Mais humanidade, menos ingenuidade: os refugiados na Alemanha

Mais um atentado. Mais vidas desperdiçadas em nome de Deus ou seja lá de quê. Fanatismo e ideologias absurdas pairam cada vez sobre nossas cabeças no Velho Continente, o medo se espalhando a cada bomba, a cada método criativo de matar pessoas. Acusações se multiplicam, sobretudo culpando a Angela Merkel por ter supostamente aberto as portas com sua política de boas-vindas (esquece-se que a própria população correu para estações de trem para recepcionar os refugiados).

 

Vemos que integração é mais difícil do que poderíamos imaginar; por mais que o Estado alemão e muitos voluntários estejam se desdobrando para integrar milhões de pessoas em tão curto tempo, sob intensas críticas muitas vezes, ainda vemos reticência dos imigrantes em absorver a cultura praticamente alienígena da Alemanha e de outros países ocidentais. Vemos pessoas que trabalham com integração dessas pessoas, que procuram ensinar o idioma, e muitos afirmam que não há interesse por parte dos imigrantes. Vemos o aumento de pequenos guetos voluntários, de pessoas que buscam reafirmar sua identidade desesperadamente, receosas de que mergulhar na cultura de outrém significa perder-se. É o choque de civilizações que acontece por aqui todos os dias em pequenas coisas, como a recusa de uma adolescente de participar de aulas de natação mistas por causa de sua fé, ou de rapazes na Suíça que recusaram-se a apertar a mão de um professor, um costume bastante difundido no país de relógios e chocolates. Viver na civilização ocidental significa uma inversão de valores, que para eles é algo imposto e forçado.

 

Vemos essas atitudes e nos decepcionamos amargamente; afinal, não demos a essas pessoas uma nova oportunidade de recomeçar? Não estamos aguentando as consequências do aumento de aluguéis, de escassez de serviços sociais, et cetera, por causa da vinda dessas pessoas? Não deveriam elas também cumprir parte desse invisível trato social, que é uma certa flexibilidade de se adequar às leis, aos costumes, e ao idioma do país que os recebeu?

Tradições alemãs em cheque

A Alemanha está cada vez mais internacional, com cidades como Munique e Berlim recebendo mais estrangeiros, qualificados ou não. Os mais cosmopolitas aceitam de bom grado a integração de novas culturas, diversas religiões vivendo lado a lado de maneira pacífica. O alemão aprendeu a ser politicamente correto, sempre receoso de ser confrontando com o passado nazista, algo que os constrange profundamente. Essa necessidade de adaptar certas tradições em nome do multiculturalismo é difundida e aceita por aqui. Um exemplo é que em certas escolas a festa de São Martinho foi renomeada para Festa das Luzes para tirar o caráter religioso da comemoração e poder integrar pessoas de diferentes crenças, inclusive a islâmica.

 

Entretanto, quando mais um ataque acontece com o manto do fanatismo islâmico, os alemães também se perguntam se não estão perdendo sua identidade ao adaptar suas tradições. Se eles podem adaptar sua cultura, mesmo que lentamente, por que outros povos não podem fazer o mesmo?

A oportunidade política

Os políticos captam essas vibrações negativas e as utilizam em prol de suas vantagens. Afinal, é através do sentimento eleitoral que estes ganham seus votos e podem exercer o seu poder. Por isso, muitos gastam saliva e energia com coisas idióticas, como a proibição do burkini na França no verão passado, e recentemente com o discurso da Angela Merkel condenando as burkas.

 

A proibição de burkinis e afins apaziguam os mais conservadores, que adoram se apegar a essas mesquinharias, mas não resolvem o problema. Afinal, quantas mulheres que usam burka ou burkini por aqui? Pouquíssimas, asseguro-te. Por mais que eu seja a favor de abolir a burka, por uma questão de segurança apenas, não acho que esse deva ser o ponto central de qualquer discussão.

 

A questão é como lidar com tantos refugiados, com esse choque de civilizações, com os direitos da mulher (particularmente a violência doméstica e o casamento de meninas). É preciso colocar um freio na quantidade de homens jovens e solteiros procurando asilo, e dar preferência a famílias, mulheres, crianças e idosos. E, principalmente, discutir políticas de deportação para quem comete infrações, mesmo que leves. Ao invés dessa tolerância exagerada, algo principalmente visto no escândalo dos abusos sexuais de Colônia há um ano atrás, deve-se praticar tolerância zero. Afinal, o objetivo de dar asilo não é para proteger os que mais precisam, ao mesmo tempo que se protege quem os acolhe?

 

E, mais do que tudo, é hora de ver o tema da integração como uma obrigação não só do Estado. O imigrante, seja lá de onde vem, também deve ter obrigações.

Integração: uma estrada de duas vias

Acredito que muitos refugiados estejam lutando para aprender a língua, para se adequar aos costumes locais, para mudar de vida. No entanto, esse esforço é raramente pauta de notícia. O que dá Ibope é notícia de atentado, assassinato, corrupção e escândalos. Quando alguns refugiados que moram num abrigo aqui por perto me ajudam a colocar o carrinho de bebê no ônibus, isso não é notícia. Estou convencida que muitos querem, mais do que tudo, integrar-se.

 

Generalizar é um problema sistêmico, e muitos continuarão a ver os muçulmanos como os mensageiros do capeta. Se a religião islâmica é problemática, qualquer religião praticada em doses fanáticas também será (lembram da Inquisição?). O problema é, a meu ver, cultural. É a inversão de valores com as quais muitos árabes, persas, etíopes, et cetera, estão acostumados. Lembremos que estamos lidando com pessoas que saíram de seus vilarejos e tribos, e foram jogadas em uma civilização completamente diferente. O que essas pessoas precisam é de direção, de oportunidades. E também de mão firme.

 

Integração é, afinal de contas, uma estrada de duas vias. Não adianta a Alemanha investir em tantas políticas de integração se há impunidade para delitos leves e graves, não adianta ensinar o idioma se o aprendizado não vai fazer diferença em quem recebe asilo, não adianta passar a mão na cabeça de quem sente que tudo é uma ofensa à sua fé pessoal. Fé não é desculpa para falta de integração (a não ser que alguém tente forçar um muçulmano a ir para as saunas, onde o pessoal fica peladão mesmo). O empecilho é cultural: aqui as mulheres não são submissas, a fé não influencia o Estado laico, a individualidade impera ao invés do coletivismo, o respeito aos mais velhos não é uma regra universal.

 

Acredito que é necessário flexibilidade dos dois lados: se os alemães se dispõem a adaptar sua cultura e suas tradições em nome do multiculturalismo, é também dever dos aqui buscam abrigo de flexibilizar seus pensamentos e costumes. Será difícil alcançar um equilíbrio? Com certeza. No entanto, somente quando a questão da integração for vista como uma obrigação dos dois lados que poderemos esperar que os imigrantes de fato se integrem.

 

Faço das palavras de Jens Stolltenberg, ex-ministro da Noruega, ao comentar sobre o atentado terrorista nesse país em 2011 por um extremista de direita, as minhas: ¨Nossa resposta para a violência é ainda mais democracia, mais humanidade, mas não mais ingenuidade. Nisso nós somos culpados para com as vítimas¨. É hora da Alemanha arrancar as raízes da ingenuidade, e tomar atitudes que promovam uma integração mais realista assim como a segurança de todos que vivem na Alemanha.

 


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Comments: 6
  • #1

    A.L. Fonseca Matos (Wednesday, 21 December 2016 19:03)

    Ötimo texto, pegou muitos lados da questão, ainda que não os tenha esgotado (hey, claro! Afinal isso é um blog, não um tratado sobre os refugiados na Alemanha). Vou ser curta e direta ao ponto: após 17 anos de Holanda, vejo que é uma extrema ingenuidade pensar que cidadãos de países muçulmanos se integrariam a países europeus ocidentais. A maioria absoluta não se integra - e jamais o fará. A doutrinação aos princípios dessa religião começam desde o nascimento, e são fortes e conflitantes com o pensamento ocidental contemporâneo. Há na Holanda mulheres muçulmanas filósofas, jornalistas, historiadoras que se constrangem em fazer certas reportagens e perguntas para membros de sua comunidade (marroquina e turca). O diálogo racional e sofisticado é difícil pois é um grande tabú fazer determinadas perguntas, pois logo vêem como provocação e ameaça às suas próprias famílias. Volta e meia a colunista holandesa (de orgime turca) Ebru Umar leva uns tapas na cara de jovens marroquinos (Jovens nascidos e criados na Holanda, diga-se de passagem) por falar nos meios de comunicação sobre a mão pesada do regime turco. Ao visitar parentes na Turquia fez uns twitters sobre o Erdogan e um par de horas depois já estava na prisão. Há uma falta de esclarecimento geral da população europeia sobre o fato de que países árabes não aceitam sob hipótese nenhuma muçulmanos empobrecidos da Palestina, em zonas de conflito/guerra civil, etc. E a Merkel não aceitou 1 milhão de refugiados dentro da Alemanha porque é boazinha não. Há uma forte pressão das empresas alemãs para receber mão de obra barata, pois o país é rico e está envelhecendo. Enfim, o buraco de todas essas questões "é mais embaixo" e não há soluções fáceis. Mas muçulmano que viveu em povoados no Marrocos, Síria, Turquia começar a pensar como alemão / holandês / dinamarquês só porque mudou de "endereço"? Sem chance, esqueçam. Ingenuidade.

  • #2

    Jair Cordeiro Lopes (Thursday, 22 December 2016 14:34)

    Manuela,
    A tua análise está correta e amplamente apoiada em fatos, parabéns. E você muito bem disse que generalizar é perigoso, pois os preconceitos antecedem o racional, ou seja, “os muçulmanos são vistos como mensageiros do capeta”. Contudo, como não tenho a tua verve, vou resumir minha opinião: A raiz das interrelações deterioradas, inconciliáveis e belicosas entre povos, nações, países, grupos, tribos, agremiações e pessoas, é a intolerância religiosa. Você mesma vive num país que fundou o protestantismo; num país que estimulou e exacerbou ao extremo limite a intolerância contra judeus e tentou extirpa-los da face do planeta. Em nome de deus mata-se mais gente neste mundo do que em nome de qualquer outro rótulo. Vide o estado islâmico (em minúscula mesmo).
    O mal do mundo é a religião, não há outra conclusão a se retirar desses lamentáveis episódios que se repetem a longo da história da humanidade: inquisição católica, inquisição protestante; massacre dos armênios; genocídio judeu e tantos outras calamidades.

  • #3

    A.L. Fonseca Matos (Thursday, 22 December 2016 15:46)

    Jair, concordo sobre o mal da religião (qualquer uma). Quanto mais leio e pesquiso a respeito, mas concluo que a felicidade e progresso para a raça humana virá através do agnosticismo.

  • #4

    Jair Cordeiro Lopes (Thursday, 22 December 2016 17:57)

    Perfeitamente, matar em nome de deus é o que mais acontece hoje e que aconteceu no passado. Sou agnóstico.

  • #5

    CDI (Thursday, 05 January 2017 08:26)

    Manuela, antes de mais nada, queria elogiar a sua coragem em expor sua opinião sobre este assunto tão complexo aqui em seu blog. O que eu q

  • #6

    CDI (Thursday, 05 January 2017 09:10)

    Manuela, antes de mais nada, queria elogiar a sua coragem em expor sua opinião sobre este assunto tão complexo. Integração não acontece de um ano para o outro. Você vive na Alemanha e deve conhecer brasileiros/as que estão aí há mais tempo do que isso (inclusive já com passaporte alemão) e também não aprenderam o idioma. Os motivos vão desde "me viro bem em inglês", "meu marido veio só pra um ano" a "nunca vou aprender essa língua difícil". A diferença é que uns estão sendo obrigados a aprender e outros têm a escolha (só pra falar dos direitos e obrigações). Na minha opinião seria insensível demais exigir destas pessoas em situação de refúgio algo como "já que estão aqui, mostrem interesse e que merecem ficar (e de preferência, rápido!)". A grande maioria destas pessoas nem sabe se quer, se pode ou se deve ficar aqui. Situação de refúgio é algo que pode ser temporário. Pensar em dar prioridade a famílias, idosos etc. seria colocar uma hierarquia de valor à vida. "Você é um homem jovem, não entra", "Você é idosos e não vai poder fazer mal a ninguém, entra" (acredito que certa priorização até já ocorra). Mas sabe-se que os que se arriscam na travessia por mar ou por terra são, em sua maioria, jovens do sexo masculino que acreditam ser mais fortes e capazes. O número de crianças assustadas e traumatizadas em orfanatos é enorme e há organizações nas fronteiras acolhendo estes pequenos que foram enviados por seus pais na esperança de que, pelo menos estes, sobrevivam. O equilíbrio num país que é tradicionalmente migratório há séculos é uma boa administração de exceções! É respeito ao diferente em todos os aspectos, é abrir-se ao desconhecido e aprender com os erros, celebrando os acertos, é entender que a cultura de um povo é algo inacabado e vulnerável às influências dos acontecimentos (ainda bem!), é abrir-se sem exigir que o outro acate o que você considera ser certo, é absorver o que recebemos de bom e lidar com que é ruim, é colocar-se vulnerável em suas decisões torcendo pra que o bom senso e a humanidade tenham mais espaço do que o medo, é liberdade para lutar pelos seus direitos de cidadão sem julgar generalizando, é a oportunidade de aprender sempre, nem que isso signifique trocar a festa de São Martinho pela Festa da Luz, do Dia das Mães pelo Dia da Família, acabar com o lápis cor da pele e fazer um molho de Curry pra comer com Spätzle.

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