Wunder Mamas: a maternidade na Alemanha

Primeiro vem o choque, daí a felicidade aparece, até que você se depara com a realidade de estar grávida. É bem provável que seja assim a sequência de eventos para a maioria das mães ao redor do mundo, imigrante ou não. Entretanto, para futuras mamães que moram longe de casa e de suas famílias, o desafio maternal é como escalar uma alta montanha.

 

Muitas de nós, aqui na Alemanha ou outros países, não falam direito a língua. Não sabemos como o sistema de saúde funciona, onde achar um pediatra, em que hospital parir, se haverá suporte de alguém durante e pós gravidez, se conseguiremos um dia voltar a trabalhar. 

 

Muitas dessas questões não afetam nossas conterrâneas que ficaram no Brasil, que por vezes não entendem os apertos pelos quais nós, mães imigrantes, passamos. São tantas as questões e perguntas que passam por nossas cabeças que por vezes o medo e as preocupações parecem mais fortes que a felicidade.

 

Minha experiência de ser mãe na Alemanha me deu uma perspectiva diferente em muitos aspectos, e hoje não me arrependo de ter passado esse período feliz e ansioso de minha vida por aqui. Descubra um pouquinho mais das diferenças do começo da maternidade entre Brasil e Alemanha, e quem sabe de outros países também.

 

Gravidez nem sempre é vista como prioridade

Apenas recentemente vi que em Munique o transporte público dá prioridade de assento às mulheres grávidas. Isso, entretanto, não é regra. Já peguei muito ônibus e metrô de barrigão sem que ninguém me oferecesse o assento, nem me deram o privilégio de ¨furar¨ fila para comprar algo no supermercado. Com filho pequeno é a mesma coisa; não há prioridade explícita em muitas ocasiões, e é preciso lembrar para os folgados de plantão que grávidas e mães devem ter preferência para assentos ou uso de elevadores. Entretanto, a falta de prioridade explícita talvez seja fruto até da eficiência alemã: aqui não se espera meia hora para ser atendido no supermercado, ficar mais que dez minutos em fila de banco é passé. As coisas simplesmente funcionam, e portanto não há grande esforço em estabelecer ainda mais regrinhas disso ou daquilo.

 

Lembremos também que os alemães são grandes adeptos do individualismo, daquela postura de que cada um que cuide de sua própria vida. Aqui esse negócio de ¨quem pariu Mateus que embale¨ é levado muito a sério - às vezes até com certo exagero.

 

Parto normal é regra, cesariana é exceção

Ao contrário do Brasil, onde a cesariana se tornou praticamente uma epidemia para as classes média e alta, na Alemanha o parto normal é a regra. Existem casos de mães que preferem a cesária e podem marcar o procedimento, é claro, mas esse não é o padrão. Aqui não existe esse sistema de pagarmos para o ginecologista rios de dinheiro para desempenharem o parto, até porque provavelmente o médico que acompanhará sua gravidez não será aquele que estará presente no parto, e sim os médicos do hospital. Para quem terá um parto normal, acostume-se com a idéia de que são as parteiras e doulas que geralmente estarão contigo na sala de parto, e que um médico aparecerá somente em casos de complicação.

 

Antecedência, antecedência, e mais antecedência

Ao saber da gravidez, parece que uma montanha de coisas para resolver toma conta de nós: organizar uma consulta no ginecologista (com direito a caderninho onde todos os exames e consultas ficam registrados), organizar a parteira/doula para o pós-parto, decidir-se pelo hospital onde parir (faça questão de ir a cada hospital), comunicar a gravidez no trabalho e todas as burocracias que fazem parte do processo e, muitas vezes, começar já a procurar por creche ainda grávida, devido à escassez de vagas nas creches estaduais assim como as privadas. Não deixe para última hora; estamos na terra da organização e eficiência, afinal de contas.

 

Aproveite a generosa licença-maternidade

A Alemanha é generosa com a licença-maternidade, dando a casais até quatorze meses pagos, até o limite de três anos para a mãe retornar ao trabalho. Se no começo até achamos que podemos voltar depois de três ou seis meses para manter o ritmo de carreira, como muitas de nossas amigas no Brasil fazem, sugiro que aproveitem a licença-maternidade ao máximo, porque afinal esse é um momento preciso para curtir o seu bebê. Quem sabe até dá para você e sua família utilizarem a licença paternidade de dois meses para fazer uma viagem mais sofisticada? Nós tivemos o privilégio de passarmos seis semanas no Brasil devido a esse sistema.

 

As Wunder Mamas no pós parto

Viver longe do nosso país não é café pequeno, e ser mãe no exterior pode ser mais exigente que muito emprego por aí. Muitas vezes a solidão bate, principalmente quando não se conhece muita gente, e para cuidar de um bebê acabamos ficando muito em casa. O legal da Alemanha é que aqui se motiva as mamães a saírem de casa e respirarem ar fresco, um dos pilares da boa saúde alemã. Se você não conhece muita gente, aventure-se em aulas de massagem para bebê ou para a recuperação pós-parto (geralmente o seguro paga, mais uma vantagem!), dentre outros cursos em que você conhecerá outras mulheres que estarão passando pelos mesmos desafios, desesperos, e questionamentos de como criar seus filhotes em outro país.

 

Não é fácil criar os filhos longe de nossas famílias, crescendo em uma cultura que por vezes nos é alienígena e nos fazendo reféns de acrobacias para conciliar carreira, filhos, casa, amigos, marido (que dá um trabalho enorme!) e tantas outras coisas. Entretanto, como imigrantes, nosso espírito já testado com as regras da Alemanha, seu clima inclemente, o idioma difícil, dentre outros, somos poderosas Wunder Mamas, capazes de superar solidão, dúvidas e exaustão durante essa linda jornada que é ser mãe.

 

Próxima edição das Wunder Mamas: o primeiro ano do bebê na Alemanha. Em breve!

 


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Comments: 4
  • #1

    Jair Cordeiro Lopes (Tuesday, 10 January 2017 22:21)

    Manuela,
    Você dá uma pincelada forte no "ser mãe" aí na Alemanha para uma migrante. Parabéns pelo belo texto que promete continuação, e pela coragem de criar um teuto-brasi-coreano nessa Europa tão conturbada.
    Abraços, JAIR.

  • #2

    A.L. Fonseca Matos (Wednesday, 11 January 2017 15:19)

    Mais ou menos parecido com a Holanda: sem privilégios nos ônibus para as grávidas, creche sendo buscada já no terceiro mês de gestação, ginásticas de araque para as gravidas (é só um blablabla sobre cada estágio da gravidez), parto natural geralmente em casa (parto normal é com epidural, geralmente não rola, é o natural a frio e seco mesmo) com ajuda de parteira, amamentação por no mínimo 6 meses para "um bom kick-start na vida", um montão de injeções desnecessárias nos primeiros 9 anos...

  • #3

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