Deixe os rótulos para as embalagens

Há muitos anos atrás, estava conversando com um colega de trabalho espanhol que me contava sobre suas férias no Brasil. Encantado com a beleza das paisagens e a alegria das pessoas, ele me contava de sua experiência com aquele grande sorriso, até que... o CEO da empresa (um alemão) interrompeu o nosso bate-papo com a seguinte pérola:

 

Eu jamais vou para a América do Sul, porque lá só tem ladrão.

 

Foram realmente essas as palavras do dito-cujo... sem tirar nem por!

Depois de anos elas ainda estão cravadas em minha memória. Senti uma raiva dessa acusação velada e sem cabimento (afinal, ele estava me chamando de ladra?), principalmente porque esse homem nunca ter pisado no hemisfério sul. Como ele poderia acusar milhões de pessoas sem nunca ter chegado nem perto do nosso continente? Como ele poderia abrir a boca com tal despautério? Sem medir minhas palavras, diante de tanta indignação, respondi na mesma moeda:

 

Melhor ser ladrão do que ser nazista (e ainda fiz o sinal do Heil, Hitler para complementar).

 

O sorriso do alemão desapareceu, seu rosto ficou pálido, e ele finalmente calou a boca. Nunca mais ouvi um pio sobre os supostos defeitos dos sul-americanos e, para ser sincera, por muito tempo não senti remorso de ter rebatido aquela acusação com algo ainda mais violento e sem sentido.

 

Somos todos vítimas da mesma armadilha

 

Às vezes é brabo ser brasileiro e imigrante. Se por vezes alguns estereótipos não nos fazem mal (temos aquela fama de sermos sorridentes e alegres), alguns rótulos machucam profundamente. Somos etiquetados de ladrões (vide exemplo acima), de traficantes, barulhentos, caóticos. As mulheres são vistas como fáceis e até como prostitutas. Sentimos aquela pressão de mostrar que não somos assim, que somos muito melhores do que os estrangeiros pensam.

 

No entanto, ao nos depararmos com acusações tão sem cabimento, seu sangue ferve. Fervilha, borbulha! Você quer explodir e... acaba respondendo no mesmo nível. Se nos sentimos por baixo, daí vem a nossa vez de rebater o estereótipo, de rotular tanto quanto, naquele contínuo processo do toma-lá-dá-cá.

 

Até quem mora há muito tempo no exterior não se contém ao generalizar todo um povo: todos os alemães são frios e grosseiros (vejo muitos desses comentários de estrangeiros morando em Munique sobre quem os acolheu), todos os árabes (mesmo os não-muçulmanos) são terroristas,  todos os indianos fedem a curry, todos os poloneses são ladrões... e por aí vai.

 

Quando algo nos aborrece ou nos dá medo, é mais fácil abrir a boca para colocar a culpa em outrém: se você está preocupado com a questão dos refugiados, é bem provável ouvir acusações de que são eles os únicos responsáveis por roubos ou estupros (a percepção que muitos têm sobre isso é impressionante); se você não consegue fazer amizades com os alemães é porque eles são frios ou rudes; se você não se dá bem com seus sogros coreanos, é porque eles não entendem que na sua cultura você argumenta com os mais velhos, e não apenas abaixa a cabeça em sinal de respeito. Será que o problema é realmente só com eles? Ou será que também está dentro de cada um de nós?

 

Todos nós fazemos parte dessa onda, às vezes nem percebemos o que é  estereótipo, perdendo a noção do que é individual, único de cada um. Por vezes até usamos os estereótipos como escudos; quantas vezes eu mesma já disse que praticamente não tenho amigos alemães porque eles são frios e reservados, que eu não tenho paciência para quebrar o gelo? Milhares de vezes usei isso como desculpa, mesmo que no fundo eu soubesse que quem às vezes mantém os alemães à distância sou eu - justamente por essa atitude.

 

Conhecendo as pessoas por trás dos rótulos  

 

Estereótipos e leves preconceitos culturais sempre existirão, não tem jeito, e isso será sempre um desafio que imigrantes enfrentarão todos os dias. Para quem quer se integrar, é necessário muitas vezes colocar os pequenos pré-conceitos de lado e conhecer as pessoas além dos estereótipos. Eu, que achava americanos com quê de superficialidade, tive a oportunidade de conhecer alguns que quebraram com esse paradigma. Se você acha os alemães difíceis de fazer amizade, não os mantenha fora de alcance; eles são amigos mais leais do que você pode imaginar.  Integração num país estrangeiro é, muitas vezes, procurar ir além da sua zona de conforto. É aprender a língua, é tentar se aproximar do povo que te acolheu e é, também, conviver com pessoas das mais diferentes origens (principalmente para quem mora em lugares cada vez mais internacionais, como Munique, não tem como fugir de uma convivência multi-culti).

 

Todos nós sabemos que isso não é uma tarefa fácil; ouvir acusações impensadas é brabo, controlar a boca para não rebater o que fervilha no sangue dá um trabalho de cão, quebrar estereótipos arraigados é complicado, integrar e conviver com pessoas que muitas vezes têm uma visão de mundo diferente da sua é osso duro de roer. É desgastante, frustrante, por vezes dá aquela vontade de jogar tudo para o alto e voltar para a terrinha, onde aparentemente todos pensam da mesma forma. Entretanto, viver no experior também pode ser uma experiência enriquecedora, uma oportunidade única de conhecer pessoas sensacionais que vão mudar aqueles clichês com os quais que você está tão acostumado.

 

Para isso, vá além dos estereótipos, se embrenhe na cultura alheia, faça perguntas, quebre os paradigmas, abra seu coração para novas possibilidades! Liberte-se dos rótulos, deixando-se aberto para novos amores e amizades das origens mais inesperadas.


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