Donald e Dilma: paralelos de vitórias que desafiam a razão

Eu jamais poderia fazer uma carreira na política, os que me conhecem sabem disso. Nem no mundo corporativo, onde politicagens são aspectos do dia-a-dia, eu procuro não me meter (se isso ajuda minha carreira ou não, daí é outra história). Não posso negar, entretanto, que a recente campanha para presidente dos Estados Unidos capturou minha curiosidade e atenção, a ponto de me ver colada na televisão para assistir o primeiro debate presidencial.

 

Quando anunciaram que Trump havia vencido, apesar de todas as pesquisas indicarem que Hillary seria a vencedora (a mesma escorregada que aconteceu no Brexit), muitos dos que conheço estavam chocados. Mesmo aqui do outro lado do oceano, os alemães se mostraram consternados, principalmente devido às crescentes comparações entre Trump e Hitler (o que sempre causa arrepios por aqui). Uma americana com quem trabalho me deu um forte abraço quando me viu, seus olhos cheios de lágrimas, suas palavras revelando a onda de choque que sacudiu a América. Ela, de Nova Iorque (um notório Blue State), perguntava-se como o país que se compromete com direitos humanos, liberdade de fé, direitos para homossexuais e igualdade racial (pelo menos em teoria) havia se deixado levar pelas promessas xenófobas, machistas, e quem sabe até inconstitucionais de Donald Trump.

 

Entretanto, até que ponto podemos de fato nos chocar com esse resultado?

 

Se você olhar ao seu redor, comece a perceber quem é o tipo que geralmente ganha atenção ou popularidade. Será a pessoa competente e preparada (independentemente de ser mulher ou não), ou será a pessoa que fala mais alto, que promete mundos e fundos? Quem é o tipo que geralmente é promovido nas grandes corporações e faz carreira? Será o homem ou a mulher? Será aquele que consegue fazer o seu marketing pessoal? Aquele que consegue captar o sentimento do momento e usar isso ao seu favor?

 

 

O cineasta e documentarista Michael Moore (aquele mesmo de Tiros em Columbine) fez a previsão precisa de que Donald Trump venceria. E sabe por quê? Porque as pessoas que apoiam Trump são de uma forma tão fundamentalistas quanto às suas idéias e convicções, estão tão atraídas pelas idéias estapafúrdias de Trump, que nem as escorregadas de decoro do homem laranja balançaram seus conceitos. Essas seriam as pessoas que acordariam cedo ou viajariam horas para votar, se fosse necessário.  Essas pessoas – os mais de 50 milhões de pessoas que votaram no candidato republicano – se sentiam tão esquecidas e ignoradas pelo sistema que Hillary representa que eles resolveram apertar o botão do foda-se.

 

Foda-se o status quo, eles disseram. Foda-se o establishment, que ignora a população rural ou cidades industriais em função de acordos de comércio livre e aceitam refugiados e os estupradores mexicanos. Foda-se, com um dedo médio em riste a todos os pecados que não só Hillary cometeu, mas os que ela representa.*

 

Pensando bem, esse resultado era mais previsível que dia de sol em Salvador da Bahia.

 

Enquanto isso, no Brasil...

 

Pode parecer maluquice comparar Donald e Dilma, mas eu não consigo evitar. E isso não é só pelo topete que une os dois em estilo, nem pelos discursos infames e despreparados de ambos. O que me instiga é a forma como os dois candidatos foram eleitos: as campanhas polarizadas como nunca vistas e, principalmente, como os dois, apesar de suas limitações discursivas, foram capazes de captar as infelicidades da maioria e usá-las para sua vantagem.

 

É lógico que o caso de Dilma – uma reeleição – é diferente da situação de Donald. Entretanto, antes de Dilma começar a campanha o país já dava sinais de crise econômica, a população já estava desgostosa (vide as passeatas e protestos pré-Copa), casos de corrupção já tinham explodido. Mesmo que Dilma não tenha sido indiciada em quaisquer dos processos, era pressuposto que, ou ela era muito estúpida para não ter conhecimento do que acontecia ao seu redor, ou era de fato corrupta por conivência. Independentemente da alternativa, o país reelegeu a presidenta.

 

A meu ver, existe um motivo principal: Aécio Neves, candidato do PSDB, representante das elites, era acusado pelo PT de planejar a eliminação do Bolsa Família; Dilma, mãe dos pobres e oprimidos, líder dos intelectuais, artistas (via Lei Rouanet) e simpatizantes da causa social, jamais eliminaria o benefício expandido pelo seu antecessor. Aqueles que se sentiam excluídos das políticas pro-business, ou seja, a população rural e pobre (as mesmas que elegeram Donald), resolveram apertar o botão do foda-se. No caso brasileiro, contudo, o foda-se foi para a mudança. Que fique o status quo!, grande parte da população brasileira decidiu. 

 

O denominador comum entre Donald e Dilma é, enfim, a polarização de uma sociedade democrática que não mais ouve o outro independentemente das argumentações racionais, intenso protecionismo e, principalmente, uma poderosa jogada de marketing. Foi só construir uma mensagem que explora rancores arraigados daqueles que vivem à margem do Estado e pimba! Os concorrentes não tinham chance.

 

A história se repete

 

Muitos dos analistas políticos, assim como pessoas comuns como eu, se perguntam em que direção o mundo está indo. Afinal, diversos partidos nacionalistas pipocam aqui no Velho Continente, a onda neo-nazista vira-e-mexe comete algum crime contra refugiados, Michel Temer lidera o Brasil com sua turma masculina e esclerosada, Donald começará a governar a maior potência com a promessa de construir o muro na fronteira com o México e de deportar milhões de ilegais para seus países de origem. Entretanto, quem sabe Michael Moore acerte de novo, quando disse que Trump não conseguirá completar os quatro anos de seu mandato. O futuro é incerto, mais do que nunca.

 

Resta que os líderes mundiais sigam o exemplo de Angela Merkel que, ainda em tom diplomático, condicionou o relacionamento com o novo líder aos valores comuns entre as duas nações: 

 

''Alemanha e Estados Unidos são unidos por valores —democracia, liberdade, respeito ao Estado de direito, dignidade das pessoas independentemente de sua origem, cor da sua pele, religião, gênero, orientação sexual e visões políticas'', disse a chanceler da Alemanha. “Com base nesses valores, me ofereço para trabalhar de perto com o futuro presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.''

 

*Esse ponto é magistralmente explicado pelo do jornalista David Wong, no artigo How Half of America Lost Its F**cking Mind (http://www.cracked.com/blog/6-reasons-trumps-rise-that-no-one-talks-about/).

 



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Comments: 2
  • #1

    Vagner (Tuesday, 22 November 2016 08:50)

    Visão interessante.

  • #2

    DINIS METELO (Tuesday, 29 November 2016 01:19)

    O problema basico e que todos estavam preocupados com o lado do predador (?) , que o Trump representava ou foi criado , e ninguem foi suficientemente habil para extrair o que realmente ele pretende .

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