Não espere a chuva passar

Há algum tempo atrás conheci uma moça italiana que me perguntou: Qual a diferença entre alemães e italianos?

 

Vendo as incógnitas que brotavam de meus olhos, ela revelou: os italianos esperam a chuva passar para sair de casa; os alemães desbravam qualquer tempo, faça chuva, sol ou neve. Têm uma carapaça esses germânicos, capazes de fazer um jogging esperto mesmo quando está aquele breu lá fora, de pedalar quilômetros sob chuva incessante, de passear com os filhos ao ar livre independentemente do tempo. 

 

O que existe aqui é o conceito de que não há tempo ruim. O que existe são roupas inapropriadas.

 

Então nesse último domingo aquele solzinho mixuruca resolveu aparecer novamente aqui em Munique, dando uma trégua na neve e na chuva de novembro. Que alívio, muitos pensaram, postando fotos iluminadas no Facebook. Não se engane, entretanto, pois aqueles ventos gelados ainda sopram a cada esquina. Mesmo assim, é hora de fazer um programa legal em família no domingão, já que o ¨sol¨ apareceu e está fazendo aquela temperatura gostosa de doze graus centígrados. Fomos, então, para o zoológico. Todos empacotados é claro, mas fomos.

 

No Brasil acho que isso seria inimaginável; até em Salvador, onde a temperatura mais baixa não chega a vinte graus, no momento que passa uma nuvem negra pela cidade as pessoas evitam sair de casa (tudo bem que a falta de preparo de Salvador para chuvas é um fator importante a considerar). Bastou a chuva cair, evita-se de sair. Fui criada assim, com aquele receio de se molhar, de sentir qualquer friozinho. Até uma alemã que fazia um intercâmbio em Salvador na minha época de universidade disse que brasileiro dirige na chuva como o alemão dirige na neve. Qualquer tempo que não seja ensolarado é quase uma ameaça ao nosso bem-estar.

 

Daí você chega na Alemanha, bem no meio do inverno, e se confronta com aquele bafo ártico. No começo é dífícil, principalmente quando a diferença de temperatura é de trinta, quarenta graus, quando amanhece às nove e escurece às quatro da tarde, quando o humor das pessoas vai ficando mais azedo com o correr dos meses frios. O corpo não se acostuma tão rápido como gostaríamos; o cansaço te invade, os ossos congelam. Lembro de minha mãe quando me visitou há alguns anos atrás, em junho (ou seja, no começo do verão). A temperatura? Dez graus. No verão. De tanto frio, minha mãe usava cachecol e luvas em casa, e casacão pesado na rua. O frio nos afronta de uma maneira tal que é quase impossível reparar em qualquer outra coisa a não ser naquela tremedeira que seu corpo dá toda vez que um vento gelado te pega de surpresa.  

 

Você então se pergunta como, pelo amor de Deus, que os povos do Norte conseguem apreciar o frio? Não conseguimos compreender esse caso de amor com o inverno!

 

É, afinal de contas, um mundo tão diferente para quem só havia vivido a consistência do clima equatorial, sempre doze horas de luz e doze horas de escuridão, sempre quente e úmido. Lembro dos meus primeiros dias na Alemanha e como foi difícil; tudo o que eu queria era ficar debaixo das grossas cobertas, de dormir o dia inteiro, aquela preguiça me abraçando com gosto.

 

Mas era para ficar em casa que me debandei de Salvador para Munique? Para ficar com medinho do frio? Não poderia me dar ao luxo de esperar o inverno passar; não tinha ainda garantias de quanto tempo eu ficaria (meu contrato de estágio era de seis meses). Até que você precisa decidir se fica o dia inteiro debaixo das cobertas ou se deixa o espírito alemão baixar em você, colocar aquele monte de apetrechos para te proteger contra o frio, e sair de casa.

 

Resolvi que, se quisesse aproveitar e me adaptar, teria que encarar a neve até o tornozelo, as inúmeras quedas deselegantes no chão congelado e escorregadio, a sensação de não conseguir falar devido ao congelamento de seus lábios. Tinha que encarar essas pequenas inconveniências, porque senão não teria conhecido nem visto nada. Mesmo com roupas nem sempre apropriadas, me aventurei nas montanhas de Garmisch-Partenkirchen quatro dias depois da minha chegada, fiz um passeio de barco pelo rio Vlatava em Praga num dia chuvoso de abril, me esquentei com um Glühwein nos lindos mercados de Natal. A única coisa que ainda não experimentei foi esquiar, mas isso porque tenho dois pés esquerdos para esportes de inverno.

 

Depois de doze anos de Alemanha, a gente começa a ver o mau tempo com outros olhos. É claro que existem limitações, que tem dias que você não aguenta mais os dias escuros (para mim até mais difícil que aguentar o frio), e você olha para o céu com aquela irritação à flor da pele, rezando para que um, umzinho só, raio do sol cruze o horizonte. Frio e escuridão, contudo, não são mais aqueles grandes impedimentos para sair de casa para mim. Demorei para apreciar a beleza do inverno, para acostumar o corpo e a cabeça, mas não mais tenho aquela vontade de hibernar durante a estação inteira. Afinal... a vida não espera a chuva passar.  

 


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