético, isso não quer dizer que certos aspectos culturais seriam banidos. Pelo contrário: para Lutero, música era uma arma divina contra o demônio, sempre de acordo que fiéis cantassem juntos, em uníssono. A consequência: hoje o país possui 130 orquestras financiadas pelo Estado, mais que em qualquer outro país.

 

Outro legado de Lutero foi a unificação da língua alemã através do uso da Bíblia, que ele traduziu do latim para o alemão. O  hábito da leitura – mesmo que religioso – determinou o povo alemão como um dos mais literatos do mundo. Não é à toa que o mercado literário na Alemanha é o segundo maior do planeta, atrás apenas dos Estados Unidos.

 

Dívida = Culpa

A maneira como os alemães lidam com dinheiro também tem raízes no pensamento de Lutero. Se para Calvino a habilidade individual de enriquecer era um sinal de Deus, para Lutero a acumulação de dinheiro era vista como algo suspeito. Ao invés de acumular bens, cristãos devem trabalhar para a comunidade, não para si próprios. Trabalho (Beruf) era visto como vocação (Berufung). Não era o lucro o objetivo, e sim a redistribuição. Esse ¨socialismo luterano¨, difundido na Alemanha e Suécia, é a base do Estado de bem-estar que temos hoje.

 

Além disso, da mesma forma que se evita ostentações e se trabalha para a comunidade, economizar dinheiro é visto como uma qualidade. Seria coincidência que a palavra para dívida (Schuld) fosse a mesma para culpa? Veja como nos últimos anos foram os alemães os guerreiros da austeridade contra os países predominantemente católicos (exceto a Grécia), onde economizar dinheiro não é visto como um objetivo de vida.

 

Tradições natalinas à la Lutero

Diz-se por aí que Lutero influenciou até certas tradições de Natal. Seu desejo era abolir os santos católicos - especialmente São Nicolau – e por isso ele decretou que a tradicional entrega de presentes realizada no Dia de São Nicolau, em 6 de dezembro, deveria ser realizada no Natal. Dessa forma, Lutero queria tirar o ato de presentear das mãos de São Nicolau para, finalmente, torná-lo totalmente dispensável. É dessa forma que se modificou a tradição, em que é o menino Jesus, e não São Nicolau, que traz os presentes na véspera do Natal.

 

Nem tudo são flores: anti-semitismo

Por mais que o anti-semitismo não seja disseminado hoje em dia, muitos atribuem a Lutero o espírito anti-semita que os alemães carregaram até segunda guerra mundial. Seu preconceito era tão profundo que ele escreveu Von den Juden und Ihren Lügen (Sobre Judeus e Suas Mentiras). Em seu último sermão, três dias antes de sua morte, Lutero exigiu a expulsão dos judeus de todo o território alemão.  Apesar de ser tema de debates acalorados entre acadêmicos, a maioria concorda que sua retórica anti-semita contribuiu significativamente para o preconceito contra os judeus na Alemanha. Desde a década de 80 que a igreja luterana condena o anti-semitismo expresso pelo pai da religião.

 

Saiba mais

Em comemoração aos 500 anos da Reforma, haverá grandes eventos, cerimônias memoriais, exposições e conferências em toda a Alemanha. Além disto, o dia 31 de outubro de 2017 será excepcionalmente feriado em todo o país. Descubra mais em www.luther2017.de

 


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Comments: 2
  • #1

    Jair Cordeiro Lopes (Sunday, 15 January 2017 22:22)

    Manuela,
    De fato, Lutero é muito mais que um reformador religioso, ele foi (é) um farol que mostrou algo além da soberania papal que restringia o modo de se crer no sobrenatural (no caso, religião, pois sou agnóstico). Fico contente com os resultados temporais de sua doutrina, porque, parece, dá azo a sociedades mais justa socialmente, e mais abertas a tolerância, mais desapegadas à ostentação como demonstra Angela Merkel. Isto, a meu ver, prova que as religiões também têm uma lado palatável. Parabéns pela excelente crônica.

  • #2

    A.L. Fonseca Matos (Wednesday, 05 April 2017 19:45)

    Interessante. Isso explica muita coisa, e não só dos alemães. Entendi perfeitamente dos suecos serem com são (casa branquinhas, discretas e minimalistas, roupas "lisas" e brancas ou escuras, porções pequenas, poucas palavras...). Na Holanda predomina o calvinismo, e não como forma religiosa protestante, mas como estilo de vida - mesmo entre os ateus. Você vê isso na falta de ostentação, parcimônia no comer e comunicação com "fórmulas" e poucas palavras, a forte ética do trabalho (o acúmulo de riqueza é visto como sinônimo de obstinação e bom caráter), a repressão à todo tipo de reclamação das mazelas da vida, e individualismo (qualquer um pode ser mediador de si mesmo, sem precisar do clero ou sistemas de autoridade). Devo dizer que o calvinismo como estilo de vida me cai bem no geral: o povo daqui busca ser justo, pontual, trabalhador, resiliente e industrioso. Mas a parcimônia dos holandeses quanto à compartilhar (emoções, ideias, experiência) me irrita profundamente.

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