Uma breve entrevista com Luiz Ruffato

Em sua terceira excursão pela Alemanha este ano, o autor de Eles Eram Muitos Cavalos, Luiz Ruffato, nos deu a honra de sua presença na Feira Internacional de Contos de Munique, onde um grupo de brasileirinhos encenou a narrativa de sua primeira obra infantil, A História Verdadeira do Sapo Luiz.

 

Tive o prazer de conhecer e conversar com o autor, que me contou sobre seu relacionamento especial com a Alemanha, sua opinião sobre a literatura no Brasil, e que novidades podemos esperar do escritor em 2017.

 

Como você vê a literatura no Brasil hoje em dia ?

 

Ruffato: Não acho que seja muito diferente de outras épocas. A literatura brasileira é, na sua generalidade, ainda feita por brancos de classe média, sobre brancos de classe média, para brancos de classe média. Evidentemente que existem exceções, claro, mas são exceções. Ela continua sendo mais ou menos a mesma literatura que sempre se fez no Brasil.

 

Você escreveu uma livro para crianças – A História Verdadeira do Sapo Luiz. Como foi essa experiência?

 

Ruffato: Na verdade, é curioso, porque eu efetivamente não escrevi um livro para crianças! Escrevi um livro. O que eu quero dizer com isso é que a literatura infanto-juvenil, principalmente no Brasil, é escrita com uma intenção específica para um público específico. Eu não escrevi um livro para esse público nem para esse mercado; escrevi um livro para mim. É uma fábula, algo que se lê em qualquer momento, não necessariamente para um público específico. Escrevi essa fábula, que acabou sendo publicada por uma editora e ganhando o prêmio Jabuti, mas eu não escrevi com essa intenção. Tanto não escrevi com essa intenção que não escrevi mais nenhum livro infantil e nem sei se vou escrever outro livro infantil. Então se eu achar em determinado momento que tem uma estória legal, que vale a pena ser contada, certamente eu vou escrever porque é um público que me interessa, como formação e tudo, mas não como público para escrever especificamente.

 

Você parece ter um relacionamento bem especial com a Alemanha. Por quê?

 

Ruffato: Eu também queria saber! (risos) Veja bem, essas coisas não têm muita explicação. Eu não tinha nenhum livro publicado na Alemanha, aliás eu tinha muitos poucos livros publicados no exterior. Em 2012, por conta da antecipação da homenagem ao Brasil em 2013 (pela Feira de Livros de Frankfurt), eu fui procurado por uma editora alemã para publicar um livro já visando o ano seguinte. Então em 2012 foi publicado o Eles Eram Muitos Cavalos na Alemanha. E por essas coisas que você não consegue explicar, o livro teve uma visibilidade imensa, dito até maior do que teve no Brasil no lançamento... acredito não, com certeza muitíssimo maior do que teve no Brasil na época! E por conta disso, por essa surpresa, a editora resolveu publicar um outro livro no ano seguinte, em 2013, na época da Feira. Aí eu fui o orador do Brasil daquele ano, e acho também que meu discurso foi polêmico, e isso acabou criando uma outra visibilidade. Depois eu dei uma outra entrevista longa para a Der Spiegel (a mais prestigiada revista semanal alemã), umas quatro páginas. Então uma coisa foi puxando a outra! Esse ano, eu e o Michael Kegler (tradutor das obras de Ruffato para o alemão)  ganhamos o prêmio internacional Hermann Hesse, e ele já tinha ganho outro prêmio (Straelener de tradução, em 2014) com a tradução do Eles Eram Muitos Cavalos. Então várias coisas foram acontecendo, absolutamente fortuitas, e que me levou a fazer com que essa seja a terceira vez que eu vim a Alemanha este ano. Segundo nosso editor, nós visitamos quarenta e cinco cidades na Alemanha desde 2012, sendo que algumas delas várias vezes. Munique mesmo é a quarta vez que venho, Frankfurt nem sei quantas vezes, Berlim deve ser a terceira ou quarta vez.

 

O que podemos esperar de Luiz Ruffato em 2017?

 

Ruffato: Em 2017 sai o terceiro volume do Inferno Provisório aqui (na Alemanha) e Vista Parcial da Noite, e se tudo for como nos outros anos, nós vamos fazer uma nova rodada de viagens. Se tudo der certo, vamos emplacar mais algumas cidades e voltar a algumas que já fomos. Acho que essa relação que se estabeleceu não só entre a Alemanha e o meu trabalho, mas principalmente entre eu e as pessoas que têm ajudado a divulgar meu trabalho aqui, tem sido muito importante para mim, porque o Brasil... (risos) Não sabemos sequer se o Brasil vai existir no ano que vem! É até uma maneira de você se compensar psicologicamente, sabe?

Obrigada Luiz pela conversa!

 

Sobre Luiz Ruffato

Mineiro de Cataguases, Minas Gerais, Luiz Ruffato é filho de um pipoqueiro semi-analfabeto e de uma lavadeira de roupas analfabeta. Lançou vários sucessos literários, como Eles Eram Muitos Cavalos, Estive em Lisboa e Lembrei-me de Ti, e a pentalogia Inferno Provisório. Recebeu diversos prêmios em sua carreira, sendo o prêmio Hermann Hesse o mais recente e mais prestigiado.



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