Índia: contradições, absurdos e esplendores

Há exatos dez anos que me aventurei na Índia, um país que sempre me fascinou profundamente pelos mesmos motivos que encantam milhões de outras pessoas: os monumentos, templos e palácios grandiosos e exóticos, o colorido dos saris, a comida deliciosa e de queimar a boca a cada garfada, a diversidade cultural. A Índia me chamava num sussurro e, aventureira na minha juventude, arrumei as malas e parti para Jaipur, no Rajastão.

 

Como eu estava indo através da AIESEC (uma organização estudantil que facilita intercâmbios mundialmente), passei por uma série de seminários sobre como lidar com diferenças culturais. Sinceramente, não dei muita importância na época, já que eu morava na Alemanha e me sentia preparada para enfrentar quaisquer desafios postos à minha frente. Quando algumas pessoas me ofereciam conselhos do tipo, prepare-se mentalmente para ver muita pobreza, eu dizia:

 

Ah, mas eu sou brasileira e já vi muita pobreza, então não tem problema, com aquele ar de quem se sente superior. Arrogante, não? É claro que quebrei a cara. Inúmeras vezes, diga-se de passagem.

 

Logo quando desembarquei, lembro-me  de primeiramente ignorar a sujeira e pobreza ao meu redor, contemplando a Cidade Rosa de Jaipur, as vacas que competiam com o tráfego intenso, as mulheres das mais humildes usando seus saris coloridos. Era tudo diferente, uma overdose de sensações que me assaltavam. Entretanto, o exótico e a beleza singular de certas coisas foi aos poucos dando lugar a outras percepções mais profundas da cultura indiana que, muitas vezes, ficam entalados na nossa garganta de tão diferentes e até absurdos (na nossa concepção das coisas).

Quando a exótica é você

Se já me sentia um tanto exótica por ser uma baiana loura e de olhos claros, foi lá na Índia que esse conceito tomou grandes proporções. No vôo entre Delhi e Jaipur, sentei-me ao lado de um rapaz que, ao me ver distraída, tocou meu braço como se eu fosse um ser de outro planeta. Não estava preparada para esse tipo de contato. Pensei logo, ah... por que não ouvi aqueles conselhos mesmo?

 

A curiosidade das pessoas com minha cor não parou por aí. Como toda pessoa que não consegue ficar quieta, é lógico que eu ia passear em Jaipur sozinha. As pessoas me viam passeando, completamente sem noção, e queriam tirar fotos, apertar minha mão, chegar perto. Às vezes essa popularidade incomodava mesmo (principalmente quando eram homens querendo tirar aquela foto com você para mostrar para os amigos). Admito que dei uns chega-pra-lá em alguns dos meus ¨fãs¨, às vezes até com frequência. Realmente tinha dias que era difícil não perder as estribeiras quando você fica rodeada de adultos e crianças querendo fotos, trocados, apertos de mão e outros contatos indesejados.

 

O amor vem depois do casamento

Quem nunca ouviu falar dos casamentos arranjados da Índia, da necessidade de encontrar sua cara-metade da mesma casta? Mesmo que isso seja contra todos os nossos princípios, que isso nos escandalize até, isso é considerado normal. Um indiano com quem conversei um vez me disse que tinha uma namorada e que desejava casar-se com ela, porém se seus pais fossem contra, ele terminaria o namoro. Jamais ele poderia imaginar confrontar os pais para casar-se com a mulher que ele havia escolhido. A honra da família dele era mais importante que o amor pela namorada.

 

Nesse caso, a família concedeu e os dois estão casados até hoje. Se eles não tivessem tomado esse caminho, provavelmente tentariam achar su,a alma gêmea nos anúncios de jornal (veja um exemplo à esquerda). Em cada um desses anúncios, categorizados por castas, homens e mulheres detalham suas habilidades e qualidades como se estivessem procurando um emprego. É assim que funciona para os indianos; já para mim, um tanto individualista, seria algo impensável!


Privacidade não existe, meu caro

Minha primeira estadia foi com a família de um membro da AIESEC, com quem passei três dias. Era uma casa grande, onde moravam três gerações da família. Esperava-se que a quarta geração também fosse acomodada lá. A matriarca da família fez questão de me dizer que, quando o filho dela casasse, a nora moraria também com eles. Engoli o meu biscoito com chai, e fiz aquela cara de quem concorda plenamente. No fundo, o que eu estava pensando era: quem vai ser a louca que vai morar com a sogra?  A diferença é que por aquelas bandas ainda é mais que normal que o homem leve sua esposa para morar na casa dos pais.

 

Outra situação que ocorreu comigo e me deixou com os nervos à flor da pele foi quando estava viajando de trem entre Shimla e Dharamsala (bem no norte do país). Estava viajando com outras duas meninas e compramos uma cama cada uma num vagão com leitos. Quando acordei de um cochilo, lá estava um homem que nunca vi na vida na minha cama. Fiquei chocada, e mandei o homem pastar. Com aquela cara de quem não estava entendendo patavina, o tal homem disse que estava dividindo um leito com mais cinco pessoas e por isso que resolveu ficar na minha cama. Ora, mas é claro, como eu não pensei nisso antes?

 

Essa coisa de privacidade, espaço pessoal e individualidade, conceitos tão preciosos na civilização ocidental, são praticamente inexistentes na sociedade indiana. Se eu acho enlouquecedor, para eles é mais do que normal.

Tudo é relativo

O que certo, afinal? Todas aquelas certezas que acumulamos ao longo dos anos são confrontadas com uma realidade tão diferente que às vezes você acha que está perdendo a cabeça. A verdade nua e crua sobre minha experiência na Índia é que você começa a repensar um monte de conceitos, tenta aceitar muitas coisas que não vão ter sentido imediato, e por vezes se descabela com as diferenças abismais. A Índia te leva ao limite; ela te mostra a miséria mais desesperadora, ao mesmo tempo que revela os monumentos mais espetaculares. É difícil compreender a dimensão de disparidades, e isso que mais me chocou e fascinou nesse país de lugares, pessoas e costumes por vezes opostos aos meus.

 

Fique ligado na parte dois – a missão! Em breve!

 


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Comments: 5
  • #1

    Jair Cordeiro Lopes (Sunday, 11 December 2016 14:26)

    Manuela,
    Você, além de romancista inquestionável, é uma cronista de mão cheia. Suas crônicas retratando as experiências, sensações e vivências que tem ou teve, são de excelente qualidade, a tal ponto que merecem serem publicadas num livro de memórias no futuro. Parabéns.
    Quanto à Índia, não tenho experiência própria, nunca viajei para lá. Contudo, meu filho mais novo, que mora há vinte anos na Austrália, é viajor contumaz e gosta de conhecer países “exóticos” como Indonésia, Malásia, Sri Lanka, Vietnã, Ilhas Maldivas, China, Taiwan e, naturalmente, Índia.
    Ele é casado como uma canadense, e os dois foram à Índia há quatro anos, conhecer o que demais estranho existe naquela civilização. Acrescente-se que os dois são consumados “aventureiros gastronômicas”, isto é, gostam de provar os sabores variados e desconhecidos dos países que visitam. Na Índia provaram de tudo.
    Na Austrália, depois de um mês, meu filho foi acometido de umas dores abdominais terríveis seguidas de febre e suores incapacitantes. Nas consultas médicas que seguiram, depois de exames complexos nessas máquinas que perscrutam o interior do corpo, ficou constatado que ele estava com um verme no fígado. Um verme, diga-se, desconhecido naquele país. Depois do diagnóstico seguiu-se um tratamento caro para exterminar o tal bicho. O médico, logo, havia inferido que alguma coisa ele havia feito para ser “premiado” com uma doença desconhecida na Austrália, e fez a seguinte pergunta: “Você viajou para algum país de clima tropical?” Diante da resposta positiva, o médico aconselhou-o a não se aventurar por comidas desconhecidas quando viajar de novo.
    Conclusão, a Índia é para iniciados, não para amadores!
    JAIR.

  • #2

    DINIS METELO (Monday, 12 December 2016 00:27)

    Texto muito objetivo retratando o que nao conhecemos da India no dia a dia .

  • #3

    A.L. Fonseca Matos (Wednesday, 21 December 2016 19:40)

    A Índia me fascina ZERO. Um outro das "mil e uma noites" (rs) que também dispenso é o Marrocos. Prefiro ver os palácios, os mosaicos, os mármores e as barraquinhas de temperos nas fotos. Já ouvi muitos relatos escalafobéticos e estrambóticos. Para quem quiser ir: acho lindo, vá. E boa sorte!

  • #4

    Roger Gruner (Wednesday, 01 February 2017 10:22)


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  • #5

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