Entre mares e montanhas

Quando se cresce na costa, o mar é aquela presença constante que vira-e-mexe você encontra ao percorrer a cidade. Está sempre li, à espreita.

 

Lembro-me de quando ainda morava em Salvador que no caminho para o escritório a vista magnífica do mar se revelava em minha frente. Todos os dias eu admirava a grandiosidade do mar, na certeza de que o amanhã me daria o privilégio de vê-lo novamente. Era reconfortante, essa constância.

 

Vim então para a Alemanha, e mal poderia imaginar como o mar faz falta. Você nem pensa que diferença que faz! Não só de olhar o azul, de se perder naquela imensidão... o mar sempre me dava aquela sensação de espaço aberto, liberdade, vazão. Pode parecer bobagem, mas bastava olhar para as ondas quebrando na praia para que eu, nem que fosse por um momento, pudesse esquecer meus problemas. Ver o pôr do sol no Farol da Barra então? Sem palavras...   

 

Até que, de repente, você se encontra num lugar onde são as montanhas o grande highlight. São magníficos aqueles picos que alcançam o céu, mas... a sensação que me davam era muito diferente. Me sufocavam, me davam aquela sensação de claustrofobia. Quando me aventurei pela primeira vez numa caminhada pelas montanhas, senti essa contradição de sensações: achava-as lindas, imponentes, assim como amedrontadoras. Me sentia como se fosse cair a qualquer momento, um medo que deixava meu coração acelerado. Por muito tempo, não quis voltar para as malditas montanhas, mesmo que elas, assim como o mar em Salvador, estivessem sempre presentes ao redor de Munique.

 

Não conseguia entender esse caso de amor dos montanhistas, aqueles fãs que se aventuravam todas as estações, que se sentiam à vontade em meio a grandes paredes de rocha. Era sempre o mar que me chamava! Todas as férias era mandatório viajar para um lugar – qualquer lugar! – onde houvesse oceano. Grécia, Turquia, Croácia, Bulgária, Tailândia, Espanha, seja lá onde fosse, eu precisava sentir a areia nos pés, o sal na pele, o azul infinito nos olhos.

 

Mesmo com essa necessidade, fiquei um ano inteiro sem ver o mar há algum tempo atrás. Sem grana, acabamos desistindo das nossas férias praieiras. A alternativa? Os lagos nos arredores de Munique, juntamente com as montanhas ao fundo. Nos banhávamos nas águas cristalinas e geladas do rio Isar em Munique ou no lago Starnberg nos fins de semana, e pela primeira vez em anos subimos uma pequena montanha, com bebê e tudo.

 

Passamos por um campo plano, todo verde, como aquelas fotos perfeitas que se acha em revistas de viagem.  Entramos, então, no caminho para a montanha (uma grande colina, na verdade), onde altas árvores mascaravam os raios do sol. Aquela breve claustrofobia bateu de novo, aquela vontade de voltar para o espaço aberto dos campos verdes não me deixava em paz. Mas persisti; passo a passo, fui subindo a colina. Paramos num mirante, com uma linda vista, e comecei a me sentir mais à vontade. À medida que subíamos, mais víamos luz, até que chegamos no topo e... vimos aquela paisagem deslumbrante de vaquinhas pastando no verde dos campos, chalés aqui e ali, lagos azuis.  

 

Lembro-me daquele momento como se fosse hoje. É como se tivessem tirando uma venda de meus olhos e, de repente, me convenci do poder mágico e libertador das montanhas. Finalmente entendi o caso de amor que tantos me falavam – que maravilha que é andar acima, se embrenhar na vegetação às vezes densa, às vezes não, e ver a paisagem de uma perspectiva diferente. Me apaixonei!

 

Não que agora eu seja uma montanhista de primeira, longe disso. Esquiar, assim como quaisquer outros esportes de inverno, ainda é tabu. Ainda não tenho o mesmo relacionamento com a montanha assim como o mar, mas tudo a seu tempo... Quem sabe eu celebre meus quarenta anos em 2020 no ponto mais alto da Alemanha, o Zugspitze, em pleno fevereiro? Quem sabe começo a escalar montanhas e me acostume com neve que cai em seus picos mesmo no verão?

 

Tudo é possível... a vida é mesmo uma caixinha de surpresas!

 


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