O inverno está chegando... e com ele, aquela vontade de retornar às origens

Vejo alguns flocos de neve em pleno novembro através da janela e, com aquela ansiedade de quem já prediz um longo inverno, me lembro de quando aterrissei em Munique, há quase doze anos atrás. Cheguei num dia gelado, no pico da estação mais fria e, quando peguei o trem do aeroporto para a minha hospedagem, não pude deixar de notar os campos brancos por todos os quarenta e cinco minutos de viagem. Vinda do calor abafado da Bahia, a diferença era gritante, meu coração batendo acelerado com a perspectiva de passar um frio miserável nessa terra de gente esnobe e sem coração. Admito que esses eram meus pensamentos e medos. Pronto, falei.

Já tinha passado pelo aperto do inverno alemão em Bremen entre 2002 e 2003, quando fiz um intercâmbio universitário na Hochschule Bremen por cinco meses. A experiência tinha sido legal, mas a verdade é que só fiz amizades com brasileiros, viajei pouco (na verdade, fui ao Egito duas vezes por causa de um namorado egípcio, mas isso conto em outro post), mal aprendi a língua (afinal, me enturmei só com os brasileiros) e senti um frio dos diabos. Decidi ir a Munique porque, depois de muito tentar achar um estágio através da AIESEC (associação estudantil que promove estágios internacionais), achei uma boa oportunidade na capital bávara. Simples assim.

 

De lá pra cá muitas águas rolaram; viajei um bocado, tive uns namoradinhos, avancei na carreira, casei, tive um filho. Nada demais, exceto pela distância não só física mas cultural que só vai aumentando a cada mês e ano que se passa longe da sua terra. De repente eu me pergunto: Onde é minha terra mesmo? Onde me sinto em casa? Onde estão minhas raízes?

 

A verdade é que quando os ventos do inverno chegam, você começa a fantasiar tudo de bom sobre o Brasil. O calor, a simpatia das pessoas, a comida deliciosa, as praias, a família... Tudo parece um sonho e você então se pergunta: Que diabos estou fazendo aqui na Alemanha, pelo amor de Deus?

 

Daí você pega um avião e volta para o Brasil, nem que seja só mesmo para pegar aquele bronze, recarregar as energias, ver a família e os amigos. Até aí tudo bem, só que... você se vê irritada porque a caixa do supermercado é mais lenta que internet de modem, que o sistema vive fora do ar onde quer que você vá, que todo mundo fala ao mesmo tempo e ninguém te ouve. Você se encontra com seus amigos e percebe que alguns te acham meio esnobe só porque você cometeu o pecado de morar no exterior. Falar sobre suas últimas férias na Tailândia é completo tabu; vai que sua fama de metida se espalha ainda mais. As pessoas criticam que seu filho tem sotaque e não fala português direito, mas ai de você se abrir a boca para rebater que ele fala dois idiomas. Você não suporta ir à praia porque a cada trinta segundos tem alguém tentando te vender alguma coisa ou pedir algum trocado para comer. Seu coração se parte com essa pobreza explícita que antes você achava normal, que você até conseguia ignorar. Você se vê numa mistura de inveja e repulsa com aquelas mulheres detentoras de exércitos de babás e empregadas que te olham de cima para baixo e te aconselham a cuidar mais de você. Enquanto isso, você mal consegue lavar o banheiro durante a semana ou trocar as toalhas; imagina só ir ao cabeleleiro!

 

Essas são as primeiras duas semanas: o choque cultural inverso, uma tsunami de emoções contraditórias e avassaladoras que te fazem repensar naquela fantasia que veio à mente enquanto você olhava para a neve. Você até sente saudade do país que te abrigou: dos pães, da rapidez e eficiência, dos iogurtes, da liberdade que se tem de ser franco e direto, do chocolate quente num dia frio, da mínima pobreza, da falta de olhares repletos de repreensão porque você não fez as unhas ou não usa maquiagem.

 

Daí você passa mais duas semanas na sua terrinha e aos poucos se reconcilia com o modo de viver mais tranquilo da Bahia. Alguém te ajuda a atravessar uma rua perigosa com seu filho, uma generosidade que nunca vi na Alemanha. As pessoas sorriem, conversam na fila do banco, dão dois beijinhos no rosto ao invés de apertarem as mãos, dançam até dizer chega, se purificam na água do mar. Aos poucos aquela necessidade de eficiência, de rapidez, de constante luta contra o relógio, vão te deixando. Não que você está readaptado, longe disso, mas pelo menos você não se sente mais um peixe fora d´água por completo.

 

Você então retorna e, abastecida da baianidade nagô, você quer abraçar as pessoas ao invés de apertar a mão, você quer sorrir mais, aproveitar a vida. Você sente que aquele bafo gelado não vai deixar você trazer toda aquela luz e calor que você quer espalhar, mas você persiste. Não tem como sobreviver esse inverno ártico sem calor humano, você pensa, e espalha todos aqueles quadros coloridos comprados no Mercado Modelo pela casa INTEIRA.

 

Talvez essa sensação esquisita de não pertencer a lugar algum nunca vá embora. Comigo está sempre ali; às vezes incomoda, mas na grande maioria é algo que me faz mais forte. É aliando a eficiência germânica com a tranquilidade e o calor da Bahia, mesclando um Genau com um Oxente, que vou surfando nessa onda multi-culti. Para mim não poderia ser diferente.


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Comments: 1
  • #1

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