De Salvador para o mundo: uma família globalizada

 Muitas das pessoas que conheço arregalam os olhos quando revelo o caráter nômade e espalhado de minha família. Não sou só eu a expatriada da família, há doze anos vivendo no coração da Europa.

 

Minhas duas irmãs também decidiram explorar outros lugares, numa mistura de espírito aventureiro e busca de novas oportunidades. A do meio, Juliana, mora na Inglaterra há quase dez anos. Luíza, a caçula, resolveu seguir o marido para a Austrália. Meus pais continuam morando no Brasil. São três continentes e quatro países para onde minha família imediata se espalhou.

Entretanto, não é só o fato de morar em outro país que nos dá um quê internacional. São as variadas origens de nossa família – do meu pai português até o meu marido coreano – que revelam a tendência mundial de famílias cada vez mais mistas, expatriadas, e dispersas pelo mundo. Conheça um pouquinho de nossa história.

Em um pequeno vilarejo em Portugal...

Foi numa família portuguesa de pequenos agricultores na vila de São Pedro do Sul, Portugal, que meu pai nasceu. Diz a lenda familiar que o nome peculiar de meu pai – Dinis - foi escolhido por seu avô, Alfredo, ao abrir um livro da história de Portugal à procura de um nome nobre para seu neto. Dinis I, que reinou entre 1261 e 1325, foi aleatoriamente escolhido. Ainda com minha avó Carminda grávida, meu avô João resolveu tentar a vida em Angola. Depois de quatro anos ele retornou, e logo depois a pequena família embarcou para o Brasil, levando azeite, queijo e outras iguarias na longa viagem de navio.


Foi no Rio de Janeiro que Dinis cresceu, até que uma oportunidade de trabalho o levou a Salvador. Lá, ele conheceu minha mãe, Amélia, uma estudante de apenas dezenove anos, em um supermercado (acredite!). Um ano depois eles estavam casados e meus pais estão em Salvador até hoje. Três filhas são fruto desse casamento longo e feliz e, como um legado familiar, também elas decidiram tornar-se imigrantes.

Primeira parada da emigração reversa: Alemanha

Eu poderia estar até hoje em Salvador, se não fosse minha agonia de conhecer o mundo a qualquer custo. Aos vinte e dois anos, fiz um breve intercâmbio na Hochschule Bremen, no norte da Alemanha. Naquela época, ainda namorava um egípcio, e se tivesse coragem poderia ter ido parar em Alexandria ou no Cairo. O namoro terminou, eu retornei ao Brasil, mas não queria ficar. Fiz então mais um intercâmbio em 2005, novamente para a Alemanha. Dessa vez, em Munique, tive a oportunidade de ficar depois do meu estágio.


Casei-me com um coreano (que, na verdade, nasceu na Alemanha, mas seus pais são da Coréia do Sul), meu filho Eduardo nasceu com seus olhinhos puxados, e cá estou eu até hoje. Talvez essa experiência tenha inspirado minhas irmãs, que assim como eu também queriam a oportunidade de ver além das belezas da Bahia. E foi assim que minha irmã do meio foi parar na terra de fish and chips.

Segunda parada: Inglaterra

Juliana não via a hora de arrumar as malas, mas mesmo com o passaporte português não foi fácil conseguir o visto para a Inglaterra. Juliana e Diego, meu cunhado, foram assim mesmo, na cara e na coragem. No final, deu tudo certo: eles conseguiram a permanência definitiva e, quando meu sobrinho Benjamin nasceu, Diego se tornou também cidadão britânico. Depois de passarem por muitos lugares no Reino Unido – Londres, Bath, Gloucester – eles agora se aquietaram em Birmingham, mas parece que esse ainda não é o destino definitivo da família Jetzler (de origem suíça, por sinal).


É bem provável que eles busquem um pouco mais de sol assim que Juliana disser bye bye para o seu curso de doutorado em Psicologia na Universidade de Birmingham.

Terceira parada: Austrália

Talvez Luíza tivesse sido aquela que ficaria em Salvador para sempre, muitíssimo apegada aos pais. Entretanto, seu namorado de longa-data, Ulysses, tinha planos mais ambiciosos. Já trabalhando na mesma empresa há bastante tempo, não havia mais como crescer profissionalmente em Salvador. Animado para conhecer o mundo, ele encontrou uma oportunidade de trabalho em Melbourne. Luíza casou-se com ele três dias antes de embarcar para a Oceania, e foi em 2016 que ambos conseguiram seu visto definitivo no país continental.


Depois de muitas batalhas, o casal não quer tão cedo retornar para o Brasil, e a promessa é que em breve teremos também um australiano na família.

O caldeirão de culturas que o brasileiro é

É provável que você esteja pensando que minha família é exceção, mas olhe ao seu redor e veja o caldeirão de culturas do qual o Brasil é formado. Se você é expatriado como eu, repare em como temos tantas oportunidades de conhecermos pessoas de outros países, de mergulharmos em novos costumes e culturas. Somos todos internacionais e, com orgulho, olho para o Brasil e vejo que somos um dos poucos países onde reina paz entre diferentes etnias, culturas e religiões. É verdade que existe violência, que existe desigualdade e pobreza, e que muitas das dificuldades que o Brasil vive é consequência do passado de segregação racial (principalmente com relação aos negros e indígenas), porém o que mais vejo hoje em dia é o sincretismo de religiões e culturas de forma pacífica e alegre.

 

Num ano em que sofremos decepções e muitas vezes questionamos o orgulho de sermos brasileiros, em tempos imprevisíveis onde há espaço para discursos nacionalistas, contra a imigração e internacionalismo do mundo, eu vejo a história de minha família e de tantas outras famílias brasileiras como um sinal de que temos sim motivos para nos orgulharmos do mistureba de culturas, nacionalidades e religiões que fazem o Brasil único em convivência pacífica com que é diferente. É bem capaz que o maior motivo de discórdias hoje em dia seja no nível político, entre petralhas e coxinhas (me perdoem as generalizações), do que no âmbito cultural e religioso.

 

Quem sabe essa seja uma grande lição que o Brasil possa dar ao um mundo repleto de turbulências?

 

Espero de coração que em 2017 nós, brasileiros, usemos nossas armas mais poderosas - nossa alegria e tolerância - para fazermos o mundo um pouquinho mais pacífico, com mais respeito para com outras culturas e religiões.

 

Um Feliz Ano Novo para todos nós!

 


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Comments: 5
  • #1

    Jair Cordeiro Lopes (Friday, 06 January 2017 17:09)

    Manuela,
    Entendo perfeitamente a tua família globalizada, a minha também é assim. Tenho apenas dois filhos e ambos estão no exterior onde são cidadãos dos países que adotaram. O mais velho está nos EUA e já tem um filho nascido lá. O mais novo está na Austrália há vinte anos e, casado com uma canadense, nos deu um neto e tem o segundo "na forma" para este ano. A vantagem disso é que minha mulher e eu temos motivos para viajar todos os anos ao exterior.

  • #2

    Eliana Beltrao (Saturday, 07 January 2017 00:00)

    Oi , Manuela!
    Você foi a primeira a querer voar , ganhar asas ...
    Mas suas irmãs seguiram seu caminho. O importante é que vocês foram em busca de algo novo e , hoje,além de realizadas, estão felizes.
    Isso é que vale !
    Grande beijo!!!

  • #3

    Lucia Friedrich (Saturday, 07 January 2017 01:37)

    Oi Manuela,
    Você não me conhece mas, sou amiga da Amélia.
    Entendo bem o que você relatou pois a minha família é um verdadeiro "melting pot": mistura das culturas holandesa, belga, alemã, portuguesa, japonesa, panamenha e agora americana.
    Pode haver riqueza maior? Felicidades para você e para suas irmãs e muita saúde para seus pais poderem viajar bastante!


  • #4

    Fabiano Soldati (Saturday, 07 January 2017 19:48)

    Olá Manuela,
    Eu aqui novamente.
    Seu blog tem uma qualidade excepcional, tanto visual, quanto de conteúdo. Parabéns!
    Minha família é de imigrantes Italianos (Marzabotto, Província de Bologna) e depois de 3 gerações, me mudei pra Londres, conheci a Thati, fomos de moto de Londres com minha noiva na garupa para casar em Marzabotto, onde meus bisavós nasceram e voltei de moto pra Inglaterra com minha esposa. É isso!
    Linda história de sua família.
    Abs!

  • #5

    Tam Struck (Wednesday, 01 February 2017 18:53)


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