Adultério, de Paulo Coelho: traição como forma de espantar o marasmo

Uma das obras mais atuais de Paulo Coelho, Adultério conta a estória de Linda, uma suíça na casa dos trinta, bem casada, com dois filhos maravilhosos, uma carreira prominente, dinheiro aos montes. Dona de uma vida de quase-perfeição, um dia Linda se pergunta o que mais a vida reserva para ela. Não há mais desafios em sua vida, está tudo arrumadinho demais, ela pensa. Depressão a assola, e ela batalha para manter as aparências. Até que, num impulso, Linda se reecontra com um ex-namorado e tem um caso com ele, se apaixona, mente para a família, enfim, todos os sintomas de quem está traindo seu companheiro a longo prazo. Eventualmente, sabendo que essa situação pode destruir sua família, Linda se despede de seu amante com ao estilo 50 Tons de Cinza e retorna para sua vida mansa, como se nada tivesse acontecido.

 

Gostei de certas partes da obra; o que mais me atraiu foi como Paulo Coelho conseguiu encaixar o estilo de vida suíço – sem grandes problemas ou preocupações – nas inquietações de sua personagem principal. Linda leva uma vida praticamente perfeita e, como numa crise de meia-idade, melancolia ou até depressão, precisa de mais tempero em sua vida. O ser humano é assim, concluí através da obra: precisa de desafios, de novidade e significado. É nesse conflito que Linda se apaixona – ou pensa que se apaixona, porque tudo parece mais uma ilusão – e deixa-se levar por uma paixão tal que mente, manipula e finge, coisas que ela se considerava incapaz de fazer.

 

Entretanto, achei as situações postas à frente da personagem exageradas, como a idéia de plantar drogas nas posses da esposa de seu amante para levá-la à cadeia, as fugas e mentiras um tanto melodramáticas, a procura por um xamã. O que me incomodou mesmo foi a insistência do autor em colocar sua marca registrada – alguns textos sobre anjos e espiritualidade – em algumas passagens entre Linda e o amante, como se o livro pudesse ser de Paulo Coelho apenas se algum toque de espiritualidade estivesse presente. Achei as colocações forçadas e desnecessárias para a estória, principalmente porque a relação entre os amantes mostrava-se extremamente sexual. Talvez o autor quisesse justamente colocar a contradição da sexualidade desse relacionamento com os questionamentos espirituais? Não sei, porém lembro-me apenas que dei uma passada de olhos quando notava linhas e mais linhas de conteúdo espiritual.

 

A obra mostra como é possível que pessoas tenham atitudes completamente inesperadas no ápice da melancolia, quando se questionam qual o significado de suas existências, quando se vêem ainda jovens e sem quaisquer desafios à sua frente. É interessante ler sobre os conflitos da personagem, que se vê de fato dividida entre o dever de família e a inusitada paixão que atropela seus princípios, aqueles mesmos que ela outrora usava para julgar outros e os quais ela quebra em segredo.

 

Para aqueles que gostam de um livro psicológico, com uma personagem contraditória, Adultério é um bom livro para refletir sobre a natureza humana, e como somos capazes de alterarmos nossos princípios quando estes vão de encontro com nossas paixões. Para aqueles que procuram algo significativo no nível espiritual, não recomendo.

 

 

CONCLUSÃO: RAZOÁVEL


Gostou do artigo? Siga a Baiana da Baviera!


Seja arretado e compartilhe!



Write a comment

Comments: 1
  • #1

    Jair Cordeiro Lopes (Thursday, 15 December 2016 19:39)

    Manuela,
    Como análise de conteúdo, a tua está impecável. Sobre o valor da obra nada sei. Parei de ler Paulo Coelho no terceiro livro dele, na época o achei muito imitador de Carlos Castaneda, que havia escrito "A erva do Diabo", "Uma estranha realidade", "Viagem a Ixtlan" e outros.
    Sou leitor compulsivo, praticamente leio tudo que me cai sob os olhos, menos Paulo Coelho e livros de auto ajuda. Portanto, não estou habilitado a comentar livros deste que considero "Uma estranha notoriedade".

Siga nas redes sociais:

Entre em contato:

contato@baianadabaviera.com.br

Meu lema:

¨Somos o resultado dos livros que lemos, das viagens que fazemos, e das pessoas que amamos.¨

Airton Ortiz