O cínico descaso com a literatura verde-e-amarela

 

Não sei porque ainda me choco quando vejo o quão desvalorizada está a literatura brasileira. Não pela qualidade das obras que, dos clássicos aos contemporâneos, sempre têm estórias maravilhosas. Falo da falta de interesse das editoras e do público, um círculo vicioso de desinteresse pelo o que é produzido na terra do verde e amarelo.

 

Como alguns sabem – e agora é de conhecimento público, com esse blog – também eu escrevi um livro e espero um dia publicá-lo. Pensei, na minha ingenuidade de autora iniciante, que escrever o livro seria o mais difícil dessa jornada. Sabe de nada, inocente! O que dá mais trabalho é convencer uma editora que sua obra é digna de publicação (não estou falando daquelas que cobram para imprimir os livros). E sabe por quê? Porque o mercado é construído para os autores consagrados, para aqueles que já conseguiram seu lugar ao sol.

 

É claro que as editoras, empresas como quaisquer outras que precisam de lucro, vão dar prioridade aos autores já conhecidos pelo público. O consumidores, que já não têm tanto dinheiro assim para gastar em livros (afinal, os livros no Brasil são praticamente artigo de luxo), não arriscam em conhecer o novo. Vão comprar os Cinquenta Tons de Cinza, qualquer livro do Dan Brown ou da J.K. Rowling (diga-se de passagem, com a exceção de Cinquenta Tons, que achei chato até dizer chega, sou fã de carteirinha de tudo que a J.K. Rowling escreve, portanto isso não é crítica a esse autores em si). Na última vez que chequei a Amazon Brasil, os bestsellers nacionais eram da Bel Pesce, dentre outros de auto-ajuda, mas de literatura nacional, nada!

 

Não me engano que assim também é em todo lugar, até aqui na Alemanha, paraíso da literatura. Quando fui à Feira de Livros de Frankfurt (www.buchmesse.com) há algumas semanas atrás, também não encontrei editoras que me dessem um sorriso sincero quando em me apresentava como autora iniciante. Entretanto, foi quando visitei o stand do Brasil que realmente me choquei.

 

As publicações exibidas ali eram reflexo de como a literatura brasileira não é levada a sério nem mesmo pelos editores nacionais, que não fazem questão de levar a literatura contemporânea para as prateleiras internacionais. No stand brasileiro vi inúmeros títulos infanto-juvenis, de sociologia, história brasileira, cirurgia plástica, auto-ajuda, odontologia, dentre outros. No stand da Companhia das Letras avistei livros infantis e uma senhora que procurava se distrair com um livro qualquer, tentando espantar o marasmo.

 

Onde estavam os novos autores de hoje em dia?, eu me perguntava enquanto analisava cada prateleira inúmeras vezes. Cadê Luiz Ruffato (que por acaso estava sendo divulgado pela editora alemã que o publicou, A1 Verlag, já que ele recebeu o prêmio Hermann Hesse de 2016)? Onde estavam Adriana Lisboa, Patrícia Melo, Carola Saavendra, dentre tantos outros? Onde estavam os clássicos da nossa literatura, de Jorge Amado a Monteiro Lobato?

 

Não que isso deva ser uma surpresa. Na última vez que estive no Brasil eu já havia me assustado com a falta de interesse pela literatura nacional; os lugares de destaque nas livrarias estavam destinados aos bestsellers internacionais apenas, ou àqueles clássicos que os jovens precisam ler para o vestibular. Em Salvador praticamente não se achava obras da literatura brasileira atual, todas elas escondidas na prateleira mais baixa ou mais alta, fora do alcance ocular do leitor.

 

Sem algumas mudanças estruturais no campo editorial, no preço e impressão de livros (por exemplo, cadê os pocket books no Brasil?), até nos projetos culturais financiados pela Lei Rouanet (que não vou entrar em detalhes, pois não recebo benefício nem sou especialista), em iniciativas que promovam a literatura brasileira para o público, não saíremos desse círculo vicioso. E com isso não é só o autor que perde em oportunidades para se estabelecer nesse mercado, precisando fazer acrobacias para conciliar o emprego que sustenta o corpo e a literatura que sustenta a alma. É principalmente o povo brasileiro o grande perdedor, aos poucos sufocando um dos maiores pilares de sua própria cultura. 

 

Todavia, nem tudo é pessimismo. Enquando o mercado tradicional coloca barreiras para que a literatura brasileira se renove com novos nomes, as plataformas virtuais dissiminam-se e criam novas oportunidades para autores. É tudo ainda um novo mundo de possibilidades que muitos dos autores e consumidores old-school ainda não se sentem confortáveis, mas que oferecem uma porta aberta aos escritores consagrados e novos, por um preço mais acessível para os leitores. Talvez essa seja uma das respostas para revigorar nossa literatura?

 

Ainda é cedo para dizer, porém espero que a revolução no mercado editorial crie mais chances de colher novas safras de talentosos escritores no nosso país e, quem sabe, possamos ressucitar o interesse pela literatura brasileira contemporânea.

 

Esse artigo é baseado em impressões pessoais e não tem qualquer intuito de criticar escritores aqui mencionados.

 


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