Aquele amor bandido ao nosso país

Que semana triste para nós, brasileiros! A queda do avião da Chapecoense nos deixou arrasados. Choramos com a perda insensata, com mortes de jovens ainda na flor da idade, com sonhos destruídos. E então, para piorar, vimos a corja que é a classe política se aproveitar desse momento de luto para sacanear o brasileiro com medidas que os livra de punições contra a corrupção. Se a fatalidade da Chapecoense fez nossos corações se apertarem e sangrarem, a manobra política da semana foi uma brutal apunhalada pelas costas.

Quando ouvi sobre a fatalidade do time de Chapecó, fiquei muito triste mesmo que não tivesse nem conhecimento desse time. Por um momento, queria estar de volta ao Brasil, perto das pessoas e lugares que amo, como se um certo medo de também perder grandes preciosidades estivesse iminente. Também não foi assim quando o avião do grupo Mamonas Assassinas se despedaçou na Serra da Cantareira, quando Ayrton Senna faleceu depois de um fatal acidente em Ímola, e também quando pessoas comuns, sem o manto da fama, perderam a vida em grandes fatalidades? Você quer ficar perto das pessoas amadas, se consolar num abraço de quem sente aquela mesma perda, e se comove em ver que milhões choram a morte de pessoas que nem conheciam. Por um breve momento, você quer voltar e fazer parte da tristeza coletiva que assola um país.

 

Não demora muito, e outra notícia entra em cena, talvez gerando ainda mais perplexidade. Como assim, os deputados se mancomunaram no plenário e votaram em prol de suas roubalheiras, na calada da noite, quando todos os canais e jornais noticiavam os detalhes do acidente aéreo da Chapecoense? Como assim, eles se utilizaram desse momento de dor para dar uma rasteira no povo brasileiro?  Como assim, o mau-caratismo foi além da corrupção e chegou a esse nível?

 

Confusão reina no peito. Aquela vontade de estar perto, de se sentir mais uma vez parte integrate do Brasil, é pisada em cima, despedaçada, jogada fora. Com uma grande distância entre as Américas e a Europa, você pensa: graças a Deus que estou longe dessa sujeira, que vivo num país civilizado, que não preciso voltar porque esse país não presta.  

 

É aquela contradição típica que quem vive no exterior sente (e talvez os que vivem no Brasil também): a gente ama o Brasil, um dia pensamos em voltar (ou sair do país). Eu mesma jamais cogitei envelhecer na Alemanha, apesar de todas as coisas boas que vejo por aqui. Pode parecer uma fantasia besta, mas me imagino velhinha colocando meus pés na água do mar lá no Farol da Barra ou respirando o ar puro da Chapada Diamantina. Penso em um dia voltar, mas como, com toda essa cachorrada que o Brasil enfrenta todos os dias?

 

Fica então esse sentimento de amor bandido no coração: mesmo a gente querendo amar, levamos só pé na bunda e tapa na cara. Nos decepcionamos amargamente, mas não conseguimos largar esse amor de gente louca.

 

Muitos de nós voltam para o Brasil todos os anos religiosamente, procurando por alguma melhora, algum motivo para ficar mais um tempinho, quem sabe até cogitar um eventual retorno ao nosso país. Depois de algumas semanas, muitos de nós vemos que nada mudou, ou mudou para pior, e nos contentamos em voltar para o nosso refúgio no exterior. Depois de um tempo, aquela fantasia do Brasil, de todas as coisas maravilhosas que nossa terra oferece, reaparecem em nossa cabeça. Damos mais uma chance, gastamos mundos e fundos com passagem, e vemos que tudo continua igual.

 

Não sei explicar esse sentimento, esse círculo vicioso que me assombra há doze anos. Só sei que essa foi uma semana incomum, na qual o melhor e o pior do brasileiro foram revelados. Continuo amando o Brasil e dele sentindo orgulho, porque de muitas coisas podemos realmente nos orgulhar. Entretanto, a sensação que toma conta de mim nesse momento – e que talvez mude depois – é de uma decepção intensa, de um coração partido. Mais do que nunca, de um amor não correspondido.


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